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Empresas querem evitar violência contra a mulher no trabalho e em casa

Empresas querem evitar violência contra a mulher no trabalho e em casa

Companhias como Petrobras, Suzano e Vale implantaram ações para prevenir a violência de gênero, oferecendo canais de atendimento, orientação e acolhimento

Publicado em 17 de março de 2026 às 12:34

Apenas nos primeiros dois meses de 2026, o Espírito Santo somou 5.092 ocorrências de violência doméstica contra a mulher, o que equivale a uma média de 86 casos por dia. Se o Estado seguir nesse ritmo, vai fechar o ano ultrapassando a barreira dos 30 mil registros e confirmar a tendência de crescimento demonstrada na série histórica a partir de 2022 do Observatório de Segurança Pública. Diante de um cenário que tem se apresentado tão cruel, empresas estão adotando ações para prevenir a violência de gênero tanto em casa quanto no trabalho. 

A Suzano, por exemplo, decidiu ampliar um serviço de atendimento aos colaboradores, que opera nas áreas de psicologia, assistência social e assessoria jurídica, e passou a ter um profissional com foco direcionado a casos de violência doméstica.  É o Tele Faz Bem, um canal gratuito, sigiloso e com funcionamento 24 horas, para oferecer orientação e suporte às vítimas de violência de gênero, inclusive contra abusos psicológicos. 

A iniciativa de uma assistência focada surgiu após um episódio trágico: uma colaboradora de uma unidade do Mato Grosso do Sul foi assassinada pelo marido na frente dos filhos, no final de 2025, pouco depois de reatar o relacionamento. "Esse caso marcou muito e nos trouxe a reflexão: qual o nosso papel como empresa?", conta Sarita Geraldo Rosa Barros, gerente de saúde ocupacional da Suzano. 

violência contra a mulher; mulher chorando com celular
Vítimas de violência podem usar canais por telefone da empresa para buscar apoio e orientação Crédito: Freepik

Assim, o canal foi ampliado, especialmente para orientar as mulheres como proceder em situações de violência, desde registrar um boletim de ocorrência até solicitar uma medida protetiva.

Sarita Barros ressalta que a Suzano também tem promovido rodas de conversa presenciais, com equipes multidisciplinares envolvidas, tanto para participação de mulheres quanto de homens, a fim de debater o tema da violência em suas várias dimensões, isto é, não apenas a física, mas também a patrimonial e a psicológica. Algumas colaboradoras, segundo ela, passaram a buscar apoio depois desses bate-papos.

A empresa ainda faz um trabalho voltado a lideranças para que estejam atentas a comportamentos inadequados e comentários indevidos em relação às mulheres das equipes. "Nesse contexto, às vezes uma medida mais simples já melhora o ambiente, como, por exemplo, uma troca de turno, uma mudança de sistema para home office quando a atividade é permitida",  comenta. 

Também atenta às demandas femininas, a Vale lançou, em novembro passado, o programa contra violência doméstica, visando oferecer escuta ativa, acolhimento, aconselhamento jurídico e suporte emocional a quem vivencia situações de violência — dentro ou fora de casa.

O canal de acolhimento integra o programa Bem-Estar que, segundo ressalta a Vale, consolida o compromisso da empresa com o cuidado integral por meio de quatro pilares: saúde física, saúde emocional, finanças pessoais e ambiente social e familiar seguro. "A nova frente amplia o olhar da companhia sobre o bem-estar ao reconhecer que proteger pessoas também envolve criar rotinas de acolhimento, letramento e prevenção, fortalecendo a rede de apoio para quem enfrenta situações de vulnerabilidade."

A gerente de Benefícios e Bem-Estar da Vale, Flávia Dutra,  pontua que a ambição estabelecida pela empresa — ser reconhecida globalmente como a mineradora mais plural, justa e inclusiva — só se realiza quando as mulheres são cuidadas em toda sua jornada.

"Isso envolve criar oportunidades profissionais, garantir segurança psicológica e oferecer benefícios que realmente façam diferença, como o auxílio creche e o canal de acolhimento para vítimas de violência doméstica. Esse olhar integral reforça nossa convicção de que ninguém cresce sozinho: cresce com suporte, respeito e possibilidades reais", afirma.

Violência sexual

A Petrobras lançou, em 2023, um programa contra a violência sexual, que afeta principalmente as mulheres, a fim de centralizar e acompanhar a execução de todas as ações de combate ao assédio, à importunação e à violência sexual na empresa. Um ano depois, a ação passou a atacar os outros tipos de violência também. 

"Em 2023, teve uma situação de violência no centro de pesquisa (um petroleiro foi denunciado por assédio por terceirizadas) e, naquele momento, a Petrobras já estava em transição da alta administração, que assumiu com o posicionamento de não tolerância à violência e de valorização das diferenças, olhando para a temática de diversidade, equidade e inclusão", conta Ana Gawryszewski, coordenadora do programa. 

A ação, que vai entrar no terceiro ciclo, está neste momento na fase de definição das próximas medidas que poderão ser implementadas. Ana ressalta que há um processo de escuta para avaliar em que a empresa ainda precisa progredir. "A partir dos nossos avanços, vemos o que ainda pode melhorar, até mesmo na própria estrutura do programa", afirma a coordenadora. 

Uma medida em discussão para ser adotada é um protocolo de gênero no processo de investigação para a melhor percepção das pessoas em situação de vulnerabilidade. Também deverá ser implementada a "ronda feminina", pela área de segurança corporativa, com equipe circulando nas unidades operacionais a fim de identificar e acolher vítimas de violência doméstica familiar. 

Entre as mudanças efetivadas após o início do programa está a disseminação do posicionamento da empresa também para a cadeia de fornecedores para que as políticas de valorização e não violência não ficassem restritas à força de trabalho da Petrobras. "A gente precisa de todo mundo para avançar com essa temática tão complexa", sustenta Ana. 

Essas estratégias, pontua Ana, são adotadas visando à prevenção, para que a atuação da empresa seja proativa e a violência não aconteça. Ela observa que o ambiente corporativo acaba sendo um fragmento da sociedade e reproduz, em alguma medida, condutas machistas, sexistas e misóginas. 

"A gente não foge dessa realidade das microagressões ou da visão de que a mulher não pode ocupar uma função de liderança, por exemplo, mas as ações adotadas visam mudar esse cenário."

Um dos aspectos que Ana ressalta é que, embora a parcela de mulheres na empresa esteja atualmente em 17% do total de trabalhadores, elas já somam 25% em posições de liderança, inclusive a presidência da companhia — hoje comandada por Magda Chambriard. 

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