O desafio de enfrentar o câncer de mama com uma gravidez

No mês de campanha de prevenção ao câncer de mama, conheça os possíveis danos à fertilidade e os desafios que envolvem a sexualidade de uma paciente com câncer de mama e um bebê. Especialista aponta como reduzir esses danos

Publicado em 17/10/2020 às 06h01
Atualizado em 20/10/2020 às 12h07
Luana enfrentou um câncer de mama com uma gravidez
Luana enfrentou um câncer de mama no período de puerpério. Crédito: Luana Andrioli

A preocupação e as dúvidas comuns acerca da fertilidade durante as fases do tratamento contra o câncer de mama acabam preocupando quem passa por esse processo. Além disso, a insegurança passa a fazer parte da rotina da paciente, devido às várias mudanças estéticas e efeitos colaterais de procedimentos como a quimioterapia ou a radioterapia. Fatores como queda de cabelo e mastectomia também atingem diretamente a autoestima da paciente, o que acaba impactando também na sexualidade de quem passa pelo tratamento.

A oncologista Virgínia Altoé, do Centro capixaba de Oncologia (Cecon), garante que a fertilidade sim pode ser afetada com a quimioterapia. A quimioterapia pode levar o ovário da paciente a parar de funcionar, precipitando a menopausa. “Não necessariamente, outras quimios que são para outros tipos de câncer podem também levar a paciente a menopausa precoce, como nas leucemias, por exemplo” ressalta.

Ela explica que o desejo sexual também pode ser afetado exatamente por causa da interferência da quimioterapia na produção hormonal. “A libido pode sim ser muito afetada pela quimioterapia, pela queda nos hormônios a níveis de menopausa, causando ressecamento vaginal que também é um fator que dificulta a atividade sexual”, coloca

Além disso, o corpo sofre modificações, como a cirurgia da mama, seja a retirada parcial ou completa, o que também influencia diretamente na atividade sexual. “Outro detalhe é a queda de cabelo, que pode interferir na autoestima da paciente, levando-a a não se ver bonita, em alguns casos, dificultando ainda mais a atividade/desejo sexual”, lembra Virgínia.

Diagnóstico na gestação

Durante a gravidez, a advogada e professora universitária Luana Petry já havia sentido algumas alterações no seio. “A descoberta de meu câncer de mama foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Havia acabado de dar à luz, portanto, eu só pensava em poder cuidar da minha filha”, conta ela.

Ela lembra que, no dia do nascimento, questionou a médica que fez o parto e tem certeza de que, naquele momento, a profissional já sabia o diagnóstico, mas me manteve Luana muito calma. “Apresentou-me excelentes especialistas e, graças a ela e, claro, aos competentes profissionais que foram aparecendo em meu caminho, uma semana após o nascimento de minha filha, eu já tinha o diagnóstico”.

Cinco dias após o diagnóstico, mesmo sem todos os exames, Luana já estava realizando a primeira quimioterapia. Segundo ela, ainda existe um grande desespero quando se descobre com um câncer, mesmo com toda a evolução da medicina.

Luana explica que, quanto à fertilidade, ela e o marido estavam tranquilos, pois sua médica, desde o início, sempre afirmou a possibilidade de engravidar posteriormente, respeitados os próximos cinco anos do acompanhamento. “Eu e meu marido sempre fomos muito tranquilos quanto a isto. Nossa filha foi um presente de Deus enviado para me salvar. Claro que ficaria triste em não poder lhe dar um irmão ou irmã, mas ficaria mais triste ainda em não poder vê-la crescer”, afirma Luana.

Luana Petry conta que a perda de cabelo a afetou menos que as mudanças no corpo.
Luana Petry conta que a perda de cabelo a afetou menos que as mudanças no corpo. Crédito: Arquivo pessoal

O desafio da sexualidade

Já a sexualidade foi um tema que a afetou bastante. Luana passa por algumas dificuldades neste aspecto e ressalta que, geralmente, quando fala-se em sexualidade, muita gente se remete apenas a sexo, mas vai muito além disso. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) entende a sexualidade como uma energia para encontrar o amor, contato e intimidade; é a soma da relação íntima, biológica e emocional de uma pessoa. Então a sexualidade está ligada à saúde física e mental”, pontua.

