Em se tratando de estruturas de transporte sob responsabilidade do governo federal no Espírito Santo, o grande mérito do atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi conseguir salvar a concessão do trecho da BR 101 que corta o Espírito Santo e, mais importante, fazer as obras andarem. O contrato, feito originalmente pelo governo Dilma Rousseff, em 2013, era ruim, as obras não andavam e, em julho de 2022, a concessionária EcoRodovias chegou a devolver o ativo ao governo federal. É um mérito, fato, mas a lista de débitos em infraestrutura que Brasília ainda precisa quitar com o Espírito Santo segue longa. A antiquada (para dizer o mínimo) BR 262 que o diga...
O próximo presidente da República terá alguns abacaxis para descascar por aqui. Se tiver visão mais estratégica, vai entender que os entraves capixabas travam também o escoamento de cargas do país, já que o Estado se apresenta, com cada vez mais força, como plataforma logística para o Brasil. Um movimento que vai se intensificar ao longo dos próximos quatro anos, com as inaugurações do Porto da Imetame (2027) e do Porto Central (2028), e com os investimentos em ampliações que estão sendo feitos por Vports (Porto de Vitória) e Portocel.
Na BR 101, além de ter liderado a alteração do entendimento que vigorava (seria preciso licitar o contrato novamente, o que levaria alguns anos) e conseguido reformar o acordo com a concessionária EcoRodovias, o Contorno do Mestre Álvaro, que passou a pertencer à 101 e se arrastava desde 2008, foi em dezembro de 2023. Até o final de 2028, será concluída a duplicação completa entre o trevo da BR 259, em João Neiva, e Safra, na entrada para Cachoeiro de Itapemirim. Um grande avanço diante do péssimo contrato firmado em 2013 e das obras que se arrastaram até 2022.
Na lista dos desafios capixabas para o próximo governo federal estão: BR 262, BR 259, renovação da Ferrovia Centro Atlântica (FCA) e a construção da Estrada de Ferro 118 (ligação pelo litoral até o Rio de Janeiro). Em todos estes temas sobram promessas, estudos e datas não cumpridas. É o caso da 262, principal ligação rodoviária entre Espírito Santo e Minas Gerais. Após duas tentativas fracassadas de concessão, o governo federal entendeu que precisaria assumir o projeto de ampliação e modernização e, mais importante, colocar dinheiro. Após várias promessas de entrega de projeto e licitação, o atual ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou, agora em agosto, que os editais para a contratação da duplicação serão publicados no final de outubro e que as obras começarão nos primeiros meses de 2027. O investimento previsto é de R$ 8,6 bilhões, sendo que mais de R$ 2 bi serão injetados pelo governo capixaba, a partir de recursos que estão sendo pagos na indenização da Samarco.
Outra que, ao que parece, está adiantada, é a Ferrovia Centro Atlântica. A estrutura nem passa pelo território capixaba, mas é fundamental para colocar carga de Minas Gerais e Centro-Oeste na Estrada de Ferro Vitória-Minas (elas se conectam na Região Metropolitana de Belo Horizonte). No final de julho, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) aprovou a priorização do investimento no contorno ferroviário de Belo Horizonte no novo contrato que está sendo fechado entre o governo federal e a concessionária VLI Logística. A ideia é ampliar a eficiência do corredor ferroviário que vai do litoral capixaba ao Brasil Central, atraindo mais carga para a plataforma logística do Espírito Santo. A proposta de renovação da concessão, um negócio de R$ 29,6 bilhões, está sob análise do Tribunal de Contas da União.
Ainda dentro do tema ferrovias, está a EF 118, ligação entre Vitória e Rio de Janeiro que pretende conectar, por exemplo, o Porto Central à malha brasileira. Trata-se de uma questão que se arrasta há muitos anos e, em 2021, ganhou um capítulo importante, quando a Vale assumiu que construiria o trecho entre Santa Leopoldina e Anchieta como contrapartida da renovação antecipada da Ferrovia Vitória-Minas. Foram várias idas e vindas nos últimos anos e nada de obra. Agora, o mesmo George Santoro promete que o edital para a construção do primeiro trecho da ferrovia, entre Santa Leopoldina e São João da Barra (onde fica o Porto do Açu), sai até o final de outubro. O investimento supera os R$ 6 bilhões.
Por fim, voltando para as rodovias, temos a BR 259, ligação importante com Minas Gerais partindo de João Neiva, e a BR 447, que faz a conexão das BRs 101 e 262 com a Rodovia Leste-Oeste e facilita o fluxo de cargas para os terminais portuários de Vila Velha. Na 259, apenas promessas sobre modernização e ampliação da via. Nada de concreto. Sobre a 447, obra de 4,3 quilômetros iniciada em 2019, a previsão de entrega é para o final de 2026. Lembrando que algumas outras promessas como esta já foram feitas e não foram cumpridas.
A solução da 101 foi uma grande vitória do atual governo Lula, entretanto, como vimos, sobram demandas, projetos e promessas (algumas bem antigas) quando o assunto é a infraestrutura federal no Espírito Santo. A ver a postura do próximo presidente, será cobrado por isso.
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