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Será doença? Entenda o que está por trás da risada do Coringa

Uma síndrome neurodegenerativa? Psicose? Um tipo de epilepsia? Médicos analisam caso do personagem de Joaquin Phoenix

Publicado em 15/01/2020 às 16h31
Cena do filme Coringa, com Joaquin Phoenix. Crédito: Reprodução
Cena do filme Coringa, com Joaquin Phoenix. Crédito: Reprodução

Joaquin Phoenix pode levar o Oscar este ano por sua atuação brilhante em Coringa, que tem como marca uma gargalhada meio sinistra. Pela primeira vez, o famoso vilão é retratado como alguém que sofre um problema de saúde caracterizado por risos incontroláveis - algo que ele mesmo tenta explicar para as pessoas que presenciam as crises. Ou seja, não seria por pura maldade.

Mas o que seria essa doença capaz de causar surtos de risadas sem razão alguma? Especialistas diversos começaram a especular as razões. Seria um transtorno mental? Um distúrbio neurológico? Há quem afirme que seja um tipo raro de epilepsia.

O neurocirurgião Alexandre Teixeira dos Santos é mais dessa linha, aventada por outros especialistas mundo afora, e acha que um problema provável que pode acometer o personagem do filme seja a chamada epilepsia gelástica. “É um tipo de epilepsia muito raro. Nunca atendi nenhum caso. Mas a pessoa tem crises que podem durar segundos ou se perpetuar por minutos, uma risada um tanto quanto perturbadora e compulsiva. Ela fica rindo de forma repetitiva, descontrolada. É como uma epilepsia parcial, pois não há perda de consciência. Ela só ri, não consegue falar”, explica o médico.

É algo difícil de diagnosticar e pode ser confundido com qualquer problema psiquiátrico. "Não se sabe a hora em que a pessoa vai ter a crise. Nem sempre vai ser na frente do médico para que seja feito o diagnóstico", afirma o neurocirurgião.

Em caso positivo, o Coringa poderia buscar ajuda. "Seria possível tratar com anticonvulsivos orais que não vão curar o problema, mas vão mantê-lo sob controle", comenta ele.

De acordo com o neurologista Leonardo Maciel, outra hipótese levantada seria de transtorno de afeto pseudobulbar, que seria um problema derivado de outros, como lesão cerebral, AVC, doenças neurodegenerativas etc. “É um quadro associado ou decorrente de uma doença primária, geralmente neurológica e grave, progressiva ou sequelar”, diz.

No transtorno de afeto pseudobulbar, ocorre choro inconsolável e infundado, ou menos frequentemente, risos incontroláveis, e muitas vezes os dois alternados.

De qualquer forma, aponta o médico, o riso não tem relação com o humor do paciente.

Para Maciel, a risada patológica de Arthur Fleck pode ainda ter como motivo a síndrome de Tourette, um distúrbio de movimento e neurocomportamental comum em crianças que pode persistir no adulto, caracterizado por múltiplos tiques motores e vocais.

“Nele, a pessoa pode sofrer de condições como transtorno de deficit de atenção e hiperatividade, transtorno obsessivo-compulsivo e outros problemas comportamentais e psicossociais. Pode ter, por exemplo,  ataques de raiva, com linguagem obscena ou gestos. Lembro que no filme há cenas em que o Coringa aparece xingando pessoas do nada”, comenta o neurologista.

A hipótese de uma síndrome epiléptica é interessante, segundo ele. No entanto, há dúvidas “A citada epilepsia gelástica é uma doença rara. Tem esses ataques de riso incontroláveis e sem motivo aparente. Mas também apresenta outros tipos de crises e comprometimento mental progressivo. Após os ataques, os pacientes tendem a se queixar de fraqueza e ficam confusos, que não é o caso. E na maioria das vezes, crises epilépticas são paroxísticas, isto é, sem um fator desencadeante, mesmo sob as situações e estresse psicológico por que passa o personagem”, destaca Maciel.

Mas o que deve haver mesmo com o Coringa, na visão do neurologista, é uma junção de quadros patológicos.

“Seria muito interessante se pudéssemos nomear uma única doença para o personagem. Isso implicaria que poderíamos ter uma cura, tratamento ou pelo menos um paliativo. Ou mesmo poderíamos determinar o prognóstico, para onde ou até onde o personagem vai. Mas na minha opinião a licença poética permitiu aos roteiristas adicionar sintomas neurológicos de doenças degenerativas a um quadro psicótico ou perverso. Acho que é uma junção entre um quadro neurológico e uma psicopatia em progressão, por sinal, muito bem escalonada, apesar de não ser minha área e de haver muitas críticas de colegas psiquiatras”, observa o especialista.

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