O principal segredo das comidas de praia

Publicado em 26/01/2026 às 16h39
Queijo coalho vendido na praia | Comida de praia

O adicional de melado de cana decreta o espeto de queijo como comida de praia favorita. Crédito: Ricardo Alves/Shutterstock

É bem provável que a minha primeira experiência com compras em um circuito comercial tenha sido na areia. Devo ter trocado algumas moedas por um queijo coalho assado lentamente na brasa, bem ali, na frente desses olhos que sempre enxergam oportunidade para petiscar.

O adicional de melado de cana foi certamente a descoberta que faltava para decretar o espeto de queijo, a partir de então, como comida de praia favorita.

Com sol, a praia é um lugar quente e festivo que, por óbvio, precisa ter comida. Até mesmo crianças que permanecem à beira das ondas engolindo água uma hora vão sentir fome e querer provar as iguarias desse imenso restaurante literalmente ambulante.

O vendedor de milho cozido preserva a herança do consumo de um alimento ancestral em boa parte do litoral brasileiro. Já a manteiga derretida por cima dele revela a influência europeia em engordurar nosso sabugo com suas preferências alimentares – isso alguns séculos antes dos pratinhos de isopor roubarem a cena da espiga junto com a margarina.

Os vendedores apostam em diferentes estratégias que podem envolver gritos ou bordões, figurinos ou aromas, olhares ou elogios, além de, para os mais estrategistas, um pitch de vendas para Ciro Bottini nenhum colocar defeito.

Há ambulantes mais amistosos e os impacientes; os criativos e os mais silenciosos; os de carreira e os de temporada; os locais e os viajantes. Nas praias do Espírito Santo, frequentes são os trabalhadores que estão a milhares de quilômetros de distância de suas raízes baianas ou mineiras.

Aliás, com bons vizinhos mineiros que frequentam (muito) nossas praias, não por acaso o queijo é item obrigatório no cardápio do nosso litoral. Mas outras boas opções nunca faltam: empadas, esfirras, picolés, espetinhos de camarão e ostras (para estômagos adestrados), biscoitos, pururucas, castanhas ou amendoins torrados, quebra-queixos e cocadas, geladinhos com álcool ou sem, brigadeiros gourmets e também relaxantes - sem esquecer dos peixes deitados em baixelas revestidas com alface, quando há qualquer estrutura de apoio que comporte uma fritadeira.

A higiene da procedência pode eventualmente ser duvidosa, mas o sabor (da fome e da memória) geralmente compensa. Onde há comida, bebe-se também: água de coco e mate, juninho e copão, além de caipirinhas, cervejas e sucos variados.

Na resistência pacífica ao comércio de praia, há uma outra categoria que merece a nossa atenção: a de comidas trazidas de casa. São infinitas as combinações dentro da lancheira térmica preparada de véspera e alguns combos frequentes incluem sanduíches naturais (para os mais naturistas), macarronese ou salpicão, farofa com frango assado, salgadinhos e empadões, batatinhas chips ou pimentinhas - sem jamais esquecer da petisqueira com salaminhos espetados no queijo, no ovo de codorna e também na azeitona, essa senhora terrivelmente onipresente.

Embora exista um cardápio comum que se repete pelo Brasil, cada praia surfa a sua própria onda e as refeições feitas na areia temperam a identidade local.

No Rio de Janeiro, biscoitos de polvilho e mate marcam o sabor do litoral tanto quanto camarões e tabuleiros de frutas nas praias do Ceará, por exemplo. 

O capixaba, que carrega milho na própria definição de seu nome, aposta no Visconde de Sabugosa como quitute praiano entre os milhares de carrinhos que circulam, sobretudo no verão.

Junto com a segurança em higiene, a diversidade das regiões é, para mim, o principal segredo que tempera as comidas experimentadas de frente para o mar.

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Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de HZ.

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