Nos dois últimos anos, o Brasil atingiu recordes de feminicídio e registrou quase 3 mil casos — uma média de quatro mulheres assassinadas todos os dias no país, conforme dados do Ministério da Justiça e da Segurança Pública. É uma tragédia cotidiana, que deixa órfãos, famílias destruídas e marcas em toda a sociedade. Mas a violência raramente começa com esse ato extremo. Ela vem sutil, quase sempre disfarçada de cuidado.
É o que observa Ana Paula Araújo, jornalista da TV Globo, cujo mais recente livro, “Agressão: a escalada da violência doméstica no Brasil", traz um retrato do drama vivenciado por mulheres em todo o país. A apresentadora do Bom Dia Brasil vai lançar a publicação no Espírito Santo nesta quarta-feira (18), a partir das 15h30, durante evento do Todas Elas, na Rede Gazeta.
A jornalista é uma das convidadas da primeira edição de 2026 do projeto, que vai abordar o tema “Sinais, Vozes e Caminhos” com a proposta de refletir sobre os indícios que antecedem a violência. A entrada é gratuita, mediante retirada de ingressos. As vagas são limitadas. Clique aqui para fazer a inscrição.
Ana Paula conversou com A Gazeta e analisou como a sociedade e o Estado têm enfrentado o problema. Confira o bate-papo:
O que te motivou a escrever este novo livro, “Agressão: a escalada da violência doméstica no Brasil"?
Primeiro, a minha motivação é por ser mulher, mãe de mulher e por perceber como essas violências atravessam nossa vida no dia a dia, muitas vezes de um jeito que a gente nem se dá conta. No primeiro livro — em 2020, Ana Paula publicou “Abuso: a cultura do estupro no Brasil” — havia uma preocupação sobre como seria recebido, se abriria feridas. Mas foi o contrário: muitas mulheres, através da leitura, em contato com outros relatos, recebendo informações sobre o que diz a lei, sentiram-se mais libertas e, de alguma maneira, agradecidas por perceberem que não são as culpadas.
E acho que a gente fala muito pouco desses assuntos, de todas as violências contra a mulher, nos vários aspectos, como a violência patrimonial e psicológica; não só a física. Muitas vezes, não conseguimos identificar porque vem disfarçada de cuidado, como no caso em que o homem controla todo o dinheiro da mulher, não deixa que ela tenha autonomia. Parece que ele cuida da mulher, mas é controle.
Também é violência quando ele afasta a mulher (da família, dos amigos), diz que não pode sair com fulano ou fulana, não quer que vá em tal lugar. Isso é cerceamento de liberdade e, de repente, ela se vê sozinha e, no momento em que mais precisa de ajuda, não tem uma rede de apoio.
Estive em Juiz de Fora (MG) — ela foi homenageada e recebeu o título de cidadã honorária do município mineiro — e, durante um debate antes sobre a questão da violência contra a mulher, uma vereadora disse estar cansada, que parece que mesmo com tudo o que é feito, as coisas não mudam, os casos vêm acontecendo, e me perguntou como eu lido com a situação.
Realmente, é muito desanimador, parece que não mudam significativamente, mas eu vejo mudanças gigantescas em histórias individuais. Mulheres que, de alguma maneira, perceberam a violência, combateram, denunciaram, saíram de situações violentas ao constatarem que não são obrigadas a sustentar para sempre um relacionamento abusivo, que o fim de um casamento não significa que é um fracasso como mulher, e que não têm obrigação de manter esse tipo relação por causa dos filhos. São mulheres que dizem: ‘repensei, refiz minha vida, fui buscar ajuda. Percebi que mereço ter paz na minha própria casa.’
No macro, a violência ainda é muito grande, os casos se repetem, mas há uma conscientização maior das mulheres, que têm buscado ajuda, e meu ânimo vejo nessas histórias individuais.
É preciso discutir também uma educação menos machista, uma forma de o homem se posicionar de outra maneira na sociedade. Homens mais atentos para não serem coniventes com a violência porque, eles podem até não ser prejudicados diretamente, mas a sociedade como um todo é quando uma mulher sofre violência. É uma questão de humanidade defender a segurança e a liberdade das mulheres.
Você falou sobre mulheres que decidem romper relacionamentos abusivos, mas é notório que muitas são mortas justamente quando tentam se separar. Você acha que nessas horas o Estado falha?
Eu costumo frisar que o momento da saída de um relacionamento violento é o mais perigoso para a mulher, é quando ela mais tem que procurar ajuda. Temos hoje, graças à Lei Maria da Penha, a medida protetiva, que impõe o afastamento do agressor e beneficia muitas mulheres Brasil afora.
