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Cientista, médico ou piloto? O que você quer ser quando crescer?

Às vésperas do Dia das Crianças, elas revelam seus sonhos. E adultos contam suas experiências sobre a pergunta que atravessa gerações

Publicado em 12/10/2020 às 09h00
Atualizado em 12/10/2020 às 09h01

O que você vai ser quando crescer? Essa é uma pergunta muito comum feita pelos adultos às crianças. Ela pode vir dos pais, de parentes ou algum amigo da família. Em seguida, como resposta, surgem futuros astronautas, médicas, caminhoneiros, atrizes, entre outras profissões.

Para a psicanalista Bianca Martins, essa é uma pergunta feita há décadas, passada de geração em geração.

“A cada geração essa pergunta é reeditada. Nos séculos passados, quando as famílias deixaram seu núcleo produtivo e se tornaram um núcleo afetivo, em primeiro lugar, esse questionamento vinha com o intuito de preparação para esses pais saberem se iam conseguir apoiarem esses filhos ou não no seu desejo profissional”, explica.

Mesmo sendo feita a décadas e poder gerar algum conflito entre pais e filhos, a psicanalista acredita que essa pergunta pode e deve continuar a ser feita.

Isso porque, é “uma boa forma de inserir a criança num contexto social. É dar um lugar, é dar um olhar pra ela”, explica”. E vai além. “Quando o adulto se reporta à criança “o que você vai ser quando crescer?” é uma forma de convidá-la a sonhar”, diz.

Ela diz que os adultos, ao fazerem essa pergunta, apenas precisam considerar que as crianças também perguntam isso entre si “o que você vai ser quando crescer?. E ao fazerem esse questionamentos, “as crianças se projetam no futuro”.

Bianca Martins, psicanalista
Bianca Martins: “Quando você vai investigar melhor, o sonho desejado para o filho é algo que o pai não conseguiu pra ele”. Crédito: Carlos Alberto Silva

Bianca faz um alerta sobre “o que você vai ser quando crescer”. 

Bianca Martins

Psicanalista

"Às vezes tem um conflito nessa situação. O pai pergunta, mas tem o intuito de saber se o filho vai realizar seu sonho não realizado."

Bianca cita, como exemplo de conflito, um menino que desenha muito bem, mas o sonho do pai era ter um filho jogador de futebol. “Quando você vai investigar melhor, o sonho desejado para o filho é algo que ele não conseguiu pra ele na vida”, diz.

Ela diz que o fato do pai projetar no filho o que desejou pra si é saudável e necessário. “Às vezes a criança pode pegar esse desejo ou não. Mas o contrário é motivo de conflito nas famílias. Isso porque um talento pode ser deixado de lado porque aquele pai ou aquela mãe acha que é mais importante fazer outra coisa. Exemplo disso é quando uma criança diz que vai ser artista, o pai ou mãe já poda e diz que artista não vai dar dinheiro”, lamenta.

Para Bianca, é importante que os pais e a família, como um todo, acolham a criança e a sua fantasia.

“É muito importante que os pais, tios, avós e amigos mais próximos acolham a fantasia de todas as crianças do seu convívio. Se você nota que o sonho tem uma potência, ouça, acolha, porque aquilo pode virar realidade”, explica.

A estudante Maria Zon Polese Alves, de 9 anos, diz que quer ser ciêntista
A estudante Maria Zon Polese Alves, de 9 anos, diz que quer ser ciêntista. Crédito: Carlos Alberto Silva

Uma futura cientista

O sorriso e fala gentil marcam o jeito da menina pequenina no tamanho, mas de sonhos gigantes. Isso porque Maria Zon Polese Alves, de 9 anos, quer ser cientista para inventar um “remedinho”, como ela diz, que cure todas as doenças da humanidade. Além disso, ela diz que as crianças podem fazer um futuro muito melhor e, consequentemente, um mundo também.

A psicanalista Bianca Martins diz que “ouvir isso de uma criança de nove anos emociona”. Para Bianca, as crianças fazem e farão o mundo muito melhor. “Elas mais nos ensinam do que a gente ensina a elas. Então, quando a gente tem a oportunidade de viver com as crianças, o universo se escancara diante dos adultos e das famílias”, completa.

Maria conta que não sabe de onde vem essa vontade de ser cientista. Mas diz que “acha interessante misturar várias coisas e não saber o que vai dar no final”.

“Eu fiz um perfume. Misturei água, um perfume que eu já tinha e folhas de hortelã do jardim da minha mãe”, explica.

