Estamos todos discutindo se o presidente Jair Bolsonaro vai ficar, se haverá autogolpe ou golpe militar, ou se caminharemos para um novo impeachment. A tônica do debate tem sido esta. Nesta toada, não estamos dando a devida atenção a um problema maior da conjuntura: temos um problema de hegemonia. Abriu-se um vazio que não é apenas de lideranças. É também da ausência de projeto nacional com a devida base social.
Neste vazio, que produz um vácuo de poder político nacionalmente legitimado, Bolsonaro, vai ficando. Corajoso, destemido, e hábil manipulador da força (ainda relevante) das redes sociais, ele alimenta seu “bunker” de base social e se mantém no patamar de 25% a 33% de apoio. Paradoxalmente, ele desestimula o isolamento social e ganha a simpatia do grande contingente de desempregados e pequenos e médios comerciantes que estão quebrando. E ainda se beneficia da “simpatia”, mesmo que temporária, dos milhares de “invisíveis” que estão recebendo o auxilio emergencial de R$ 600.
O governo está em crise, sim. Crise de autoridade e de governança. Tensionada internamente, a gestão Bolsonaro (des)governa em zigue-zague. A crise de autoridade é também de governabilidade. A fricção do Executivo com o Legislativo e o Judiciário é cotidiana. Mas Bolsonaro segue desafiando as instituições democráticas. Militariza mais ainda a formação da sua equipe de governo e abre diálogo com o Centrão na Câmara dos Deputados. Oferece cargos e pratica o que ele chama de “velha política”. É a sua vacina contra o impeachment.
Tudo isto vai sendo contornado pela moderação do Congresso, dos governadores e do Supremo. Mas esta moderação é insuficiente para o país voltar a ter rumo. Há um vácuo de hegemonia. Um país continental e heterogêneo como o Brasil não ganha tração e direção política sem um projeto nacional pactuado por forças sociais, econômicas e políticas.
Eis aí o nosso “cul-de- sac”: uma crise de liderança e, mais do que isto, uma crise de projeto nacional. Não é só a direita do espectro político que está dividida. O centro também. As esquerdas também. Tudo somado, temos uma crise de autoridade que alimenta e é alimentada por um problema de hegemonia. Um impasse político-institucional. Haverá capacidade política para construir um projeto nacional, ou seguiremos aos trancos e barrancos? Nossas elites conseguirão se entender? Não é mais hora de tertúlias ou palavras de ordem.