Está cada vez mais claro que as crises sanitária, econômica e política vão exigir do país uma repactuação política e, na sequência, a reinvenção do contrato social. Enquanto isto, o governo Bolsonaro segue ao trancos e barrancos. A dinâmica política de Bolsonaro não é a da convergência. É da divisão. Este é o alimento de sua base social.
Ele segue nesta direção, ainda com apoio popular. Mas sua agenda se perdeu no caminho. A agenda de costumes; o lavajatismo; e a agenda liberal na economia. Sua base social persiste, mas fragmentou-se e encolheu. A chamada nova direita não é homogênea. Ela tem subgrupos. O grupo mais autoritário, patriótico, simpático à intervenção militar e reacionário nos costumes – que permanece. E os conservadores tradicionais, dentro do campo democrático, além dos liberais – estes dois se afastaram.
Temos um vácuo de narrativas e agendas. A política não convive com vácuos e incertezas. Vem daí que, mais dia, menos dia, uma repactuação será imperativa. Não me refiro à ideia de “pacto”. Intuo algo mais concreto: uma aliança política com base numa agenda mínima para o país. Também não me refiro a uma improvável formação de um “centro democrático”. Refiro-me a um arranjo político para atravessar as tormentas da pós-pandemia, no que restará de 2020 e no que poderá vir em 2021 e 2022.
Um arranjo transversal, por que não? Numa situação de reconstrução, com uma realidade típica de pós-guerra, até os contrários podem fazer um armistício de não agressão para atravessar o rubicão. O instrumento desta convergência transversal temporária seria uma agenda mínima. Sem fulanizar. Não temos, no momento, uma liderança nacional com peso e desprendimento político para amalgamar esta agenda.
O chamado centro não ganhou impulso. As esquerdas estão divididas. A direita também. A sociedade está fragmentada, vivendo o drama da miséria, da pobreza, do desemprego e da quebradeira das empresas. As incertezas do futuro, num país que já foi o país do futuro. Por isto, este arranjo político precisa ser alinhavado transversalmente por instituições e suas respectivas lideranças, e não por líderes isolados e/ou futuros candidatos.
"Vivemos incertezas do futuro, num país que já foi o país do futuro. Por isto, este arranjo político precisa ser alinhavado transversalmente por instituições e suas respectivas lideranças, e não por líderes isolados e/ou futuros candidatos"
Penso no Congresso; nos governadores; nas elites empresariais; e nas entidades da sociedade civil com apoio social, como a CNBB, a OAB e outras entidades civis ou religiosas. Buscando respaldo no Supremo e diálogo com a presidência da República e com as Forças Armadas. A agenda mínima seria a base para o diálogo e a aliança. Ela passa pelo Congresso. Eis algumas questões com efeitos estruturais: (1) renda mínima e reaglutinação dos programas sociais; (2) fortalecimento do SUS; (3) marcos regulatórios do saneamento e do gás; (4) reformas administrativa e tributária; (5) PEC da Federação; (6) semipresidencialismo e voto distrital misto.
Esta aliança seria ponto de partida para, depois, o país cuidar de reinventar o seu contrato social. Mas esta é outra conversa.