O brasileiro é, antes de tudo, desinformado. Essa é uma das constatações mais espantosas, a meu ver, do livro “Brasil no Espelho”, de Felipe Nunes, resultado de uma ampla pesquisa com quase 10 mil entrevistas, lançado no auditório da Rede Gazeta dias atrás.
A pesquisa fez quatro perguntas básicas sobre questões que são amplamente divulgadas no noticiário do país: a taxa de homicídios, o crescimento da economia, o total de vítimas da Covid e a taxa de desemprego. Resultado: quase metade (42%) errou tudo e menos de 1% (0,82%) dos entrevistados acertaram as 4.
Uma rápida verificada na imprensa profissional permite constatar que a taxa de homicídios no Brasil está em tendência de queda há alguns anos – no Espírito Santo, está no nível mais baixo dos últimos 30 anos. O PIB cresceu 2,2% no ano passado e o crescimento estimado para este ano está na faixa de 1,6%. A Covid fez cerca de 700 mil mortes. O desemprego está na casa dos 5%. Todas essas informações são divulgadas regularmente na imprensa.
Se não sabemos o básico sobre a realidade que nos cerca, como dialogar sobre o futuro que desejamos construir? O pior talvez é a ilusão do conhecimento: cerca de 7 em cada 10 entrevistados superestimou seu desempenho e acha que acertou muito mais do que de fato acertou. Isso certamente é um desafio gigante para governos, empresas, organizações, políticos em geral: como dialogar com quem não sabe e pensa que sabe?
Felipe Nunes é PhD em ciência política pela Universidade da California, em Los Angeles, e concilia no livro o conhecimento histórico sobre autores clássicos, como Gilberto Freyre e Roberto DaMatta, com os recentes resultados de sua ampla pesquisa e mais a base de dados do IBGE. O resultado é um impressionante retrato – ou espelho – do Brasil: quem somos, como nos enxergamos, como vemos o mundo, o que nos une, o que nos divide.
O país passou por grandes transformações nas últimas décadas, notadamente após as manifestações de 2013. Nos anos 60, a média de filhos por mulher era de 6,3 e hoje está em somente 1,57 – padrão europeu, uma das transições demográficas mais rápidas do mundo, com profundos impactos na noção de família e no mercado de trabalho. Os mais jovens não se sentem obrigados a ter filhos, e a tendência é de queda da população.
Mas se há algo que nos une é o apego a Deus e à família. O brasileiro não confia em ninguém, somente nessas duas entidades: 96% dizem que Deus está no comando de suas vidas. O mesmo percentual diz que a família é o mais importante. O almoço de domingo é uma instituição nacional valorizada por 90%.
Qual é o impacto disso na política? A transição religiosa, com o crescimento das igrejas evangélicas a partir dos anos 80, fortaleceu os valores de família na retórica da competição eleitoral, especialmente a partir de 2018, tomando o lugar tradicional da economia.
Se a fé e a família nos unem, a ideologia nos divide como nunca antes: 96% dizem ter posição ideológica clara, sendo 37% de centro, 36% de direita e 23% de esquerda. Somos hoje um país de centro-direita. E a crença política afeta a confiança: os conservadores confiam menos em quem tem posicionamento político diferente, o que não é tão forte nos que se consideram moderados ou progressistas. Mas de todo modo vivemos no império do viés de confirmação: confiamos mais em quem pensa como a gente.
Um fator crítico para a desconfiança geral é a insegurança: “A sensação de insegurança faz parte da identidade brasileira. O medo do crime une os brasileiros, qualquer que seja sua classe social”, afirma Felipe Nunes no livro. Sim, o índice de homicídios está em queda, mas está em alta a atuação de organizações criminosas como o PCC.
O país, portanto, está dividido, com medo, desconfiado e resistente a ouvir opiniões contrárias. Mas o Brasil tem jeito. Nos últimos 40 anos, avançamos muito: o país estabilizou a moeda, abriu a economia, privatizou estatais ineficientes, reduziu a desigualdade, universalizou o ensino e ergueu o SUS, uma referência mundial de saúde pública, especialmente em programas de vacinação, transplantes e combate à Aids.
Nada disso foi fácil, como não é fácil enfrentar hoje a criminalidade ou a evolução da dívida pública. Mas o país tem jeito, e olhar no espelho é o primeiro passo para enxergar quem somos e definir o que queremos do futuro.
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