ASSINE

Ministro da Defesa diz a interlocutor que, sem voto impresso, não terá eleição em 2022

Recado foi dado a um interlocutor de Arthur Lira, para que levasse a mensagem ao presidente da Câmara. Para Lira, mensagem soou como ameaça de golpe, segundo jornal

Publicado em 22/07/2021 às 10h34
Ministro da Casa Civil da Presidência da República, Braga Netto
Ministro da Defesa, general Braga Netto, assumiu o comando das Forças Armadas após Bolsonaro demitir o antecessor do cargo, em março. Crédito: Marcos Correa/PR

Em um duro recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o ministro da Defesa, o general Walter Braga Netto, disse por meio de interlocutores políticos "a quem se interessasse" que não haverá eleições em 2022, se não houver voto impresso e auditável. A informação é do jornal O Estado de S. Paulo. Segundo a publicação, o aviso, que soou como ameaça de golpe, foi dado ao interlocutor em uma reunião no dia 8 de julho, na presença de chefes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

A mensagem, que chegou até Arthur Lira, foi dada no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) falou a apoiadores, na entrada do Palácio da Alvorada, que "ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições". A afirmação teria sido feito em meio à tramitação no Congresso de uma proposta de emenda à Constituição que prevê o voto impresso. Nesta quinta-feira (22), após a publicação da reportagem, Braga Netto negou ter usado interlocutores e diz que é falsa a "narrativa sobre ameaças feitas por interlocutores a presidente de outro Poder".

Segundo o Estadão, o recado, transmitido por Lira a um seleto grupo político, foi visto como um momento de muita preocupação e a situação foi classificada como gravíssima. Considerando a mensagem uma ameaça de golpe, Lira procurou o presidente Jair Bolsonaro e, em uma longa conversa no Palácio da Alvorada, disse para ele que não contasse com o parlamentar para qualquer ato de ruptura institucional.

Lira é uma das principais lideranças do Centrão, bloco que dá sustentação ao governo Bolsonaro. Na conversa o deputado federal garantiu que "iria com Bolsonaro até o fim, mesmo se fosse para perder a eleição, mas não admitiria golpe".

Em resposta, o presidente da República disse que nunca havia defendido golpe e que respeitava a Constituição. Lira reafirmou que o recado dado pelo general ao emissário havia sido claro e avisou que a Câmara não embarcaria em nada que significasse rompimento com a democracia.

Ao jornal O Globo, o presidente da Câmara, Arthur Lira, também negou que tenha recebido, por meio de um intermediário, um recado do ministro da Defesa ou que tenha discutido o assunto com Bolsonaro.

De acordo com o Estadão, a conversa entre Lira e Bolsonaro é de conhecimento de algumas lideranças políticas e membros do Judiciário. Para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ouvidos reservadamente pelo jornal, a ameaça de golpe foi considerada um blefe para tentar evitar a investigação de militares pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid. Procurado pelo o Estadão, o Ministério da Defesa, inicialmente, não se posicionou sobre o tema.

Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados
Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados. Crédito: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

AMEAÇA FOI FEITA APÓS CONVERSA DE MINISTRO DO STF COM PARLAMENTARES

A escalada da crise política foi motivada, conforme o jornal, por um encontro no final de junho entre os ministros do STF, Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes com dirigentes de 11 partidos. A conversa resultou em um enfraquecimento da possibilidade de aprovação do voto impresso na Câmara.

O cenário anterior era de uma expectativa que a proposta fosse aprovada na Comissão Especial que analisa o tema. A influência dos ministros, contudo, esfriou essa tendência. Paralelamente, a CPI da Covid tem apontado para um possível envolvimento dos militares, capitaneados pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, em esquemas de corrupção para a compra de vacinas.

O movimento foi sinalizado em uma fala do presidente da CPI, o senador Omar Aziz (PSD-AM), que disse que, para ele, as Forças Armadas têm um "lado podre". O general Braga Netto, que teria levado a ameaça a um interlocutor de Lira, disse, no dia 7 de julho, um dia antes de enviar a mensagem ao presidente da Câmara, que "as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano".

Braga Netto assumiu o Ministério da Defesa após Bolsonaro demitir, em março de 2021, o então ministro Fernando Azevedo e Silva, que provocou as saídas dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. O general estava, antes, no comando da Casa Civil.

O QUE DIZ BRAGA NETTO 

O Ministério da Defesa publicou em seu site oficial, uma nota em que contesta a reportagem do Estadão. Confira a publicação na íntegra:

Em relação à matéria publicada em veículo de imprensa, no dia de hoje, que atribui a mim mensagens tentando criar uma narrativa sobre ameaças feitas por interlocutores a Presidente de outro Poder, o Ministro da Defesa informa que não se comunica com os Presidentes dos Poderes, por meio de interlocutores.

Trata-se de mais uma desinformação que gera instabilidade entre os Poderes da República, em um momento que exige a união nacional.

O Ministério da Defesa reitera que as Forças Armadas atuam e sempre atuarão dentro dos limites previstos na Constituição. A Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira são instituições nacionais, regulares e permanentes, comprometidas com a sociedade, com a estabilidade institucional do País e com a manutenção da democracia e da liberdade do povo brasileiro.

Acredito que todo cidadão deseja a maior transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes no Executivo e no Legislativo em todas as instâncias.

A discussão sobre o voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima, defendida pelo Governo Federal, e está sendo analisada pelo Parlamento brasileiro, a quem compete decidir sobre o tema.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.