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Bolsonaro continua não respeitando os limites institucionais

Ele é o presidente, eleito democraticamente, mas não pode tudo. Precisa de limites. Precisa aprender a agir como um chefe de Estado, sem claques. Insinuação feita sobre conduta de repórter da Folha de S. Paulo é reprovável

Publicado em 18/02/2020 às 21h19
O presidente Jair Bolsonaro conversa com turistas no Palácio da Alvorada. Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil
O presidente Jair Bolsonaro conversa com turistas no Palácio da Alvorada. Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

É irônico que tudo tenha começado quando um depoente foi acusado de mentir a uma CPMI do Congresso criada justamente para combater as fake news, mas isso já é notícia velha. A participação de Jair Bolsonaro é a novidade - incômoda, constrangedora e inadmissível - neste episódio. Tornou-se seu protagonista real demais, pervertendo o próprio cargo que ocupa.

Ele, na condição de presidente da República, não comete apenas um deslize ao desmoralizar a repórter Patrícia Campos Mello com uma piada infame, de cunho sexual. Bolsonaro endossa uma calúnia, articulada para atacar deliberadamente uma profissional. Não há inocência: ao mirar a jornalista da Folha de S. Paulo, Bolsonaro acerta em toda a imprensa profissional. E chacoalha um dos pilares fundamentais da democracia.

O comportamento do presidente se ampara numa percepção, compartilhada por grande parte de seus apoiadores, de que a falta de decoro o aproxima do cidadão comum, avesso a atitudes protocolares por sua associação imediata com a hipocrisia dos políticos ditos tradicionais. É resultado da aversão às instituições, mas ignorando as bases mínimas da convivência e da civilidade. Um presidente não pode ser o porta-voz da infâmia.

É tão absurdo que um presidente se dirija dessa forma a uma jornalista – ou a qualquer cidadão do país que ele governa. Mais de um ano após a sua posse, Bolsonaro continua o mesmo boquirroto de sempre, entrincheirado nas redes sociais e de costas para o respeito institucional que deveria ser sua principal bandeira. Não é.

Já havia sido grave quando o filho Eduardo, um congressista, não só embarcou na maledicência promovida por Hans River do Rio Nascimento durante seu depoimento à CPMI das Fake News, na semana passada, como jogou mais lenha na fogueira. O puxão de orelha paterno deveria ter aparecido nessa ocasião. Não se poderia imaginar a tragédia que se seguiria.

Bolsonaro é o presidente, eleito democraticamente, mas não pode tudo. Precisa de limites. Precisa aprender a agir como um chefe de Estado, sem claques. Nenhum presidente chega ao poder como uma unanimidade, mas lideranças de um país almejam ao menos serem respeitadas por seus cidadãos. Bolsonaro só consegue se afastar dessa meta com seu comportamento reprovável.

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