Durante o seu bombardeio, usando a tribuna como bunker, o agora ex-líder lançou petardos sobre o seu substituto na função,
Eustáquio de Freitas (PSB), mas, principalmente, sobre o único deputado do Cidadania na Casa:
Fabrício Gandini, por acaso presidente estadual do partido. Gandini é pupilo e aliado histórico de Luciano Rezende, que, se não chega a ser o “presidente de fato” do Cidadania no Espírito Santo, é, sem dúvida alguma, o líder mais influente da sigla. Mais importante ainda:
Gandini é pré-candidato declarado à sucessão de Luciano no ano que vem,
com apoio igualmente declarado pelo prefeito e mentor político.
E quanto a Enivaldo dos Anjos? Enivaldo se encontra em outro polo: aquele habitado pelo deputado federal
Amaro Neto, do Republicanos,
potencial adversário de Gandini na disputa pela Prefeitura da Capital em 2020. Dirigente estadual do PSD (o presidente é
Neucimar Fraga), o ex-líder do governo está muito próximo, politicamente, do presidente da Assembleia,
Erick Musso (também do Republicanos). É visto, nos bastidores, como um dos três principais conselheiros políticos de Erick, ao lado do também deputado
Marcelo Santos (PDT) e do diretor-geral da Assembleia,
Roberto Carneiro, presidente estadual do Republicanos e vice na chapa de Amaro quando esse perdeu para Luciano a eleição de 2016 em Vitória.
Por sinal, o Republicanos (ex-PRB, partido com forte ascendência da Igreja Universal do Reino de Deus) é a sigla onde se assenta esse novo grupo político formado no Espírito Santo, com Erick, Amaro, Roberto Carneiro, entre outros. No tabuleiro político-eleitoral, o PSD de Enivaldo, hoje, não faz parte do governo Casagrande e está bem mais próximo desse núcleo dos Republicanos.
Em certa altura do seu rompante na sessão de segunda-feira (2), Enivaldo deixou escapar uma informação muito importante: “O governador [Casagrande] recebeu o partido Republicanos com a proposta de caminharem juntos na próxima eleição, e o governador não pôde aceitar.” De fato, Casagrande teve uma reunião, há pouco mais de 15 dias, com Amaro, Erick e Roberto – na qual as duas partes firmaram um acordo referente à aprovação da PEC da Reeleição Antecipada de Erick e da reforma da Previdência de Casagrande na Assembleia.
Segundo a versão de Enivaldo, Casagrande “não pôde” aceitar esse acordo e marchar com o Republicanos em 2020 justamente por causa do pacto anterior feito pelo PSB com o Cidadania (leia-se Luciano Rezende) – uma aliança mantida pelas duas siglas no Espírito Santo desde 2012 e que tende a ser reeditada, estrategicamente, na disputa a prefeito de Vitória em 2020. “A parte política, principalmente essa do Cidadania, está corroendo a capacidade dele [Casagrande] de buscar mais aliados para dentro do governo”, concluiu Enivaldo.
Mais conexões podem ser feitas. Outro dos principais alvos da ira e da verve de Enivaldo foi o secretário-chefe da Casa Civil, Davi Diniz. Articulador político de Casagrande e ponte entre Enivaldo e o governador, Diniz é outro aliado forte de Luciano Rezende nos bastidores. De coração, o secretário é Cidadania (só saiu do partido ao se tornar secretário de Casagrande, por uma questão técnica). Antes disso, foi secretário da Fazenda de Luciano em Vitória.
“Secretários querem tutelar Casagrande e, se continuarem agindo assim, vão isolar o governador Renato, vão deixá-lo sozinho”, disparou Enivaldo, da tribuna.
O tiro de Enivaldo mirou, extensivamente, a outros secretários que compõem o núcleo duro do governo Casagrande e que ajudam-no a definir a estratégia política do governo:
Flávia Mignoni (Comunicação), também citada por Enivaldo;
Tyago Hoffmann (Governo); e
Valésia Perozini (chefe de gabinete). Os dois últimos são do PSB.
Não pode ter sido só coincidência o fato de que, na mesma sessão, o deputado
Vandinho Leite (PSDB) elegeu Gandini como novo adversário preferencial em plenário. Chamando-o de “parlamentar amigo da EDP”, o presidente estadual do PSDB mostrou no telão um pedido de informações feito por ele ao governo e outro, com igual teor, feito pelo deputado do Cidadania. Só o de Gandini, frisou ele, foi respondido a contento.
Fazendo pontaria em Gandini, Vandinho também buscou acertar em Luciano. Pré-candidato a prefeito da Serra, o presidente regional do PSDB quer que o partido lance candidato próprio na Capital. Hoje sem partido,
o deputado Lorenzo Pazolini tem convite de filiação e as portas do PSDB escancaradas por Vandinho. Além disso, o deputado da Serra é muito bem relacionado com Erick e está na oposição (não assumida) ao governo Casagrande. Não será nenhuma surpresa eventual composição do PSDB com o Republicanos, em apoio a Amaro, em Vitória.
Na saída do plenário após a sessão de segunda-feira, Vandinho respondeu à coluna se pretende polarizar com Gandini em plenário nos próximos tempos. O tucano deixou claro: o foco dele é Luciano. "Eu não tenho interesse nenhum de polarizar com o deputado Gandini, até porque a minha discussão foi com o prefeito de Vitória, Luciano Rezende. Até porque o Gandini fala o que o Luciano fala."
Neste novo contexto, até o abraço de Pazolini em Enivaldo, também na última segunda-feira, diante dos olhos de todos e das câmeras, pode acender o alerta no Palácio Anchieta.
Tampouco parece ter sido mera casualidade que, instantes após o pronunciamento de Enivaldo na segunda-feira, Casagrande tenha ido ao Tribunal de Contas do Estado, para
a posse do novo presidente, Rodrigo Chamoun, e se sentado ao lado de Luciano Rezende antes da cerimônia. Marcaram posição, lado a lado, minutos depois da saraivada da oposição na Assembleia, logo ali, na esquina.
Enfim, não foi só a eleição da Mesa Diretora que foi antecipada na Assembleia. A eleição de Vitória também chegou de vez ao plenário.