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Quatro mulheres contam os desafios da pandemia no trabalho e em casa

Os efeitos da crise do coronavírus desafiaram as profissionais de diferentes áreas a adaptar a rotina de trabalho e de tarefas domésticas ao 'novo normal'

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 09/03/2021 às 02h01
Maria das Dores Macedo dos Santos, 56 anos, precisa sair de casa todos os dias para trabalhar como doméstica.
Maria das Dores Macedo dos Santos, 56 anos, precisa sair de casa todos os dias para trabalhar como doméstica. Crédito: Mikaela Campos

A crise sanitária sacudiu as estruturas de todas as mulheres, desde aquelas que precisaram - e puderam - ficar em casa e tiveram que se adaptar ao trabalho remoto, ou quem não teve outra alternativa a não ser continuar com a antiga rotina e sair de casa para o trabalho se expondo diariamente ao risco da contaminação pelo novo coronavírus.

“Eu estou trabalhando e ouvindo a minha filha chorar” relata Juliana Bourguignon Vogas, 35 anos, mãe da Isabela, de um ano e dois meses. Essa é a realidade dela e de muitas mulheres que, por causa da pandemia da Covid-19, tiveram que se adaptar ao novo local de trabalho: dentro de casa.

Juliana é coordenadora de comunicação dos Correios e está trabalhando de home office desde julho de 2020, quando voltou da licença-maternidade. Ela já vinha se preparando para conciliar o trabalho e o papel de mãe, mas a pandemia trouxe uma sobrecarga por ter que equilibrar todas as funções juntas.

Juliana Bourguignon Vogas

Coordenadora de comunicação dos Correios

"Eu me preparei para um desafio que era a maternidade, mas a pandemia trouxe outras mudanças. De repente eu passei a ser mãe, dona de casa, ter que fazer todo o trabalho de casa, e ainda o meu trabalho"

Para Juliana, esse tempo de trabalho em casa tem o lado bom de ficar mais perto da filha e poder acompanhar todas as fases de crescimento dela. Mas trabalhar em home office ainda traz o conflito de conciliar o tempo do trabalho com os momentos em família. “Ela é muito pequena e não entende que eu estou em casa, mas não posso estar sempre disponível para ela."

Juliana Bourguignon Vogas, 35 anos, é coordenadora de comunicação dos Correios e mãe da Isabela, de um ano e dois meses. Crédito: Arquivo pessoal/ Juliana Bourguignon Vogas
Juliana Bourguignon Vogas, 35 anos, é coordenadora de comunicação dos Correios e mãe da Isabela, de um ano e dois meses. Crédito: Arquivo pessoal/ Juliana Bourguignon Vogas

A pequena Isabela não é a única que desde muito nova já precisa aprender a conviver com os impactos da pandemia. Os alunos da professora Elizabete Maria Lage Zanott, ou Tia Bete, como é carinhosamente chamada por eles, também precisam lidar com a saudade do convívio escolar.

“Quando eu faço vídeo chamada eles ficam todos animados de me ver. Os que me reconhecem já falam ‘olha lá a Tia Bete!’, mandam beijo”, conta. Profissional da educação infantil há 29 anos, a pandemia foi um dos maiores desafios da vida profissional dela.

Elizabete Maria Lage Zanott

Professora

"Para nós professores a pandemia tirou o nosso chão. A educação infantil é muito contato com as crianças, esse era o nosso dia a dia e de repente não existia mais"
Elizabete Maria Lage Zanott, 48 anos, é professora da educação infantil em João Neiva há 29 anos.
Elizabete Maria Lage Zanott, 48 anos, é professora da educação infantil em João Neiva há 29 anos. Crédito: Arquivo pessoal/ Elizabete Maria Lage Zanott

Segundo ela, as mudanças e adaptações ainda estão sendo muito difíceis. Agora, a rotina da professora está mais intensa, além de preparar os materiais didáticos que são enviados por meio de grupos de mensagens, ela precisa também orientar os pais a como desenvolver as atividades com os filhos.

“Chega um momento em que a gente precisa se adaptar à rotina das famílias. Eu trabalhava só de manhã e agora tenho que ficar disponível o dia todo, mesmo quando eu estou fazendo as coisas do meu dia a dia, porque tem pai e mãe que só pode falar comigo de tarde, outros só a noite”, desabafa a professora.

A empregada doméstica Maria das Dores Macedo dos Santos, 56 anos, é uma das mulheres que precisam sair de casa para trabalhar. Todos os dias ela precisa encarar o transporte público para ir de casa para o trabalho e conviver com o medo de ser contaminada pela Covid-19. “Pegar o ônibus me preocupa muito, porque se tiver cheio e eu fico com medo, e aí tenho que descer e esperar outro, e isso já me atrasa para o serviço.”

Maria das Dores Macedo dos Santos, 56 anos, precisa sair de casa todos os  dias para trabalhar como doméstica. Crédito: Mikaella Campos
Maria das Dores Macedo dos Santos, 56 anos, precisa sair de casa todos os dias para trabalhar como doméstica. Crédito: Mikaella Campos

Ela trabalha como doméstica e, com todos os cuidados de higienização que são precisos para prevenir a doença, os gastos com produtos de limpeza aumentaram, assim como a carga de trabalho fora e dentro de casa.

Maria das Dores Macedo dos Santos

Doméstica

"Aumentou muito o trabalho, e ter que trabalhar de máscara é cansativo. Prende a respiração da gente e deixa o serviço lento. Não dá para trabalhar mais rápido como antes"

Assim como Maria das Dores, a fisioterapeuta Juliana Estevão de Freitas Rizze, 42 anos, também precisa sair de casa todos os dias para trabalhar. O desafio dela é enfrentar a linha de frente de combate à pandemia de Covid-19.

A fisioterapeuta atua no Hospital Evangélico de Vila Velha e no Hospital Antônio Bezerra de Farias. Ela já foi vacinada, mas mantém as medidas de isolamento necessárias para proteger a família e os amigos.

Juliana Estevão de Freitas Rizze, 42 anos, é fisioterapeuta e atua na linha de frente do combate a Covid-19 em dois hospitais de Vila Velha.
Juliana Estevão de Freitas Rizze, 42 anos, é fisioterapeuta e atua na linha de frente do combate a Covid-19 em dois hospitais de Vila Velha. Crédito: Arquivo pessoal / Juliana Estevão de Freitas Rizze

Juliana Estevão de Freitas Rizze

Fisioterapeuta

"Eu tive medo, não por mim, mas por meus familiares. Eu me afastei da minha filha e dos meus pais, e fiquei 3 semanas fora de casa no início. E até hoje a gente toma cuidado, mas é muito difícil ficar sem abraçar e tocar a minha filha"

Além de lidar com a sobrecarga adicional de trabalho, ela tem que suportar o desgaste emocional de lidar com a doença. “Eu fico muito aborrecida de ver pessoas morrendo, e ao sair do hospital e passar em frente a um restaurante e ver tudo lotado. É revoltante.”

Após o Dia Internacional da Mulher durante o período da pandemia, fica o desejo de Juliana para a data do próximo ano: “Apesar de tudo, tenho fé e esperança que teremos dias melhores.”

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