O
pedido de demissão do ex-ministro Sérgio Moro aprofunda e amplia as dimensões da crise política. Em Brasília, na sexta-feira (24), fontes ligadas ao ministro Paulo Guedes colheram intenções e possibilidades de ele ser o próximo a sair. É esperar para ver.
A atuação política errática do presidente
Jair Bolsonaro aprofundou a instabilidade política. A recorrente falta de coordenação das ações do governo federal emperram e procrastinam ações cruciais para o combate à pandemia do
coronavírus. Tudo somado, o presidente se isola e se fragiliza e o governo entra em paralisia decisória.
Uma crise de governo já está instalada. Caberá às instituições da jovem democracia brasileira atuar, mais uma vez, para evitar que a crise de governo se transforme em crise de Estado. É preciso moderação, diálogo e sabedoria política. No auge de uma pandemia avassaladora, uma crise político-institucional, desaguando em eventual crise de Estado, será a abertura da porta do caos. O povo brasileiro não merece isso. O país não aguenta esse tranco.
Moro era um pilar importante do governo Bolsonaro. Sua história de combate à corrupção, no processo da Operação Lava Jato que ele liderou, o credenciou para ser ministro da Justiça. Sua boa imagem era fundamental para a imagem do governo Bolsonaro. E agora?
Paulo Guedes era (é ainda?) outro pilar importante do governo. Mas o seu recente despreparo para atuar fora da caixa da receita liberal e a sua inexperiência de manejo da máquina pública, diante de uma situação dramática, o levaram para escanteio. Ele vai ter resiliência? Ele sabe lidar com os tradicionais serpentários palacianos? Sobram, ainda, duas ilhas importantes de competência: a ministra Tereza Cristina e o ministro Tarcísio. Até quando?
Certamente, o governo não será o mesmo depois de Moro. Temos, aí, um divisor de águas. Os ministros militares do Palácio do Planalto passam a ter mais importância ainda para a tarefa de coordenar a gestão e mitigar a instabilidade política. O vice-presidente Mourão precisa entrar na muda.
O que é certo é que as incertezas aumentaram. A complexidade para costurar saídas, também. Entre pedidos de renúncia, de impeachment e de golpe, teremos de tudo. O
Congresso e o
Supremo, alvos de ataques recorrentes de iras, no caldo da exacerbação do ódio, terão missões e papéis cruciais e históricos. As Forças Armadas também. Todos precisamos ouvir o que Moro disse no seu anúncio de demissão: “Eu não tenho vocação para carbonários muito pelo contrário...”.