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Patrícia Merlo

Fruta-pão, o alimento do tempo e da terra

Sua presença atravessa gerações e ressurge a cada safra, simples e generosa

Publicado em 25 de Julho de 2025 às 06:00

Publicado em 

25 jul 2025 às 06:00
Patrícia Merlo

Colunista

Patrícia Merlo

Fruta-pão, o alimento do tempo e da terra
Fruta-pão dá sombra larga e sustento garantido Crédito: Shutterstock
Poucos lembram, mas a fruta-pão — de polpa clara, densa e generosa — chegou ao Brasil no século XVIII, vinda das ilhas do sudeste asiático pelas mãos da Coroa Portuguesa. Trazida para alimentar populações escravizadas e carentes nas colônias tropicais, era vista como uma solução prática, econômica e eficaz.
Foi tratada como política de império: está nas páginas das Memórias Econômicas da Academia das Ciências de Lisboa, onde tudo na natureza era calculado em função da utilidade e do benefício do Reino.
Fincada em nossos quintais, a fruta-pão criou raízes fundas e silenciosas. Sua presença atravessa gerações e ressurge a cada safra, simples e generosa. Não exige da terra mais do que ela pode dar. Cresce sem alarde, dá sombra larga, garante sustento e faz um convite à criação.
Na última semana, em visita ao balneário de Iriri, no sul do Espírito Santo, encontrei a cidade já em clima de festa, preparando um de seus eventos mais tradicionais. Foi ali, entre conversas despretensiosas com dois amigos e ex-alunos — hoje chefes de cozinha — que ouvi um elogio entusiasmado a uma das especialidades locais que seria servida: o bobó de camarão com fruta-pão. Prato que une mar e mata, quintal e fogão, saudade e invenção.
Aliás, estamos em tempo de colheita. E por todo o interior capixaba, o fruto reaparece em frituras douradas, assados rústicos, cremes espessos, sopas quentes, ensopados com frango, carne, peixes ou frutos do mar. É um alimento que não conhece fronteiras culinárias — a depender apenas da criatividade de quem o prepara.
Fruta-pão é pão sem trigo, raiz que vira sustento, corpo de árvore que se transforma em mesa farta. Sua farinha pode substituir o trigo em pães, bolos e massas. Suas sementes, em algumas variedades, lembram castanhas. Suas folhas e raízes, usadas na medicina popular, reforçam seu valor ancestral. É alimento e também saber.
Apesar disso, permanece invisível aos olhos da indústria e do consumo em larga escala. É tratada por muitos como exótica, quando deveria ser símbolo de autonomia alimentar e biodiversidade tropical.
Talvez o futuro da nossa alimentação esteja menos em criar do zero e mais em reconhecer o valor daquilo que já está plantado, sobrevivendo à margem. A fruta-pão é exemplo disso: uma árvore que alimenta com abundância e memória, sem exigir fertilizantes nem importações.
Que esse pão que brota do tronco — silencioso, mas generoso — possa ocupar, enfim, o lugar que merece: no prato, no afeto e na consciência de um país que ainda tem muito a aprender com os alimentos do tempo e da terra.

Patrícia Merlo

Doutora em História Social/UFRJ, Professora da UFES, especialista em História da Alimentação.

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