Biden acena para europeus e promete verba contra Covid-19

Para recuperar liderança global, Joe Biden, o presidente norte-americano realiza uma nova tentativa de romper com as políticas de seu antecessor na Casa Branca

Publicado em 19/02/2021 às 17h38
O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, discursa durante a cerimônia   de sua posse realizada no Capitólio, em  Washington (DC), nesta quarta-feira (20). Biden se tornou o   46º presidente a assumir o comando do país
O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, discursa durante a cerimônia de sua posse realizada no Capitólio, em Washington (DC). Crédito: PATRICK SEMANSKY/ESTADÃO CONTEÚDO

"A América está de volta". Foi com essa mensagem que o presidente Joe Biden sinalizou para representantes europeus e de outros países aliados sua intenção de reposicionar os Estados Unidos como líderes do Ocidente, em mais uma tentativa de romper com as políticas de seu antecessor na Casa Branca.

Em série de eventos virtuais nesta sexta-feira (19), Biden prometeu mais dinheiro para a distribuição de vacinas contra a Covid-19 pelo mundo, confirmou a volta dos EUA ao Acordo de Paris sobre o clima, defendeu a democracia e o multilateralismo, criticou China e Rússia e reafirmou a importância da Otan -a aliança militar liderada por Washington e que era alvo de desconfiança de Donald Trump.

Exceção feita ao comentário sobre Pequim, todas as outras declarações representam uma mudança em relação à posição americana durante o governo anterior.

Enquanto o republicano defendia uma política isolacionista -simbolizada pelo slogan "América em primeiro lugar"- e criticava as alianças tradicionais de Washington, o democrata pediu apoio dos europeus para combater tanto a pandemia de coronavírus quanto a influencia chinesa e russa.

"Eu sei que os últimos anos foram criaram tensão na nossa relação transatântica", afirmou Biden durante um pronunciamento em vídeo para a Conferência de Munique (evento que reúne líderes mundiais para debater a segurança global).

"Os EUA estão determinados a se reaproximarem da Europa. A consultá-los. A ganhar novamente nossa posição de confiança e liderança", afirmou o americano para uma plateia formada principalmente por eruopeus.

"Nossas parcerias se fortaleceram durante os anos porque elas têm raízes na riqueza de nossos valores democráticos compartilhados. Eles não são uma transação [comercial]. Não são extrativistas. São construídas sob uma visão de futuro na qual cada voz importa", disse Biden .

A declaração parece fazer referência à uma das posturas de Trump, que defendia gerenciar o país como se fosse uma empresa -o atual presidente americano não citou o nome do antecessor em sua fala.

Em um recado para Moscou e Pequim, Biden também defendeu que as democracias devem trabalhar juntas para se proteger das ameaças de grandes competidores em áreas como mudança climática e segurança digital.

"Estamos no meio de um debate fundamental sobre a direção futura de nosso mundo. Entre aqueles que argumentam que a autocracia é o melhor caminho para ir em frente e aqueles que entendem que a democracia é essencial para atingir os desafios. Eu acredito, com cada grama do meu ser, que a democracia deve prevalecer", defenderá Biden. "A democracia não acontece por acidente. Temos que defendê-la, fortalecê-la, renová-la".

O americano citou, inclusive, o que chamou de ações "malignas" da Rússia para tentar desestabilizar a democracia no Ocidente. O presidente Vladimir Putin é acusado de ter tentado influenciar as últimas duas eleições americanas para favorecer Trump, prática negada pelo Kremlin.

Em comum com o antecessor, porém, Biden manteve um discurso duro contra o regime chinês.

"Devemos nos preparar juntos para uma concorrência estratégica a longo prazo com a China", discursou. "Podemos enfrentar os abusos econômicos do governo da China e a coerção que prejudica os fundamentos do sistema econômico internacional", acrescentou.

O país asiático também foi um dos tópicos da reunião de líderes do G7, realizada mais cedo. No comunicado sobre o encontro virtual, os líderes dos países da entidade (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido) defenderam ações unificadas contra "políticas contrárias ao mercado", em referencia a Pequim.

O texto final do evento também condenou o golpe militar recente em Mianmar e a prisão do opositor russo Alexei Navalni pela Rússia e manifestou apoio à realização das Olimpíadas de Tóquio neste ano -o evento, marcado para julho, corre o risco de ser cancelado por causa da pandemia.

