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Murilo Góes

O café é especial para quem?

Ainda há muita gente disposta a chuchar quilos de açúcar na xícara para alimentar o vício doce de uma existência amarga

Publicado em 01 de Agosto de 2025 às 12:16

Publicado em 

01 ago 2025 às 12:16
Murilo Góes

Colunista

Murilo Góes

Café especial
Buscar sensorial no café é também um exercício de memória Crédito: Shutterstock
Estou no processo de tirar minha cidadania de café especial e me matriculei em um curso de análise sensorial do bendito. O melhor aprendizado foi perceber o especial como metáfora da existência: tem muita coisa para acontecer e as chances de ficar desagradável são altíssimas.
Mas tenho percebido algo de realmente especial nesses cafés: eles reúnem à mesa pessoas um pouco mais preocupadas com aquilo que querem apreciar com a bebida. E nem sempre é sobre sentir aromas.
Dificilmente será ruim o gosto de um café plantado em propriedade orgânica por um produtor preocupado em cuidar do controle de brocas com manejo agroecológico; a não ser que os grãos não sejam selecionadamente colhidos ou levados para secagem controlada com armazenamento cuidadoso; ou que ainda não tenham caído nas mãos de um infeliz para torrar.
Se isso tudo funcionar bem, você ainda precisa ter à disposição um barista com sensibilidade para moagem adequada, além de saber escolher o método mais interessante e aplicá-lo corretamente para extrair os melhores sabores ao cliente que pede uma fatia de bolo sabor mistura láctea em pó para acompanhar.
Nem sempre é fácil vender experiências para desenvolver sentidos. São muitos os controles de variáveis para tudo acontecer em harmonia; mas ter entendido que café especial é aquele feito por pessoas minimamente preocupadas em cuidar de alguma coisa já faz valer o desodorante que gasto para sair de casa e ir a uma cafeteria.
De vez em quando o essencial é invisível aos olhos e por isso existem alguns motivos para um café tentar ser realmente especial: agricultores mais ambientalmente atentos, produções artesanais, remunerações mais atrativas e a possibilidade de visitarmos diferentes propriedades em algumas goladas na xícara.
Buscar sensorial no café é também um exercício de memória, e claro que a companhia pode mudar tudo: ainda há muita gente disposta a chuchar quilos de açúcar na xícara para alimentar o vício doce de uma existência amarga sem antes perceber o aroma de melado de cana com notas de flor de maracujá, corpo moderado e finalização curta.
Dizem que pessoas doces fazem cafés doces e os meus curiosamente ficam ácidos. Paciência: ainda existe muito grão de conilon que não pretende virar arábica (e há quem pague bem por isso). Mas uma vida dura com bebida mole consegue extrair sabores ainda agradáveis, e nem sempre o café precisa ter 87 pontos.

Murilo Góes

Gastrônomo e pesquisador das culinárias brasileiras que também cozinha umas palavras

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