Publicado em 24 de julho de 2025 às 14:05
SÃO PAULO - No ano passado, mais de 100 mil medidas protetivas de urgência foram descumpridas no país. O número é 10,8% maior do que no ano anterior, quando foram registradas 87,6 mil falhas em manter o agressor longe das mulheres vítimas de violência doméstica.>
Os descumprimentos representam 18,3% do total de medidas concedidas pelo Judiciário ao logo do ano passado, que somaram 555.001. Ao menos 52 mulheres morreram enquanto tinham restrições judiciais ativas.>
Descumprimentos de medidas protetivas (em números absolutos)>
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Fonte: 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública>
O Estado de São Paulo foi o mais recorrente com quase 20.000 descumprimentos, seguido pelo Rio Grande do Sul (11,9 mil), Minas Gerais (11,2 mil) e Paraná (10,7 mil), segundo a 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.>
A medida protetiva de urgência é prevista há quase 19 anos no âmbito da Lei Maria da Penha, primeira norma jurídica no país que criminalizou a violência contra a mulher, e sua execução ainda esbarra em falhas, segundo Manoela Miklos, pesquisadora sênior do Fórum. "Estamos vendo a recorrência de descumprimento dos mesmos agressores, conhecidos não só da vítima, mas do próprio sistema", diz.>
Em 2024, os dados do anuário mostraram que ao menos quatro vítimas do sexo feminino foram mortas por dia. O total de 1.492 mulheres assassinadas referente ao ano passado é o maior número já registrado desde 2015 e representou alta de 0,7% em relação a 2023.>
Os números foram registrados quase dez anos após a aprovação da lei do feminicídio, que transformou o homicídio de mulheres em um tipo penal, e deixou de ser uma qualificadora do homicídio doloso, como ocorria anteriormente.>
Homicídios femininos em 2024 (em números absolutos)>
O indicador evidencia tendência de alta e manutenção desse tipo de crime em patamares elevados, apesar da queda geral das mortes violentas intencionais. "É a mesma foto todo ano", diz a pesquisadora. "Ainda é um desafio criar política pública da porta para dentro", continua sobre o local onde ocorre a maioria dos crimes, na residência das vítimas.>
Nesse cenário, a pesquisadora ressalta a subnotificação dos feminicídios, já que, muitas vezes, as delegacias registram a ocorrência como homicídio doloso e a condição de gênero da vítima que teria motivado o crime fica em segundo plano.>
Foi um ano também de alta nas tentativas de feminicídio, quando houve 19% mais notificações do que no ano anterior.>
O levantamento apontou também aumento do registro de estupros no país no ano passado, 9,6% acima dos números registrados em 2023. As mulheres representaram 92,7% das vítimas. "As taxas de violência sexual são puxadas para cima porque temos grande parte do país funcionando como nos anos 1970, sem controle no acesso a armas", diz a pesquisadora, que também cita a ausência de delegacias da mulher na maioria dos municípios com mais casos de violência sexual.>
Em 2024, cerca de 95 mil mulheres declararam serem vítimas de perseguição, crime que teve alta de 18,2% em comparação com o ano anterior. Artigo do Código Penal vigente desde 2021 torna crime o ato de perseguir alguém, por qualquer meio, e sob ameaça contra sua integridade física ou psicológica.>
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