“A sociedade traça um “modelo” de mulher, ou seja, a mulher deve ser magra, linda e ainda temos que conseguir isto tudo sendo esposas, donas de casa e profissionais. E não adianta falar que este paradigma foi quebrado, porque ainda não foi. Acho que isto afeta muito as mulheres que passam pelo câncer de mama, pois, além da perda do cabelo, existe um ganho ou perda de peso que interfere na sexualidade. Então, se não estamos bem conosco como acreditar que nosso parceiro continua nos desejando?”, indaga.

Luana salienta ainda a importância do tratamento psicológico durante o tratamento de câncer, segundo ela, ele serve para aceitar que tudo vai passar. Felizmente, o câncer de mama, quando descoberto precocemente, tem cura. “Além disto, podem acontecer mudanças nos órgãos genitais durante a quimioterapia que dificultam a relação sexual, o que também pode interferir na sexualidade da mulher que pode não se considerar capaz de proporcionar prazer ao parceiro. Isto deve ser trabalhado”, coloca a advogada.

Ela conta que a perda do cabelo não a afetou tanto, apesar de concordar que é triste ver seu cabelo caindo, admite que gostou da sua careca. “Após a perda da amamentação, aceitei isto com muita tranquilidade, claro que o apoio do meu marido foi essencial: sempre falava que eu estava linda. Porém, o inchaço é algo que tem me incomodado, sempre gostei muito de esporte, praticava vôlei, natação e academia, inclusive durante a gravidez, apenas parei devido à pandemia. Portanto, sempre tive um corpo com que me sentia bem. E, como disse, nós, mulheres, primeiro temos que nos sentir bem conosco para conseguir o contato e a intimidade com o próximo”, explica ela.

Luana lembra ainda que, com o tratamento, surgem as dores, cansaço, enjoo, dentre outros que podem fazer com que o parceiro também tenha receio de se aproximar, por isto, aqui em casa o diálogo sempre é o grande aliado de sua relação com o marido. “O inchaço, o rosto redondo, foram barreiras à minha sexualidade por motivo cultural. Porque na minha cultura o esporte, a vida saudável, o ser magra sempre foram a forma que eu me sentia atraente e conseguia atrair o meu parceiro”, finaliza.

Como reduzir os danos

A oncologista Virgínia Altoé
A oncologista Virgínia Altoé  garante que fazer escolhas prazerosas que amenizam o período do tratamento. Crédito: Arquivo pessoal

Segundo Virgínia Altoé, uma das principais maneiras de reduzir os danos relacionados à sexualidade durante o período de tratamento do câncer é por meio da informação. A paciente e o companheiro informados estarão mais preparados para enfrentar as dificuldades e buscarão alternativas que podem facilitar o desejo sexual. Sejam elas filmes, carícias diferenciadas, gestos e cuidados diferenciados com o (a) parceira/parceiro. “Para o ressecamento vaginal, existem vários hidratantes vaginais e o laser vaginal que também pode alcançar resultados muito satisfatórios”, afirma.

Além disso, a oncologista considera relevante acrescentar a importância da equipe multidisciplinar, o acompanhamento psicológico durante o tratamento, as boas escolhas alimentares, a prática de algum tipo de atividade física ou qualquer atividade que traga prazer e satisfação pra paciente, como pintura, desenho, cozinhar ou mesmo assistir um filme que gosta muito. “Fazer escolhas prazerosas que amenizam o período do tratamento”, garante.

Fatores hormonais

A ginecologista e mastologista Nuzimar Rodolfo
A ginecologista e mastologista Nuzimar Rodolfo. Crédito: Arquivo pessoal

Neuzimar Rodolfo é ginecologista e mastologista do Hospital Evangélico de Vila Velha (HEVV) e afirma que os tratamentos do câncer. Segundo a médica, sobre o câncer de mama, há diversos fatores responsáveis pela iniciação do tumor e o fator hormonal é um deles. “Devemos conhecer quais são as características morfológicas. Muitas vezes esse tumor se apresenta por meio de receptores de estrogênio e progesterona. Neste caso, a terapia seria uma forma de bloquear tais receptores e, consequentemente, esse bloqueio hormonal resulta em danos à fertilidade da paciente”, explica ela.

