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Crescer dói? Como a escola pode ser um espaço afetivo para os alunos

Crescer dói? Como a escola pode ser um espaço afetivo para os alunos

A sensação de que o amadurecimento traz um desconforto é real, mas atividades simples podem ter impacto positivo no desenvolvimento dos adolescentes

Publicado em 10 de agosto de 2025 às 06:00

Os adolescentes vivem momento de buscar integração com novos grupos
Os adolescentes vivem momento de buscar integração com novos grupos Crédito: Shutterstock

A adolescência é um período de intensas transformações e, na sociedade atual, ainda é marcada por uma geração hiperconectada. Somam-se a esse momento as cobranças sobre o futuro profissional, com a necessidade de desenvolver inúmeras habilidades para caber nas exigências do mercado.

Também é nesse espaço de trocas plurais que emergem novas experiências, tais como relações amorosas, busca por integração em novos grupos, pressões escolares e familiares, conflitos com a própria identidade, escolhas e decisões sobre o futuro.

Marcelo Santos, psicólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, reitera que para a psicologia, de fato, crescer dói. Mas dói porque leva a pessoa a novos desafios, a encarar perdas e confrontos com o desconhecido. Então, existe um desconforto emocional e psicológico, mas não é uma dor física, é uma sensação de angústia, de ansiedade.

“A dor, nesse caso, é inerente ao processo de amadurecimento da pessoa. Ela vai encarar uma desconstrução da sua identidade infantil para uma adulta e isso pode gerar uma crise de identidade. Porém, a escola pode servir como um espaço de acolhimento, elaborando estratégias de apoio à saúde mental e auxiliando este aluno na sua escolha profissional”, sugere Marcelo.

A psicóloga Luana Vianez observa que a adolescência é um período do desenvolvimento humano em que a mente passa por muitas mudanças qualitativas, ou seja, despertam-se algumas faculdades mentais superiores, devido a um amadurecimento das estruturas corticais do cérebro.

“Novas capacidades passam a estar disponíveis, como a reflexão, o planejamento e a previsão dos resultados de ações. Essas capacidades enriquecem a forma de pensar, de se relacionar com as pessoas e com o mundo ao redor, abrindo um universo de possibilidades para que o adolescente inicie suas escolhas na vida, sendo esse um treino intensivo para se tornarem adultos”, afirma Luana.

Luana Vianez, psicóloga, explica que a adolescência é um período em que a mente passa por muitas mudanças qualitativas Crédito: Divulgação

Nesse contexto de imensos desafios internos, diz a psicóloga, a escola pode atuar, negando ou favorecendo a regulação desses potenciais. “Infelizmente, há diversas lacunas no sistema educacional que incidem na vida de jovens, exercendo enorme pressão por retenção de conteúdos e deixando pouco espaço para um verdadeiro amadurecimento intelectual”.

Essa pressão, continua Luana, também reduz a possibilidade de momentos de reflexão, presença e conexão, fazendo com que o adolescente passe por essas profundas transformações típicas da idade, muitas vezes desconectado-se até de si.

Reflexões

Toda vez que a escola evidencia a estrutura da realidade, favorece o adolescente de muitas formas. Fazer refletir, ajudá-lo a encontrar seu lugar, a se conectar e se apoiar mutuamente são atividades simples que podem gerar um enorme impacto positivo no desenvolvimento geral desses jovens, apontam os especialistas.

Professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Marcelo Lima comenta que a escola é um espaço de socialização onde a criança, o adolescente e o jovem vão encontrar formas de convivência, trocas afetivas, vão ter apropriações cognitivas sobre a matemática, a história, enfim, sobre o conhecimento.

Marcelo Lima, professor do Centro de Educação da Ufes
Marcelo Lima, professor do Centro de Educação da Ufes: "A escola não é o céu, é um lugar onde o aluno vai aprender a conviver convivendo" Crédito: Divulgação

“Na escola, a criança deve estar protegida da violência e de qualquer forma de discriminação. Porém, esse ambiente também prepara o indivíduo para a sociedade. Deve-se encontrar nele um espaço sadio, tanto do ponto de vista sanitário, quanto das relações. Mas a escola não é o céu, é um lugar onde o aluno vai aprender a conviver convivendo”, alerta o educador.

É na escola que se multiplicam as oportunidades de aprendizagem social e emocional, propiciando condições favoráveis para o fortalecimento de vínculos de amizade e companheirismo, reforça Silvana Bizzo Cruz, coordenadora pedagógica geral do Colégio Sagrado Coração de Maria.

Silvana Bizzo Cruz, coordenadora pedagógica geral do Colégio Sagrado Coração de Maria. Crédito: Divulgação

Diante desse cenário, as equipes do Colégio Sagrado Coração de Maria, por meio de projetos gerenciados pelas orientadoras educacionais e acompanhados pelos professores tutores, acompanham e orientam os estudantes utilizando ações personalizadas para acolher, escutar, valorizar e incentivá-los a participar de atividades que proporcionam prazer, informações e curiosidades.

Ainda incluídas nesses projetos orientadores, o colégio realiza palestras informativas sobre o mercado de trabalho, novas profissões, processos seletivos de várias universidades no Brasil e no exterior, pois é nessa fase que os estudantes também são solicitados a escolherem um curso superior e, quem sabe, até a profissão.

O Sagrado desenvolve atividades de lazer e lúdicas na formação dos alunos
O Colégio Sagrado desenvolve atividades de lazer e lúdicas na formação dos alunos Crédito: Divulgação

“Atividades de lazer, lúdicas e jogos interativos também fazem parte do rol de atividades planejadas e organizadas durante o ano letivo, visando a tranquilizar e acalmar os alunos, objetivando o sucesso não somente nos exames, mas também na vida adulta”, cita a coordenadora do Sagrado.

Marcelo Santos, da Mackenzie, também cita exemplos de atividades que podem ser realizadas pelas escolas, como programas de habilidades socioemocionais, que vão auxiliar o jovem a ter um controle emocional melhor, em olhar para as competências que já possui e entender que ele pode aprender outras.

Marcelo Santos, psicólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Marcelo Santos, psicólogo e professor da Mackenzie, cita atividades que auxiliam o jovem a ter um controle emocional, como programas de habilidades socioemocionais Crédito: Divulgação

O professor ressalta que essa atitude pode ajudar o jovem a praticar comportamentos adaptativos à nova realidade que ele terá.

“A escola pode interagir também no currículo, trazendo oficinas de habilidades, mentoria e tutoria de professores. Pode-se trazer profissionais das mais diversas carreiras para fazer palestras, esclarecer dúvidas, explicar como foi a própria escolha, porque esse jovem, ao ver como o outro fez a escolha, pode sentir um conforto emocional, diminuindo um pouco a ansiedade e a angústia”, sugere.

Para ele, existe um leque muito grande de possibilidades que a escola pode criar, de modo a oferecer um pouco de conforto neste momento tão crucial na vida do jovem, que é escolher uma profissão.

A psicóloga Luana Vianez conclui afirmando que o amadurecimento intelectual e emocional desses jovens em processo de formação interessa a toda a sociedade.

“Precisamos ser capazes de olhar para esse período com a devida atenção, se quisermos ajudá-los a construir um futuro próspero e pacífico que possa beneficiar a todos nós. Nenhuma herança que deixarmos às novas gerações pode ser melhor do que isso”.

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