O Super Bowl sempre foi mais do que futebol americano. Trata-se de um dos maiores laboratórios públicos da comunicação contemporânea, onde se testam narrativas, linguagens e modelos de mediação em escala global. Em 2026, porém, o evento sinalizou algo além de uma tendência: entramos oficialmente na era do AI Bowl.
Se antes o intervalo do jogo consagrava formatos e estéticas, agora ele expõe transformações estruturais. Pela primeira vez, um comercial exibido no Super Bowl foi criado quase integralmente por inteligência artificial, em poucas semanas e a uma fração do custo das produções tradicionais. Não se trata apenas de inovação técnica, mas de uma mudança profunda no regime de produção simbólica.
O impacto sobre a comunicação é direto. Reduzem-se tempo e custo, mas, sobretudo, desloca-se o eixo da autoria. A pergunta deixa de ser “quem criou?” e passa a ser “quem orquestrou?”. A criatividade migra da execução para a curadoria, da produção material para a estratégia, redefinindo hierarquias e papéis no campo comunicacional.
Esse movimento ganhou contornos ainda mais expressivos quando a disputa entre grandes atores da inteligência artificial foi encenada em horário nobre. A Anthropic utilizou seu anúncio para questionar a entrada da publicidade em assistentes de IA tensionando os limites entre mediação, monetização e confiança.
A resposta pública do CEO da OpenAI confirmou o que já se desenhava: não estamos apenas diante de campanhas publicitárias, mas de uma disputa entre modelos de comunicação, plataformas e formas de exercício de poder.
O Super Bowl segue cumprindo sua função histórica: revelar, em escala massiva, como a comunicação se reorganiza. A inteligência artificial já não ocupa um lugar periférico como ferramenta de apoio. Ela se consolida como meio, linguagem e arena de disputa simbólica.
Para quem atua ou pesquisa comunicação, o recado é claro. Não compreender esse movimento agora significa chegar atrasado a um rearranjo que já está em curso e que redefine quem produz sentido, quem controla os fluxos e quem exerce poder no ecossistema comunicacional contemporâneo.
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