“Todo o tratamento de câncer que visa um bloqueio hormonal ou utiliza drogas quimioterápicas que são tóxicas aos tecidos germinativos pode causar um dano à fertilidade”, complementa.

Segundo Neuzimar, a paciente pode sim engravidar e amamentar quando tem um câncer de mama na fase reprodutiva da vida e passa por um tratamento em que é possível voltar com as funções reprodutivas. No entanto, essa não é uma recomendação médica. “Nós orientamos a diminuição da exposição aos hormônios. O que não é possível durante a gravidez e a amamentação, pois são fases nas quais a mulher tem uma exposição aumentada de estrógeno, por exemplo”, pontua.

Os maiores medos das pacientes que passam pelo consultório de Neuzimar são perder a mama, a função reprodutiva e de ter a autoestima afetada após um tratamento cirúrgico e quimioterápico.

A mastologista ressalta que os fatores hormonais não são os únicos determinantes de um tumor. No que se refere aos fatores hormonais e genéticos, existe pouca possibilidade de interferência. Diferentemente dos fatores externos/ambientais, pois estes podem ser mudados. “Precisamos falar sobre isso em uma campanha de Outubro Rosa, já que o fator ambiental é tão impactante e determinante no início de um tumor. Os fatores ambientais estão associados à alimentação e atividade física, capazes de reduzir a incidência do câncer de mama e de muitas outras doenças crônicas”, finaliza.

DEPOIMENTO:  Ao ouvir o coração do bebê, ela perdeu o medo

Meyriellem Crístini da Silva, 34 anos
Diagnosticada com câncer de mama em dezembro de 2019

Meyriellem Cristina no começo e após o tratamento. Na segunda foto, acompanhada de seu filho, Anthony.
Meyriellem Cristina no começo e após o tratamento. Na segunda foto, acompanhada de seu filho, Anthony. Crédito: Arquivo pessoal

Meyriellem Crístini da Silva, 34 anos

Diagnosticada com câncer de mama em dezembro de 2019

"Os meus filhos eram o motivo maior. Ouvir hoje a risada do meu filho faz tudo valer a pena."

Eu senti um caroço muito pequeno na minha mama em julho de 2019. Achei que poderia ser só um caroço, mas aquilo não saiu da minha cabeça. O caroço começou a crescer, fiquei mais preocupada e procurei um especialista que disse que era um nódulo mamário. Eu insisti para fazer um ultrassom e o especialista que fez o exame disse também que era só um nódulo, que não era nada, mas que deveria me preocupar se o nódulo aumentasse ou mudasse de lugar. Mesmo se não mudasse, em três meses, eu deveria repetir o exame. Mas antes mesmo de completar esses três meses, o nódulo já estava maior e eu sentia dor, e aí ele fez o exame novamente e me indicou direto para um mastologista.

Recebi várias negativas por não ter a idade do público que, geralmente, é acometido pela doença. Foram muitas dificuldades, precisei fazer os exames em clínicas particulares pra conseguir ser atendida mais rapidamente, e mesmo assim foi demorado porque o nódulo evoluía muito rápido.

Nesse meio tempo, eu continuei menstruando e não tinha nenhum sintoma de gravidez. Minha filha, que hoje é a do meio, chegou a dizer um dia que eu estava grávida e fiquei um pouco impressionada, mas não tinha sintomas. Até que um dia comi pudim, e eu amo pudim, e enjoei. Ela falou sobre a gravidez no domingo e eu enjoei em uma quarta-feira. Aí fiz o teste e descobri que estava realmente grávida.

Não foi uma gravidez planejada e estava muito preocupada com o nódulo que estava crescendo, não sabia se era câncer ou não, mas era alguma coisa porque estava crescendo. Só senti medo quando descobri a gestação, medo de muitas coisas. Mas foi um medo que durou três dias. Peguei o resultado da gravidez na quarta e na sexta-feira já fiz a ultrassom. Quando escutei o coração do meu filho bater, o medo foi embora. Quando aquele coração bate, você vira manteiga derretida. E o bebê já estava com 13 semanas, era um menino.

