Publicado em 2 de agosto de 2021 às 21:45
Na ação mais contundente contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desde que ele começou a ameaçar as eleições de 2022 e criticar a urna eletrônica, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) aprovou nesta segunda-feira (2) a abertura de um inquérito e o envio de uma notícia-crime ao STF (Supremo Tribunal Federal) para que chefe do Executivo seja investigado no inquérito da fake news. >
As duas decisões foram tomadas por unanimidade pelo plenário da corte eleitoral em meio à escalada de Bolsonaro contra o sistema eletrônico de votação. >
Todos os ministros da corte votaram a favor da instauração da apuração de ofício, ou seja, sem solicitação da Procuradoria-Geral Eleitoral, a exemplo do que fez o STF com o inquérito das fake news. >
A sugestão de abrir um inquérito administrativo partiu do corregedor-geral Eleitoral, ministro Luís Felipe Salomão. >
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Já a iniciativa para enviar uma notícia-crime para investigar a live em que Bolsonaro prometia comprovar a fraude nas urnas partiu do ministro Luís Roberto Barroso. >
O pedido será enviado ao ministro Alexandre de Moraes, que é relator do inquérito das fake news no STF. >
Sobre o inquérito, o presidente da corte, ministro Luís Roberto Barroso, afirmou que a investigação envolverá coleta de depoimentos de "autoridades" que atacarem o sistema eleitoral, além da possibilidade de haver medidas cautelares, ou seja, mandados de busca e apreensão e outras ações para aprofundar as investigações. >
A abertura do inquérito leva em consideração "relatos e declarações sem comprovação de fraudes no sistema eletrônico de votação com potenciais ataques à democracia". >
A decisão ocorre após o corregedor notificar Bolsonaro a apresentar provas das irregularidades e não ter resposta. Com o inquérito, agora, o TSE poderá "tomar as providências cabíveis para sanar ou evitar abusos e irregularidades, e, ainda, requisitar a qualquer autoridade civil ou militar a colaboração necessária ao bom desempenho de sua missão". >
A portaria cita ainda que eleições transparentes "demandam pronta apuração e reprimenta de fatos que posssam caracterizar" os crimes de corrupção ou fraude, abuso de poderpolítico, uso indevido dos meios de comunicação social e propaganda eleitoral antecipada. >
O escopo da investigação será a apuração de "condutas vedadas a agentes públicos e propaganda extemporânea, relativamente aos ataques contra o sistema eletrônico de votação e à legitimidade das eleições 2022". >
A notícia-crime enviada ao STF pelo TSE é assinada por Barroso. A peça contém o link da live de Bolsonaro "para fins de apuração de possível conduta criminosa" e irá para o gabinete de Alexandre de Moraes, que também costuma ter embates com Bolsonaro. >
As decisões foram tomadas após um discurso duro de Barroso contra Bolsonaro. O presidente do TSE disse que quem repete uma mentira muitas vezes será "perenemente prisioneiro do mal". >
"A ameaça à realização de eleições é conduta antidemocrática, suprimir direitos fundamentais incluindo de natureza ambiental é conduta antidemocrática, conspurcar o debate público com desinformação, mentiras, ódios e teorias conspiratórias é conduta antidemocrática", afirmou. >
O ministro classificou a live em que Bolsonaro prometia provar a fraude nas urnas como "amadorística" e que o TSE continuará a desmentir inverdades independentemente de quem as propague. >
O magistrado também disse que o voto impresso defendido por Bolsonaro facilitará a ocorrência de fraudes, e não o contrário, como o presidente costuma afirmar. >
"Vou explicar para pessoas de boa fé por qual razão o voto impresso não é mecanismo desejável de auditoria, e a razão é muito simples: voto impresso é menos seguro que o eletrônico, não se cria mecanismo de auditoria menos seguro que o objeto que está sendo auditado", afirmou. >
Segundo Barroso, "há coisas erradas acontecendo no país" e todos precisam estar atentos: "precisamos das instituições e da sociedade civil, ambas bem alertas". >
"Já superamos ciclos do atraso institucional, mas há retardatários que gostariam de voltar ao passado. E parte dessa estratégia inclui ataque às instituições", afirmou. >
Mais cedo, o presidente do Supremo, Luiz Fux, já havia mandado recados a Bolsonaro, apesar de não ter citado nominalmente o presidente. Em um tom não tão ácido quanto o de Barroso, Fux disse que a harmonia e a independência entre os Poderes "não implicam em impunidade de atos que exorbitem o necessário respeito às intituições". >
E alertou: "Embora diuturnamente vigilantes para com a democracia e as instituições do país, os juízes precisam vislumbrar o momento adequado para erguer a voz diante de eventuais ameaças". >
O presidente da corte disse que as nações só conseguem se desenvolver mediante respeito às instituições e que a democracia nos liberta do obscurantismo e da intolerância. >
Trago uma advertência, porém: democracia é o exercício da liberdade com responsabilidade, disse. >
O magistrado também afirmou que ninguém tem superpoderes e que o Supremo está atento "aos ataques de inverdades à honra dos cidadãos que se dedicam à causa pública". >
Nesta segunda-feira, o chefe do Executivo havia reforçado as críticas às urnas e os ataques a Barroso. >
"Quem quer eleição suja e não democrática é o ministro Barroso. Esse cara se intitula como [quem] não pode ser criticado", declarou, em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. >
Mais tarde, em um evento no Ministério da Cidadania, o presidente da República repetiu que há um complô para fraudar as eleições presidenciais em 2022, e citou interesse externo no Brasil. "Temos de ter eleições limpas, democráticas, que possam ser auditadas. Alguém tem duvida que outros países têm interesses no Brasil?". >
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