Mas ela quer mais. Ela quer criar algo que cure todas as doenças. Para isso, ela diz que vai bastar “tomar um remedinho, que vai ficar com um gosto bom. Ele não vai ter gosto ruim, e os outros remédios não vão mais existir”, diz.

A estudante Mari Zon Polese Alves, de 9 anos, e sua mãe Denise Zon
Filha da arquiteta, Denise Zon, Maria quer “criar algo que cure todas as doenças”. Crédito: Carlos Alberto Silva

Sua mãe, a arquiteta Denise Zon, conta que Maria, quando bem pequena, era muito curiosa e mais observadora do que falante.

“Ela falava que seria professora. Mas a partir do momento que ela foi para o ensino fundamental, se encantou com o laboratório de ciências e um esqueleto humano”.

Denise conta que não costuma indagar diretamente sua filha sobre seu desejo profissional futuro. “A gente joga a conversa mais em outro sentido: o que você gosta de fazer? Dessa forma as conversas vão surgindo e nós vamos respondendo seus questionamentos”, explica.

Greco Felipe, piloto de avião internacional
Greco Felipe queria ser piloto de avião desde quando era criança. E conseguiu realizar o seu sonho. Hoje ele pilota jatos ao redor do mundo. Crédito: Carlos Alberto Silva

Sonho realizado: piloto de avião

O piloto de avião internacional Greco Felipe, de 34 anos, lembra muito bem quando na infância perguntavam sobre seu desejo profissional. Ele conta que não pensava muito para responder: “Vou ser piloto de avião!” “Nem pensava muito. Eu sempre sonhei com isso”, conta.

Depois de 14 anos de experiência como piloto no Brasil, 10 deles somente como piloto de jato, ele decidiu alçar voos mais altos. Foi morar nos EUA, onde aprimorou os estudos e hoje pilota jatos cargueiros por todo o mundo.

Felipe conta que nunca achava ruim a pergunta. “Eu só ficava emburrado porque diziam que tinha que fazer faculdade, pois para ser piloto não precisa de formação superior”, diz.

Segundo a psicanalista Bianca Martins, a ideia muito comum no Brasil, de que passar pela universidade é garantia de sucesso, não é bem assim. “Foi-se o tempo em que cursar uma faculdade era uma garantia de emprego no nosso país. Acho que não é em nenhum país do mundo. Tem tantas outras ocupações que rendem financeiramente”, diz.

Para ela, há uma série de atividades além do tradicional “médico, advogado e engenheiro”. “Nós valorizamos estas funções porque durante muito tempo na nossa cultura eram as posições de status porque eram quem tinha acesso à universidade”, diz Bianca.

O piloto Greco, que não tem curso superior, é a prova de que Bianca está correta. Apesar de não dizer quanto recebe hoje, Greco diz que pilotos com vinte anos de experiência voando em empresas de carga chegam a ganhar entre US$700 mil e US$1 milhão por ano, entre salário, bônus e gratificações.

Elisangela Oliveira de Souza, fisioterapeuta
Elisangela Oliveira de Souza queria ser médica quando era criança, mas hoje é fisioterapeuta. Crédito: Carlos Alberto Silva

O sonho esquecido

anos e 15 de profissão, adorava quando na infância perguntavam sobre o seu futuro profissional. “Eu respondia de boca cheia que ia ser médica. Eu adorava que perguntassem só para eu poder falar que ia ser médica”, diz, rindo.

Passados alguns anos, o sonho de infância foi esquecido. Elisângela conta que só lembrou do sonho de menina ao ser perguntada durante a entrevista. “Eu esqueci completamente. Nem quando eu fiz a inscrição para o vestibular eu lembrei disso. Eu só lembrei porque você me perguntou agora”.

Para a psicanalista Bianca Martins, a infância é o momento de experimentar. Ela diz que, “quando eu brinco de médico, por exemplo, eu estou repetindo a minha experiência naquela relação com um profissional que cuida de mim. Então, quando eu me imagino num ofício nada mais estou fazendo do que experimentando o que é viver em sociedade, não só no núcleo familiar que é a criança brincando de casinha”.

E foi exatamente a experiência vivida na infância por Elisângela, após as visitas ao médico nos momentos de dor, que gerou o desejo de ser médica. “Eu achava o máximo quando meus pais me levavam ao médico. Era uma profissão que aliviava minha dor”, lembra.

Seu ofício atual tem muito em comum com o trabalho de um médico. “Assim como o médico, eu trato de pacientes com algum trauma, na recuperação ou na prevenção de lesões”, diz.

