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Hitler enviou médicos nazistas para o ES para atestar "pureza da raça"

Equipe de médicos percorreu a Região Serrana do Espírito Santo, em 1936, para saber se os imigrantes alemães mantinham sua "germanidade" em ambientes tropicais. Pesquisa tinha o intuito de colaborar com os planos de Hitler para expandir o território alemão

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 02/02/2020 às 08h28
Adolf Hitler: Espírito Santo teve papel importante nos planos do Terceiro Reich. Crédito: Getty Images
Adolf Hitler: Espírito Santo teve papel importante nos planos do Terceiro Reich. Crédito: Getty Images

Destino de muitos alemães durante o século XIX e início do século XX, o Espírito Santo fez parte dos planos colonialistas de Adolf Hitler durante o Terceiro Reich, entre 1933 e 1945, quando governou a Alemanha. O "führer" chegou a enviar, em 1936, uma equipe de médicos nazistas para o Estado, a fim de atestar a “pureza da raça alemã” entre os imigrantes que se estabeleceram nas montanhas capixabas.

A missão dos nazistas, contudo, não era "invadir" o Espírito Santo, mas, sim, saber como se portavam os alemães em regiões de clima tropical. A ideia era verificar se os alemães manteriam sua "germanidade" – termo que era utilizado na época – em ambientes mais quentes. O estudo era considerado essencial para os planos de Hitler de retomar as colônias que os alemães perderam na África, após a Primeira Guerra (1914-1918).

Equipe do médico Gustav Giemsa (o sétimo da esquerda para a direita) em seu laboratório na Alemanha. Crédito: Reprodução
Equipe do médico Gustav Giemsa (o sétimo da esquerda para a direita) em seu laboratório na Alemanha. Crédito: Reprodução

O registro do período foi feito pelo pesquisador da Casa Oswaldo Cruz/Fiocruz André Felipe Candido da Silva, a partir das cartas trocadas entre dois médicos da equipe enviada por Hitler, Ernst Nauck e Gustav Giemsa, com o médico brasileiro Rocha Lima.

Em cerca de dois meses, eles estiveram nos municípios de Domingos MartinsLaranja da TerraSanta Maria de JetibáBaixo Guandu e Santa Leopoldina. "O Espírito Santo foi escolhido para a visita por concentrar um grupo de imigrantes alemães isolados por fatores geográficos, os quais teriam desfavorecido a miscigenação com a população local e, por isso, teriam mantido as características biológicas e culturais originais. Para os nazistas, as colônias germânicas do sul do Brasil eram muito miscigenadas com outras 'raças'", explica o pesquisador.

RECEBIDOS PELO GOVERNADOR

A equipe chefiada pelos médicos Nauck e Giemsa chegou primeiro no Porto de Santos, em São Paulo, onde foram recebidos pelo adido da Embaixada Alemã e chefe do Partido Nazista no Brasil, Hans Henning von Cossel. Na época, o nazismo era uma ideologia que ganhava alguns adeptos no país. O próprio presidente brasileiro do período, Getúlio Vargas, mantinha simpatia pela Alemanha hitlerista.

Getúlio Vargas entrega bandeira a João Punaro Bley, interventor do Espírito Santo, em cerimônia no Catete em 1937. Crédito: Arquivo FGV
Getúlio Vargas entrega bandeira a João Punaro Bley, interventor do Espírito Santo, em cerimônia no Catete em 1937. Crédito: Arquivo FGV

Em Vitória, os médicos nazistas foram recebidos pelo interventor nomeado por Vargas para governar o Estado, João Punaro Bley. O Brasil naquele período vivia a ditadura do Estado Novo e os Estados não elegiam seus governadores, que eram nomeados pelo presidente.

A primeira parada da expedição foi em Santa Teresa, onde se instalaram e de lá partiram para outras regiões para coletar amostras de fezes e sangue dos colonos alemães. Segundo Candido da Silva, as cartas demonstram a visão preconceituosa que os cientistas alemães tinham dos outros povos brasileiros.