Às vezes vemos que mulheres com medida protetiva foram assassinadas, mas a maioria das vítimas não tinha a medida. Ela adianta, sim. Consegue resolver e evitar o pior.
Podemos dizer que a falha do Estado está aí: na falta de fiscalização da medida protetiva. Se a mulher assassinada tinha medida, normalmente aquele asssassino já havia descumprido o afastamento. E o descumprimento de medida protetiva é um crime por si só. O juiz pode mandar aquele homem diretamente para a cadeia, independentemente da agressão ainda estar sendo investigada ou o caso tramitando na Justiça.
Mulheres denunciam que a medida foi descumprida uma, duas, três, quatro vezes. Então, falta essa fiscalização em cima do cumprimento das medidas.
E falta, principalmente, essa rede de apoio no entorno da mulher. Ela precisa ter os direitos fundamentais garantidos, ela não tem que ter medo o tempo todo — o homem é que precisa ser isolado.
A sociedade também precisa ter um olhar diferente para essas histórias porque há uma cobrança muito grande em cima das mulheres: ‘por que não denunciou antes?’ ‘por que não se separou?’ Mas a pergunta tem que ser em cima dos agressores: ‘por que está batendo?’ ‘por que ainda está solto?’
A legislação brasileira é uma das mais avançadas no enfrentamento à violência contra a mulher, mas você acredita que ainda pode avançar?
Há coisas que podem melhorar. Muitas medidas, inclusive na parte educacional, ainda acontecem de maneira muito amadora no Brasil. Não tem uma programação (institucional) para que esses agressores sejam, de fato, questionados, tenham que repensar seu comportamento e não voltem a agredir.
É preciso um trabalho de educação dentro das empresas, das instituições. Ainda falta investimento, uma política mais assertiva de não tolerar de forma nenhuma a violência contra a mulher.
Muito se fala sobre a necessidade de mudança da cultura machista, passando pela educação, tanto no ambiente familiar quanto na escola, mas vemos uma nova geração muito violenta, como no caso do estupro coletivo em Copacabana (RJ). Como você avalia esse cenário?
(É uma geração) que está nas redes sociais, onde crimes e incitações ao crime são cometidos na frente de todo mundo sem que providência nenhuma seja tomada. Há perfis que promovem a submissão da mulher e, ainda que isso não seja violência, está alimentando a violência, dizendo para a sociedade que o homem é superior e tem direitos sobre a mulher.
Sem contar essa trend absurda em que a mulher que diz ‘não’ para um homem, pode levar socos, chutes. E tem muitos meninos e jovens repetindo isso, como se fosse piada. Isso não é piada! É uma incitação à violência, banalização da violência contra a mulher, é normalizar as agressões que acontecem no dia a dia. Vemos casos e mais casos de mulheres agredidas, assassinadas, simplesmente porque disseram não.
E não há um controle disso. Não há um controle de acesso de crianças e adolescentes a esses conteúdos. Os pais sozinhos não dão conta. Eles têm que estar mais esclarecidos, mas também tem que haver regulamentação (das redes).
Acho necessário um movimento para menores de 14, 16 anos realmente não terem acesso a redes sociais, ou se tiverem, com limitações. Não é possível que um menino dentro de casa tenha contato e seja deseducado por esses perfis misóginos (de ódio às mulheres) e comece a criar um caráter de completo desrespeito às mulheres.
No Brasil, a proibição do celular nas escolas foi uma medida que demorou a vir, mas, agora, não só melhorou o aprendizado, como reduz a possibilidade dessas crianças e jovens de entrarem em contato com esse conteúdo violento.
Você falou em mudanças individuais que a leitura do seu livro pode proporcionar, mas, além disso, que outros impactos espera ao relatar histórias tão dolorosas?
Acredito que o mais palpável são realmente essas mudanças individuais, mas eu penso, também, que estou fazendo a minha parte, me juntando a tantas outras mulheres que tanto admiro para levar mais consciência sobre a violência contra a mulher e batalhar por uma sociedade mais justa.
Cada vez que um agente público diz que leu meu livro e repensou conceitos é importante. São ideias que precisam ser propagadas. E, como jornalista, é sempre nosso papel cobrar que as políticas públicas sejam bem orientadas para tornar a nossa sociedade melhor.
E, talvez, em algum momento você possa escrever outras histórias…
Acredito que a gente tem que ir aonde é necessário. Por mais que seja muito doloroso para mim contar essas histórias, me sinto mais dentro da minha missão de mostrar o que precisa ser denunciado, de cobrar.
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