Publicado em 9 de março de 2026 às 10:21
Veículos com frente mais alta e rígida, como SUVs e picapes, tendem a provocar lesões mais graves em pedestres nos casos de atropelamentos, alertam as novas diretrizes sobre segurança de trânsito que serão publicadas nesta segunda-feira (9) pela Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego).>
Chamado de "Tolerância Humana a Impactos: Implicações para a Segurança Viária", o documento a que a reportagem teve acesso cita ainda impacto de modalidades de deslocamento que recentemente passaram a dividir espaço no trânsito, como patinetes elétricas.>
Segundo o médico Flávio Adura, diretor científico da Abramet e coordenador do trabalho, a explicação para os reflexos do impacto provocado por um veículo maior é biomecânica.>
Em carros mais baixos, o choque inicial geralmente ocorre nas pernas, projetando o pedestre sobre o capô, o que pode reduzir a gravidade das lesões, diz Adura.>
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"Já nos SUVs, o primeiro impacto costuma atingir tórax, abdômen ou cabeça, regiões vitais, o que aumenta muito a gravidade das lesões", afirma.>
Além disso, esses utilitários esportivos e picapes costumam ter maior massa e rigidez estrutural, o que também contribui para maior transferência de energia no impacto, aponta o estudo.>
Com o aumento da participação dos SUVs na frota, pedestres e ciclistas passaram a ficar mais expostos a riscos, mesmo diante dos avanços na proteção dos ocupantes desses veículos, diz o documento.>
"Em velocidades moderadas, acima de 30 km/h, os SUVs apresentam risco significativamente maior de provocar lesões graves em pedestres devido ao design frontal elevado", afirma a diretriz.>
Conforme o médico Adura, as conclusões foram baseadas em diversos estudos epidemiológicos e biomecânicos realizados em vários países, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Essas pesquisas analisaram bancos de dados de atropelamentos.>
Os levantamentos, afirma o especialista, combinam análise de acidentes reais, simulações biomecânicas e testes experimentais de impacto com manequins instrumentados, permitindo compreender como a altura do capô e o desenho da frente do veículo influenciam o padrão de lesões.>
A Abramet aponta que esses estudos mostram que cada aumento de 10 cm na altura da parte frontal do veículo pode elevar em cerca de 22% o risco de morte do pedestre.>
"Em estudos de colisões reais, por exemplo, 30% dos pedestres atingidos por SUVs morreram em impactos entre 32 km/h e 64 km/h, contra cerca de 23% quando o veículo era um carro de passeio.">
Uma análise recente com dados dos Estados Unidos e da Europa, cita, mostrou que a probabilidade de morte de um pedestre ou ciclista é cerca de 44% maior quando o impacto envolve um SUV ou veículo utilitário leve em comparação com carros de passeio menores. "Entre crianças, esse risco pode ser até 82% maior", afirma Adura.>
Um recente estudo do instituto norte-americano IIHS (Insurance Institute for Highway Safety) aponta que visibilidade limitada em veículos maiores aumenta risco de atropelamentos.>
O trabalho analisou como as características estruturais de automóveis e utilitários influenciam a capacidade do motorista de enxergar pedestres ao redor do veículo.>
Em comparação com carros menores, a probabilidade de colisão foi 69,7% maior quando a área cega era grande e 59% maior quando era considerada média.>
"Veículos mais altos e volumosos possuem pontos cegos maiores ao redor da carroceria, especialmente na região frontal imediata e nas laterais próximas", afirma Adura.>
"Pesquisas indicam que SUVs e picapes são de 23% a 42% mais propensos a atingir pedestres em manobras de conversão do que carros menores, justamente por causa da visibilidade mais limitada e do maior volume do veículo", diz.>
Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, admite que faltam estudos brasileiros sobre os utilitários esportivos. Mas, segundo ele, atualizações dos modelos de veículos chegaram a aumentar de 20% a 60% a área de ponto cego, conforme a análise da IIHS.>
"Isso contribui principalmente para atropelamentos de crianças e pessoas de baixa estatura", afirma.>
Uma das evidências reunidas na nova diretriz mostra que aumentar a velocidade permitida de uma via em 5% pode elevar em até 20% o número de mortes.>
O documento é publicado em meio à publicação da medida provisória no fim do ano passado, que autoriza a renovação automática da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) sem a realização do exame de aptidão física e mental.>
Segundo o presidente da Abramet, Antonio Meira Júnior, a publicação representa um marco ao aproximar a segurança viária do campo da saúde pública.>
"A diretriz evidencia que não estamos lidando apenas com comportamento ou engenharia, mas com limites biológicos. Quando eles são ignorados, o resultado é o aumento de mortes e sequelas graves, mesmo em velocidades consideradas legais", afirma.>
Conforme a publicação, o gerenciamento da velocidade deve ser o "pilar central de qualquer estratégia séria de prevenção de mortes e lesões no trânsito".>
A diretriz reserva dois capítulos para veículos autopropelidos. "Estudos mostram que o risco de sinistros envolvendo patinetes elétricas é 3,8 vezes maior do que o observado com bicicletas", diz a publicação.>
O documento afirma ainda que a maior parte das hospitalizações decorrentes de sinistros com patinetes envolve traumatismos cranianos, muitas vezes agravados pela ausência de capacete.>
"Restrições à velocidade máxima e ao uso noturno de patinetes elétricas estão associadas a uma diminuição na quantidade de atendimentos hospitalares", afirma.>
**Sugestões da Abramet para o caso dos SUVs**>
1. Melhorar o design dos veículos, com frentes mais absorventes de energia e capôs projetados para reduzir a gravidade das lesões em pedestres>
Incorporar tecnologias de segurança ativa, como sistemas automáticos de frenagem de emergência com detecção de pedestres>
**Para gestores de trânsito**>
- Reduzir velocidades em áreas urbanas, uma vez que ela é o principal fator determinante da gravidade dos atropelamentos>
- Melhorar a infraestrutura urbana, com travessias mais seguras, iluminação adequada e medidas de acalmamento de tráfego>
- Ampliar a conscientização dos condutores, especialmente em áreas com grande circulação de pedestres>
- Estabelecer limites de velocidade compatíveis com a tolerância humana, especial mente em áreas com pedestres, ciclistas, motociclistas e equipamentos de mobilidade individual autopropelidos>
_Fonte: Abramet_>
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