Seis dias depois do resultado do exame da gravidez, quase junto, saiu o resultado da biópsia. Minha preocupação no começo era saber se isso tudo era possível. Eu não conhecia história de outras mulheres que passaram pelo câncer de mama durante a gravidez. Eu fui pra internet, fui buscar essas histórias parecidas com a minha. Eu tinha muito medo de perder o meu filho no meio do caminho. Pesquisei sobre tudo, eu não queria ficar no escuro em relação à minha condição.

Me foi dito que seria melhor eu não ter, o que não era possibilidade pra mim. Já que estava com ele, eu ficaria até o final. O meu medo era passar algo para ele ou trazer um problema maior depois. Eu estava mais preocupada com ele do que comigo. Eu tinha que preocupar com a minha saúde, com as minhas duas filhas, mas eu já tinha esse terceiro filho, ele estava comigo, não estava nos meus braços, mas estava crescendo em mim.

No início, a médica explicou que eu iria fazer a quimioterapia e nos remédios da quimio teria alguma coisa pra proteger, pra diminuir o impacto no bebê. Mas todo o tempo eu sempre soube dos riscos que poderiam passar pela placenta, sempre estive muito ciente. E eu fui com a cara e coragem, só queria começar logo.

Comecei a quimioterapia no dia 14 de janeiro deste ano. Logo na primeira consulta, a médica perguntou se estava pronta, e eu queria começar logo pra acabar logo. Era um câncer agressivo e eu teria que começar por uma quimioterapia mais forte, a chamada vermelha.

Durante o tratamento, muitas vezes eu não sentia fome, não tinha vontade de comer nada, mas me forçava porque eu precisava comer pelo meu filho. Foi isso que me deu mais força. Eu sentia muita vontade de ficar na cama, mas levantava, mais por ele do que por mim.

Minha filha mais velha tem 10 anos e sentiu mais, estava sempre preocupada, perguntando se eu estava bem. A minha filha de 4 anos não entendeu muito, ficou curiosa quando eu perdi o cabelo, ela até me ajudou a cortar o cabelo da segunda vez, achava graça. Sempre tive elas por perto. No meio disso veio a pandemia. Talvez, se o cenário fosse outro, elas iriam para casa de parentes, mas, com a pandemia, ficamos sempre muito juntos.

Anthony nasceu no dia 8 de maio de 2020. Minha bolsa rompeu, fiquei internada por oito dias antes de ele nascer. Precisei ficar mais um tempo internada depois por complicações e o meu filho ficou 13 dias na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal. Na fase da internação, por conta da pandemia, eu fiquei sozinha, sem minha família, mas estava sempre no telefone.

No período em que fiquei internada, precisei pausar a quimioterapia, e aí o meu nódulo evoluiu muito e a quimioterapia não fazia efeito no meu corpo. Tive que trocar e quando voltei ao tratamento iniciei a radioterapia, fiz 15 sessões. Agora voltei para quimioterapia, estou fazendo a quimioterapia oral. Eu não pude amamentar e essa foi uma das piores coisas, já que as outras duas filhas eu amamentei. Meu filho toma a chamada fórmula desde a Utin.

Anthony é saudável, mas estamos fazendo um acompanhamento rigoroso. Meu caso foi estudado e pode surgir algum efeito tardio, por isso, fazemos exames periódicos. Ele toma medicações porque tem alguma coisa óssea e outra no metabolismo. Ele toma alguns remédios, mas está tudo bem. Graças a Deus eu tenho um companheiro e ele ficou sempre do meu lado. E é muito bom saber que ele não demonstra estranheza ao ver meu corpo.

Em julho, deste ano eu fiz a mastectomia total, com esvaziamento axilar. Em termos de sexualidade, com a cirurgia, eu pensava muito em como eu ia me ver, como o meu marido ia me ver, enfim, como as pessoas iriam me ver.

Durante todo esse tempo, eu vi que tudo valeu a pena. A perda de cabelo pra mim não foi tão importante. Não tiro a validade de quem acha importante, cada mulher lida com o câncer de uma forma diferente. Mas para mim, os meus filhos eram o motivo maior. Ouvir hoje a risada do meu filho faz tudo valer a pena.

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