Publicado em 24 de março de 2021 às 21:21
- Atualizado há 5 anos
Horas depois de se reunir com Jair Bolsonaro para discutir a criação de um comitê entre os Poderes de gestão do combate à Covid-19, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), subiu o tom contra o governo ao discursar no plenário. Ele afirmou que, se não houver correção de rumo, a crise pode resultar em "remédios políticos amargos" a serem usados pelo Congresso, alguns deles fatais.>
É a primeira vez que Lira faz menção, mesmo que indireta e sem especificar, à ameaça de CPIs e de impeachment contra o presidente da República, em um momento em que Bolsonaro tenta atrair Legislativo e Judiciário para a coordenação da pandemia.>
Líder do Centrão e aliado de Bolsonaro eleito neste ano para a presidência da Câmara com apoio do presidente, Lira fez discurso durante sessão para votar projeto que autoriza deduções no Imposto de Renda a empresas e pessoas físicas que contratarem leitos privados para que o SUS use para tratar pacientes de Covid-19.>
O presidente da Câmara falou no risco de uma "espiral de erros de avaliação", disse que não estava "fulanizando" e que se dirigia a todos os que conduzem órgãos diretamente envolvidos no combate à pandemia. "O Executivo federal, os Executivos estaduais e os milhares de Executivos municipais também", afirmou.>
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Apesar de dizer não ser justo colocar toda a culpa em Bolsonaro, ele cobrou correção de rota, fez críticas ao trabalho do ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e falou em tom de ultimato.>
"Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar", disse, afirmando que o caos na saúde gerado pela crise de Covid-19 precisa ser um fator de conscientização das autoridades envolvidas no sentido de "que o momento é grave" e que "tudo tem limite".>
Segundo ele, é preciso buscar a "união de todos" e esgotar "todas as possibilidades deste caminho antes de partir para as responsabilizações individuais.">
Arthur Lira
Presidente da Câmara dos Deputados"Não é esta a intenção desta presidência. Preferimos que as atuais anomalias se curem por si mesmas, frutos da autocrítica, do instinto de sobrevivência, da sabedoria, da inteligência emocional e da capacidade política", disse Lira.>
Ele afirmou que, de todas as mazelas brasileiras, a pandemia era a mais importante. "Esta não é a Casa da privatização, não é a Casa das reformas, não é nem mesmo a Casa das Leis. É a Casa do povo brasileiro", disse. "E quando o povo brasileiro está sob risco, nenhum outro tema ou pauta é mais prioritário." Por isso, disse fazer um "alerta amigo, leal e solidário.">
"Dentre todos os remédios políticos possíveis que esta Casa pode aplicar num momento de enorme angústia do povo e de seus representantes, o de menor dano seria fazer um freio de arrumação até que todas as medidas necessárias e todas as posturas inadiáveis fossem imediatamente adotadas, até que qualquer outra pauta pudesse ser novamente colocada em tramitação", disse.>
Um episódio de desgaste na relação de Lira com Bolsonaro envolveu a troca do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde. O nome chancelado pelo presidente da Câmara era o da cardiologista Ludhmila Hajjar, mas Bolsonaro optou pelo cardiologista Marcelo Queiroga.>
No discurso desta quarta, o líder do Centrão propôs adotar um esforço concentrado para a pandemia por duas semanas, atrasando a tramitação de outros projetos para votar textos que tenham como objetivo ajudar no enfrentamento da Covid.>
"E CPIs ou lockdowns parlamentares, medidas com níveis decrescentes de danos políticos, devem ser evitados. Mas isso não depende apenas desta Casa", afirmou. "Depende também, e sobretudo, daqueles que fora daqui precisam ter a sensibilidade de que o momento é grave, a solidariedade é grande, mas tudo tem limite.">
Aliados de Lira leram o discurso como uma forma de o presidente da Câmara apertar o botão amarelo em relação às atitudes de Bolsonaro. Isto é, o mandatário assumiu o compromisso de tomar as rédeas e comandar o combate ao novo coronavírus. Caso o presidente falhe na missão e reforce teses negacionistas, o Congresso poderia tomar "remédios amargos", "alguns, fatais".>
A pessoas próximas, porém, Lira minimizou o teor do pronunciamento e disse que se referiu à gestão "tripartite" da saúde e da pandemia para demonstrar que seu objetivo não era cobrar somente Bolsonaro.>
Em conversas reservadas, Lira afirmou que o objetivo de seu discurso foi cobrar todos os atores envolvidos, que em momento algum ele falou em impeachment e que há pedidos de afastamento contra governadores e prefeitos também.>
O presidente da Câmara ainda ressaltou que disse mais de uma vez que não queria "fulanizar". Avaliou que foi um discurso de "paz e harmonia", não de "guerra", mas para chamar atenção para o momento atual.>
Segundo pessoas próximas de Lira, o deputado teme sair na foto de quem está na linha de frente ao combate à Covid, mas depois sair prejudicado por inação de quem deve solucionar os problemas da pandemia.>
Na manhã desta quarta, o líder do Centrão se mostrou mais comedido ao participar de pronunciamento ao lado de Bolsonaro. Lira defendeu que a coordenação do combate à pandemia fique a cargo do presidente e o discurso unificado seja organizado pelo Ministério da Saúde.>
"Como bem falou o presidente Rodrigo Pacheco, a união de todos para que nós consigamos comunicar melhor, despolitizar a pandemia", afirmou.>
Na reunião, Lira cobrou do Itamaraty mais diálogo com nações consideradas estratégicas para o enfrentamento da crise sanitária.>
Após o encontro, do qual participou o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, e ministros de governo, Bolsonaro anunciou a criação de um comitê para coordenar as ações de enfrentamento à pandemia. Ele afirmou que o comitê vai reunir o governo federal, os governadores e o Senado.>
A iniciativa de Bolsonaro ocorre em um momento em que o país atinge 300 mil mortes, com um registro de mais de 3 mil mortos em 24 horas. A gestão da pandemia afetou a popularidade do presidente, segundo pesquisa Datafolha. O último levantamento mostrou que cresceu para 56% o número de brasileiros que consideram Bolsonaro incapaz de liderar o país.>
Apesar das fortes críticas durante a campanha eleitoral de 2018, o governo Bolsonaro se aproximou do Centrão no ano passado, enquanto tentava minimizar as chances de abertura de um processo de impeachment pela Câmara.>
Bolsonaro fez forte campanha nos bastidores para garantir a eleição de Lira, que envolveu a promessa de emendas e de cargos em troca de votos. Desde que assumiu o comando da Câmara, Lira tem descartado as possibilidades de impeachment e de abertura de CPI para apurar a gestão da pandemia de Covid-19.>
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