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Cenário

Com sua opção de governo, Bolsonaro está cometendo suicídio político

Felizmente, todos acabaram reagindo e ouvindo o ruído dos panelaços. É hora de grandeza. Trata-se da sobrevivência à uma pandemia devastadora. Trata-se da ameaça real da miséria, da pobreza, do desemprego

Públicado em 

21 mar 2020 às 05:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Presidente Jair Bolsonaro Crédito: Alan Santos/PR
O presidente Bolsonaro pode estar cometendo suicídio político. Até Trump, que parece ser seu “ídolo”, caiu na real. Mas Bolsonaro demorou a cair a ficha e ainda está atordoado com o barulho dos panelaços. Em apenas 15 dias, a sua crescente alienação, o seu surto e suas ideias ineptas e diversionistas ajudaram a derrubar a Bolsa e a puxar ainda mais ladeira abaixo o ritmo da economia brasileira. Agora é crescimento negativo à vista.
Fora Bolsonaro - que está em processo de reação, mas ainda é um ponto fora da curva, e que todo mundo torce para ter algum prumo e alguma liderança - , a condução da pandemia no Brasil, até agora, tem sido competente e adaptada à nossa realidade cultural. O ministro Mandetta, felizmente, já compreendeu que não podemos adotar o modelo de reação do Reino Unido, que demorou a reagir.
Mandetta e as autoridades sanitária, juntamente com os governadores e os cientistas e médicos, têm contribuído para um mínimo de consenso em torno de um “norte”. O norte do isolamento social, mirando as experiências da Coreia do Sul, do Japão e da China. Felizmente, temos o SUS. A capilaridade do SUS vai ser essencial.
Aqui no ES, o governo estadual reagiu rápido e o governador tem exercido liderança efetiva em articulação com os outros poderes, com as autoridades sanitárias e com o ministro da Saúde. Aqui, as medidas sanitárias e as medidas econômicas estão na direção correta. No país, e aqui, a estratégia de contenção do ritmo da pandemia está ganhando timing e sincronia, mostrando a nós brasileiros que precisamos fazer a nossa parte. Vamos torcer para que as imagens das praias cheias no domingo passado, no Rio de Janeiro, acabem sendo um ponto fora da curva.
No plano econômico, o governo federal demorou um pouco a entender que as soluções não podem ser soluções de manuais. É preciso gastar e “inventar” dinheiro. Demorou, mas em seguida reagiu rápido. Agora, é ir entendendo que se trata de economia de guerra. E ir fazendo sintonia fina e aumentando as dosagens. Por exemplo, o teto de R$ 200 para os trabalhadores informais é menor do que a metade de uma cesta básica, que custa R$ 500. Por exemplo, ainda, é preciso permitir que os lojistas de shoppings adotem o sistema “delivery”. E assim por diante.
No mundo inteiro, já há consenso de que a saída requer a consciência de que a crise não é “apenas” de saúde pública. A crise econômica é muito pior do que a crise financeira de 2008. Crise de oferta e demanda ao mesmo tempo. Estagnação e crescimento negativo na veia do sistema econômico e social. Crise sistêmica.
Os bancos centrais começaram bem. Os governos nacionais têm que assumir o ônus. Injeção de liquidez, de crédito, de gastos públicos, de política monetária, tudo junto e misturado. Outra vez: inventar dinheiro, para além dos manuais. Mais para Keynes, para André Lara Rezende e para o chamado “quantitative easing” praticado em 2008 (expansão da oferta de moeda na economia). Menos para os manuais ortodoxos. O ministro Guedes já entendeu.
Enquanto isto, no Brasil , o Executivo e o Congresso andaram se perdendo em disputas de poder até infantis e em interesses mesquinhos. O Legislativo andou tergiversando. O Executivo andou diversionista e batendo cabeça, com o presidente com mania de perseguição e enxergando a fantasia de um “golpe”. Felizmente, todos acabaram reagindo e ouvindo o ruído dos panelaços. É hora de grandeza, de sentido de urgência, de visão de estadista. Trata-se da sobrevivência à uma pandemia devastadora. Trata-se da ameaça real da miséria, da pobreza, do desemprego.
Decretado, no Brasil, o estado de calamidade pública, o país passa a ter instrumentos fiscais para gastar o que for necessário. É hora do Estado, mais do que do mercado. A população quer um governo nacional de qualidade, com capacidade de gestão e ação. Ainda bem que o Brasil tem o SUS.
Nesta hora de ameaças à sobrevivência de milhares, a capilaridade do SUS poderá fazer a diferença. O SUS andava meio abandonado pelo governo. Mas ele está de pé. É preciso acioná-lo com a devida competência para chegar a tempo em todos os cantos deste país continental. Neste quesito, já se disse por aí, estamos melhores do que os Estados Unidos, que não possuem um sistema de saúde como o nosso.
Um aprendizado valioso está em curso: a crescente consciência de que somos um comunidade global. Sem fronteiras... Tomara que este aprendizado se cristalize como visão de mundo. Vamos precisar mesmo mudar nossos modelos mentais e nossos modelos de sociedade e de bem-estar.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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