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(Mais um) ataque a jornalistas

Bolsonaro, afaste do Brasil este “cale-se”

A quem interessa calar a imprensa? Quem é que ganha com isso? Certamente, não é o cidadão comum, não é a cidadania e muito menos a nossa democracia. Mas parece que é exatamente isso que deseja o presidente Jair Bolsonaro.

Publicado em 05 de Maio de 2020 às 19:07

Públicado em 

05 mai 2020 às 19:07
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Presidente Jair Bolsonaro. Ao fundo, de máscara, a primeira-dama Michelle Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro. Ao fundo, de máscara, a primeira-dama Michelle Bolsonaro Crédito: Alan Santos/PR
Quem quer calar a imprensa? A quem interessam jornalistas amordaçados, amedrontados e intimidados no exercício de seu papel social de levar informações à população? Quem é que ganha com isso? Certamente, não é o cidadão comum, não é a cidadania e muito menos a nossa democracia. Mas parece que é exatamente isso que deseja o presidente Jair Bolsonaro.
“Parece” não, me corrijo. O incivilizado “cala a boca!”, sem rodeios, dirigido por ele a jornalistas que cobrem o Planalto na manhã desta terça-feira (5) verbaliza o desejo mais recôndito do mandatário: governar em um país sem imprensa livre a veicular o que ele preferiria não ver publicado. É mais um grave passo na escalada da violência exercitada e incentivada pelo presidente da República contra a imprensa profissional, que não pode se calar diante de mais essa tentativa de a silenciarem.
O pouco apreço do presidente pela imprensa dialoga estreitamente com o seu desprezo pela democracia em geral, reiteradamente demonstrado por ele. Afinal, é ela, a imprensa, um dos mais importantes alicerces do nosso edifício democrático, construído a duras penas pelos verdadeiros democratas deste país. De todas as instituições democráticas que claramente desagradam a Bolsonaro e com as quais ele não sabe lidar, nenhuma o incomoda mais que a imprensa livre.
E não é para menos. A imprensa é a representação mais viva e pujante de uma verdadeira democracia, aliás, está na essência da própria ideia de democracia: fiscaliza Poderes e poderosos; lança luz e detergente sobre aquilo que governantes e autoridades em geral gostariam que não chegasse ao conhecimento do público. Parece ser o caso de Jair Bolsonaro.
Qualquer regime democrático pressupõe imprensa livre. Mas a dificuldade de Bolsonaro em conviver com essa instituição diz muito sobre a sua dificuldade em lidar com a própria democracia. Não por menos, tem flertado mais desbragadamente a cada dia com o autoritarismo, avalizando atos populares com pauta expressamente antidemocrática. Foi assim no último domingo, quando deu, da rampa do Planalto, o seu endosso pessoal a manifestação que pedia o fechamento do Congresso e do STF, um “novo AI-5” e uma “intervenção militar” (eufemismo para um golpe de Estado que seria protagonizado pelas Forças Armadas).
Durante o ato, profissionais de imprensa que estavam ali a trabalho, no estrito cumprimento do seu dever profissional de cobrir a manifestação, foram covarde e fisicamente agredidos por manifestantes. No dia seguinte (4), Bolsonaro afirmou que, se “houve agressão, é alguém que está infiltrado, algum maluco, deve ser punido. Não existe agressão da nossa parte”.
Difícil crer na franqueza de tais palavras, até porque, como ele mesmo tornou a provar nesta terça-feira, existem sim agressões, graves e contínuas, do próprio Bolsonaro contra jornalistas. Com a mesma mão que afaga, o presidente ataca. Na verdade, o exemplo para os apoiadores parte de cima, dele próprio, com o tratamento agressivo que dispensa pessoalmente à imprensa.
Tratar a imprensa como inimiga a ser literalmente batida e sentir-se liberado e à vontade para agredir jornalistas com socos e pontapés é algo muito comum entre tais manifestantes. E é o próprio Bolsonaro quem faz esses apoiadores se sentirem empoderados, encorajados e desinibidos para procederem assim, com seus constantes arroubos contra veículos de imprensa (pessoas jurídicas) e profissionais que cobrem diariamente o Planalto (pessoas físicas).
Um dia após falar de “infiltrados”, em mais uma dessas tristes demonstrações de destempero verbal e descontrole emocional, o presidente manda repórteres que o entrevistavam “calarem a boca”. Algum apoiador vai mesmo achar que deve respeitar algum limite? Que deve algum respeito a jornalistas?
Antes disso, em outras tantas exibições gratuitas de virulência, desrespeito e desequilíbrio, Bolsonaro já havia submetido jornalistas a toda sorte de humilhações, distribuindo bananas para eles, pondo um humorista para responder a perguntas em seu lugar e debochando da “aglomeração de jornalistas” que dizem “fique em casa”, mas se reúnem ali, diariamente, no cercadinho reservado a eles na entrada do Palácio da Alvorada, cruelmente posicionado ao lado da claque de apoiadores que se comprazem em hostilizá-los (outra humilhação deliberada).
Uma covardia do presidente, pois, como ele sabe bem, aqueles profissionais na certa prefeririam estar em qualquer outro lugar que não ali, mas precisam se sujeitar a tais humilhações por conta do dever profissional de ouvir o que justamente ele, o presidente da República, tem para dizer à nação (e, muitas vezes, o que ele tem a dizer “à nação” são impropérios e vitupérios contra a própria imprensa). Mesmo assim, esses profissionais ali estão, dia após dia, só para entrevistá-lo e ouvi-lo.
No último domingo, falando à militância pró-golpe de Estado, Bolsonaro disse “chegamos no limite”. E chegou mesmo, em muitos aspectos. Com o “cala a boca!” desta terça-feira, além de negar as agressões a jornalistas documentadas no domingo, o presidente atingiu o limite do destempero e da violência gratuita contra representantes da imprensa. Ou talvez não tenha chegado, pois, em se tratando de Jair Bolsonaro, já está mais que provado: não há limite que não possa ser alargado. Não por acaso, a cena ocorreu exatamente ao lado do seu “auditório”, no já mencionado cercadinho do Palácio da Alvorada.
Qual será o próximo passo, então, nessa escalada de desequilíbrio e agressividade contra a imprensa? Romper, literalmente, o limite físico interposto entre ele e os jornalistas e pular o cercadinho para dar, ele mesmo, safanões em repórteres?
Um dia após a morte de um vulto da MPB, Aldir Blanc - autor de hinos contra o arbítrio da ditadura militar -, peço licença para encerrar este texto parafraseando outro dos grandes compositores gerados por este país e autor de outros tantos hinos que marcaram o período de autoritarismo a que nosso presidente faz odes: Chico Buarque, tão repudiado por ele.
Presidente Bolsonaro, “afaste de nós esse cálice”. Afaste do Brasil esse “cale-se”.
Desde a redemocratização, muitos tentaram calar a imprensa antes de Vossa Excelência. Todos fracassaram. Vossa Excelência também pode tentar à vontade.
Não há de calar a imprensa livre.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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