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Tribunal recusa recurso da BHP no processo de Mariana (MG)

Tribunal recusa recurso da BHP no processo de Mariana (MG)

A juíza do caso, Finola O'Farrell, recusou à empresa a possibilidade de apresentar recurso ao mesmo tribunal que conduziu seu julgamento

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 13:12

 Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais
Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil

A BHP Billiton, mineradora anglo-australiana condenada pelo desastre de Mariana (MG), a maior tragédia ambiental da história do Brasil, sofreu nova derrota na Justiça britânica. Nesta segunda-feira (19), a juíza do caso, Finola O'Farrell, recusou à empresa a possibilidade de apresentar recurso ao mesmo tribunal que conduziu seu julgamento. "A apelação não tem nenhuma perspectiva real de sucesso. Não há outro motivo convincente para que a apelação seja apreciada", escreveu a magistrada na sentença.

"Embora a decisão possa ser de interesse para outras partes em outras jurisdições, trata-se de uma decisão sobre questões de direito brasileiro estabelecidas como fato nesta jurisdição, juntamente com provas factuais e periciais."

No julgamento sobre a responsabilidade do episódio, encerrado em novembro do ano passado, a sequência de eventos que levou à morte de 19 pessoas e espalhou lama tóxica por quase 700 km de Minas Gerais até o oceano Atlântico foi tratada à luz da legislação brasileira. A responsabilidade sobre a tragédia ficou determinada a partir de provas de que a Samarco, uma joint-venture da BHP com a brasileira Vale, não interrompeu o aumento de altura da barragem do Fundão, que colapsou no dia 5 de novembro de 2015. Segundo a sentença da Justiça britânica, proferida dez anos mais tarde, a BHP deve ser considerada como agente poluidor, conforme prevê a legislação ambiental brasileira, e por conduta culposa nos termos do Código Civil.

Especializada em casos transnacionais, a corte de O'Farrell baseia suas decisões nas legislações dos países envolvidos. Além das partes e de especialistas em meio ambiente e mineração, o tribunal ouviu juristas do Brasil e do Reino Unido. A lei ambiental brasileira é considerada uma das mais avançadas do mundo.

A BHP agora tem 28 dias para tentar um recurso na Corte de Apelação britânica. Até lá, ficou em suspenso o pagamento de parte das custas do processo, no valor de 43 milhões de libras (R$ 302,6 milhões). Os advogados dos quase 620 mil litigantes, do escritório britânico Pogust Goodhead, haviam pedido antecipação do pagamento das custas do processo, o que a juíza atendeu parcialmente. "A BHP apresentará seu recurso contra o julgamento de responsabilidade à Corte de Apelação e, em paralelo, continuará com sua defesa nas fases remanescentes do processo inglês. O Brasil é o local mais adequado para assegurar uma reparação justa e integral às pessoas atingidas", declarou a mineradora em nota.

"Em seu julgamento proferido em novembro de 2025, a Corte inglesa reconheceu os programas indenizatórios implementados no Brasil e validou os acordos firmados desde 2015. Aproximadamente 240 mil autores da ação em trâmite no Reino Unido -assim como municípios e outras instituições- já assinaram acordos de quitação plena e foram indenizados no Brasil."

A expectativa da mineradora, com isso, é diminuir o número de litigantes pela metade. "Samarco, BHP Brasil e Vale seguem implementando o Novo Acordo do Rio Doce, firmado com entes públicos brasileiros em outubro de 2024, no valor aproximado de R$ 170 bilhões. Desde o rompimento da barragem, mais de 610 mil pessoas já receberam indenização e/ou auxílio financeiro emergencial no Brasil", completa a nota.

Jonathan Wheeler, sócio do Pogust Goodhead e líder do caso Mariana, afirmou que a decisão desta segunda-feira (19) "reforça a robustez das conclusões do tribunal e aproxima centenas de milhares de autores da reparação pelo imenso dano que sofreram". "O pedido da BHP por autorização para recorrer mostra que ela continua tratando este caso como algo a ser 'administrado', e não como um desastre humanitário e ambiental que exige um desfecho justo. Cada nova manobra processual significa mais atraso, mais custos e mais prejuízos para pessoas que já esperam há mais de uma década por uma indenização adequada."

Passada a atual fase de recursos, o tribunal já tem datas reservadas a partir de outubro deste ano para começar a decidir quem poderá receber indenização e quanto. Estima-se que o volume de compensações possa chegar a R$ 260 bilhões e todo o processo de pagamento leve anos para ser concluído.

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