Um dos momentos mais icônicos da presidência de Trump aconteceu exatamente na reunião do G7 de 2018, no Canadá. Na ocasião, as desavenças entre o republicano e os outros países ficaram claras em uma foto que mostrava o americano emburrado, cercado pela chanceler Angela Merkel e pelos líderes dos outros países.

Agora em 2021, o tom do encontro foi muito mais ameno, com uma defesa do multilateralismo -palavra quase proibida na diplomacia de Trump.

"Com base em nossos pontos fortes e em nossos valores como democracias, sociedades e economias abertas, trabalharemos juntos e com outros para fazer de 2021 um ponto de inflexão para o multilateralismo e para moldar uma recuperação que promova a saúde e a prosperidade de nosso povo e planeta", acrescentaram os líderes no documento final do encontro.

O combate ao coronavírus acabou monopolizando as atenções. Segundo a Casa Branca, Biden anunciou uma ajuda de US$ 4 bilhões (R$ 21,6 bi) para acelerar a vacinação em países pobres.

Os EUA doarão imediatamente US$ 2 bilhões ao consórcio Covax, iniciativa da OMS (Organização Mundial de Saúde), e mais US$ 2 bilhões nos próximos dois anos, à medida que outros países façam doações. O objetivo é chegar a US$ 15 bilhões (R$ 80,8 bi). A Alemanha e a União Europeia também anunciaram aportes a este fundo.

Segundo a Casa Branca, o democrata também defendeu que os governos aumentem os gastos públicos com programas para ajudar suas populações a enfrentar este momento difícil.

"Empregos e crescimento é o que vamos precisar depois dessa pandemia", resumiu Boris Johnson, premiê do Reino Unido e presidente temporário do G7, sobre as prioridades dos participantes do evento.

Após o encontro, Biden fez mais um aceno para a a Europa e reafirmou seu "compromisso pleno" com a Otan. "Um ataque a um é um ataque a todos. Isso é um voto inabalável".

Os EUA também oficializaram nesta sexta a volta do país ao Acordo de Paris, compromisso assinado em 2015 por mais de 200 países para combater as mudanças climáticas. O acordo tem como objetivo limitar o aumento da temperatura global a 2ºC acima dos níveis pré-industriais, e continuar o esforço para baixá-lo para 1,5ºC.

Washington deixou o acordo por decisão de Donald Trump. Ele defendia que reduzir a poluição traria prejuízos para a economia americana. Já Biden vê na transição para a energia limpa uma forma de acelerar a recuperação após a crise da pandemia.

Secretário especial para o clima, John Kerry, foi pessimista ao falar sobre o cenário atual e disse que é preciso ter mais ambição para as metas sobre meio ambiente dos próximos 10 anos. No Fórum de Munique, ele disse que o mundo ainda está muito longe de frear o aquecimento global e classificou as mudanças climáticas como "multiplicadoras de ameaças" que precisam ser encaradas como questão de segurança.

Caso contrário, afirma o americano, podem "minar a paz e a estabilidade dos países."

"Infelizmente hoje, apenas um ou dois países estão realmente cumprindo o que disseram que fariam", disse Kerry. "Ao nos reunirmos, temos que ser honestos, humildes e, acima de tudo, ambiciosos. Honestos para saber que, como comunidade global, não estamos nem perto de onde precisamos estar e humildes porque sabemos que os EUA estiveram inexplicavelmente ausentes por quatro anos."

O secretário citou diretamente o ex-presidente Donald Trump como sinônimo desse atraso. O republicano negava o aquecimento global e ia contra consensos científicos que chamava de "alarmistas." Os EUA hoje são um dos maiores emissores de gases de efeito estufa, atrás somente da China.

Chamado de czar do clima de Biden, Kerry afirmou que "não é aceitável" que os países que participem de cúpulas do clima, como a que está marcada para Glasgow, em novembro, apareçam "com grandes números em projeções para daqui a 30 ou 40 anos." "É o que as pessoas farão nos próximos 10 anos que importa, é sobre isso que temos que conversar."

Em 2016, foi Kerry, então secretário de Estado do governo de Barack Obama, quem consagrou a participação dos EUA no Acordo de Paris, assinando o pacto com o objetivo de proteger as gerações futuras e combater o aquecimento global.

Horas antes do evento, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, repetiu que a política externa de Biden tem como centro o debate sobre mudanças climáticas e a parceria com outros países. "A mudança climática e a diplomacia científica nunca mais poderão ser 'complementos' em nossas discussões de política externa."

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