Cemitério da igreja Luterana em Campinho, em 1950. Crédito: Reprodução/IBGE
Cemitério da igreja Luterana em Campinho, em 1950. Crédito: Reprodução/IBGE

"O pressuposto da investigação era de que a raça alemã era superior às demais. Com isso, havia uma visão desabonadora dos 'não-alemães', principalmente dos afrodescendentes. Ao recuperar o histórico de uma das famílias capixabas, um dos indivíduos foi descartado pois tinha casado com uma negra. A proximidade dos colonos com 'luso-brasileiros' também era vista como um risco", relata o pesquisador.

Outro fator que foi considerado positivo pelos nazistas era a proximidade que os colonos mantinham com a "pátria-mãe". Nas ruas de comunidades como Campinho, em Domingos Martins, e em Santa Maria de Jetibá, a língua alemã e o pomerano eram mais faladas do que o português. Além disso, havia o costume de se ouvir estações alemãs nos rádios da época.

Gustav Giemsa, médico alemão que visitou o Espírito Santo. Crédito: Wikimedia
Gustav Giemsa, médico alemão que visitou o Espírito Santo. Crédito: Wikimedia

AS IMPRESSÕES DO ES PELOS NAZISTAS

Além dos aspectos biológicos e culturais dos colonos alemães, Nauck e Giemsa também estudaram a economia local. Eles destacaram o papel da cultura cafeeira, mas advertiram em seus relatórios sobre a vulnerabilidade que esta dependência acarretava.

Eles também condenaram o desmatamento que a expansão do café produzia e defenderam métodos mais sustentáveis do cultivo. Sobre a saúde dos imigrantes, os pesquisadores concluíram que o "povo alemão respondia de forma positiva à questão da aclimatação" e que era "possível a manutenção das boas características da 'raça alemã' em terras tropicais".

NAZISMO FEZ ALEMÃES SEREM DISCRIMINADOS NO ES

A visita dos médicos nazistas ao Espírito Santo ainda é pouco estudada pelos historiadores capixabas. A descoberta foi feita durante a tese de doutorado de André Felipe Candido da Silva, em 2011. Ainda assim, há lendas e histórias orais que se assemelham com os relatos das cartas de Nauck e Giemsa.

Joel Velten, professor aposentado e pesquisador da história da imigração alemã em Domingos Martins. Crédito: Fernando Madeira
Joel Velten, professor aposentado e pesquisador da história da imigração alemã em Domingos Martins. Crédito: Fernando Madeira

Professor aposentado e pesquisador da imigração alemã em Domingos Martins, Joel Velten lembra de uma história contada pelos mais antigos, de pesquisadores que estiveram em Pedra Azul em um período similar ao dos nazistas. "Não há registros, mas há uma história oral de pesquisadores da Alemanha que estiveram aqui para analisar o clima. Foi a partir deles que surgiu essa história de que Pedra Azul tinha um dos melhores climas do mundo", conta.

O nazismo, segundo Velten, ainda traz medo para os imigrantes alemães da região. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as línguas alemã, italiana e japonesa, dos países que integravam o Eixo, foram proibidas no Brasil, o que gerou uma grande mudança para a comunidade que, apesar de viver no país, mal sabia falar o português.

"Eu nasci em 1948 e escutava as histórias dos meus pais e tios sobre a perseguição da polícia de quem falasse alemão nas ruas. Muitos pastores luteranos de Domingos Martins, que até a década de 1980 eram todos nascidos na Alemanha, foram presos, levados para o quartel da polícia em Vitória. Havia até uma anedota, na época, em que alguém abastecia no posto de Campinho e agradecia ao frentista dizendo danke schön (obrigado, em alemão). Um guarda se aproximava e ameaçava a prender e o sujeito se defendia: ‘não, eu não falei alemão, apenas disse que o tanque tava cheio', já que tem pronúncia parecida”, lembra Velten.

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