O fotógrafo e biólogo, André Alves junto com seu filho, Mateus Leal Alves, de 5 anos
O fotógrafo e biólogo, André Alves junto com seu filho, Mateus Leal Alves, de 5 anos. Crédito: Carlos Alberto Silva

Gamer, youtuber ou biólogo?

Mateus Leal Alves, 5 anos, brinca no jardim e na horta da sua casa. Lá tem flores de beijo, abóbora verde e couve-flor. Mas também tem planta carnívora.

“Se colocar um inseto aí dentro, ela vai fechar a boca. E depois de uns dias ela vai soltar uma água que vai matar o inseto, fazer o alimento dela”, explica o menino. “Ou seja, ela é uma planta que pega alimento sozinha”, concluiu o menino, que não para dois segundos no mesmo lugar.

O pai André Alves, 49 anos, contou que, antes, Mateus costuma dizer que será biólogo. Questionado pela reportagem, o menino diz: “Nada disso. Não te contarei”.

Depois de alguns minutos, diante de uma de suas “invenções”, um robô de lata, ele conta que quer ser cientista. “Eu gosto de ficar fazendo aquelas formulazinhas”, conta.

O robô de lata e um remédio caseiro para matar baratas são algumas das “invenções do Mateus”. Mateus tem um canal no Youtube, onde mostra suas “invenções caseiras”.

“Você faz várias coisas, pai. Então eu quero ser mais ou menos igual a você, pai”, diz o pequeno.

O pai André é fotógrafo, é formado em Biologia e tem mestrado em antropologia e multimeios.

Perguntado sobre suas habilidades, Mateus conta que “tem muita coisa”. “Eu também sou gamer. Eu tenho muitos jogos”.

Sobre criar games, ele diz que não sabe. “Criar não sei. Gravar, sim. Criar não pensei muito bem ainda. Eu não estou totalmente garantido disso ”, conta.

André conta que já perguntou ao Mateus o que ele queria ser. “Ele contou que seria cientista, porque na escola ele tinha um professor que dava aula de ‘engenhocas’, que ensinava eles a fazer objetos artesanais interessantes para eles brincarem”.

André diz que o filho gosta de química e de misturar produtos. “Ele gosta de um monte de coisas! Ele também curte fotografar. Ganhou uma máquina antiga, adora fotografar a casa, as pessoas, o jardim. Começamos até a editar um livro com fotos de plantas, com ele escrevendo o nome delas, porque ele está na fase de alfabetização na escola. A imagem inspira o Mateus a escrever”.

O gosto de Mateus por várias coisas pode estar relacionado ao pai. André conta que antes de ser biólogo e fotógrafo, ele passou pelo curso de Mecânica do Ifes e também pensou em ser técnico agrícola como seu pai. Mas quando descobriu a fotografia, desistiu de tudo.

“A fotografia entrou na sua vida depois que minha mãe casou com o fotógrafo Humberto Capai. Ele me apresentou a possibilidade de uma profissão, a alquimia da revelação das fotos... Era muito mágico!”, lembra.

O gosto pela fotografia de natureza fez brotar o desejo de fazer Biologia. “Da fotografia de natureza eu decidi que ia fazer biologia e larguei o curso de mecânica depois de três anos de estudo”, conta.

André deu um tempo como biólogo e professor universitário. Há 11 anos, ele se dedica ao trabalho como fotógrafo de casamento, ideia que surgiu quando ele se que casou há 15 anos.

A psicóloga e psicanalista Bianca Martins, o filho Luca e o marido, Fabrício Buzatto: família que pratica a solidariedade
A psicóloga e psicanalista Bianca Martins, o filho Luca e o marido, Fabrício Buzatto: "Não devemos direcionar a criança a partir do que ela vai responder. Deixa a criança sonhar! ". Crédito: Arquivo pessoal

Muito além de médico e engenheiro

Para a psicanalista Bianca Martins (foto), existe uma série de outras atividades laborais que a gente sequer tem conhecimento, porque fica centralizado nesse escopo do “médico, advogado e engenheiro”. Ainda mais “com a chegada do computador, que fez surgir infinitas funções e muitas outras que morreram com chegada dele”.

Ela também diz que nós acostumamos a valorizar estas funções tradicionais porque durante muto tempo a nossa cultura valorizou apenas posições de status e pessoas que tiveram acesso à universidade.

“Só que na atualidade tem gente projetando game. Isso há vinte anos não passava pela cabeça de ninguém”.

Para encerrar, Bianca dá uma dica: “Que a gente pergunte, que a gente escute e que a gente seja mais comedida nas nossas opiniões. Não devemos direcionar a criança a partir do que ela vai responder. Deixa a criança sonhar! Acho que isso que é importante na infância.”

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