Publicado em 23 de agosto de 2022 às 10:47
Como um ato de desafio, definição dada pelo presidente da federação nacional, o Campeonato Ucraniano será retomado nesta terça-feira (23). É o Dia da Bandeira Nacional no país. Para os jogadores que estarão presentes na primeira rodada, existe mais do que um orgulho. Há também o receio, assim como a esperança. >
"É um ato de fé, de que o futebol pode ser maior do que a guerra. É uma demonstração de coragem do nosso povo", afirma Andriy Pavelko, que comanda a federação local.>
Ele foi uma das forças que levaram adiante o projeto de retomada do campeonato no meio da invasão do país pelas forças russas. O início da guerra provocou a interrupção da liga em abril deste ano. O título foi declarado vago.>
O sinal verde para o reinício foi dado pelo presidente do país, Volodimir Zelenski. O pensamento inicial seria passar a imagem de que a vida continua dentro da normalidade. Não será fácil.>
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"Eu vejo como uma oportunidade. É a chance de estar na Europa e defender um dos principais times da Ucrânia. Estamos em uma região que não é próxima ao local em que acontecem as batalhas. Mas, havendo qualquer problema, estou a quatro quilômetros da fronteira com a Eslováquia", afirma o atacante brasileiro Marlyson, 24, emprestado pelo Figueirense ao Vorskla Poltava.>
Marlyson atuava pelo Metalist quando estourou a guerra. Saiu do país de trem, em uma viagem de 18 horas, assim que a liga foi interrompida. Agora está de volta por causa da oferta financeira, um contrato que não receberia no Brasil.>
Há mais dois brasileiros no elenco: Gabriel Nazário e Felipe, que também estavam na Ucrânia antes e resolveram retornar também pela vantagem financeira. Uma oportunidade que outros tiveram, mas recusaram.>
"Fiquei sabendo da volta do campeonato. Tenho contrato com o Kolos Kovalivka, que é da Ucrânia, mas na situação que estão vivendo lá não voltaria. A condição atual é bem complicada. A gente acompanha as notícias. Torço muito para que tudo se normalize por lá", diz o atacante brasileiro Renan Oliveira, que deixou o país no início da guerra e hoje está no Zalgiris Vilnius, da Lituânia.>
De acordo com os sites dos 16 times que vão disputar a primeira divisão, serão nove jogadores brasileiros. Com o início do conflito, os atletas estrangeiros receberam uma licença da Fifa para atuar por outras equipes ou ser emprestados, caso de Renan Oliveira.>
Isso não foi bem recebido por todos os clubes. O mais rico do país, o Shakhtar Donetsk, pede 50 milhões de euros (cerca de R$ 259 milhões na cotação atual) à Fifa e à Uefa em reparações pela perda de atletas e levou o caso à Corte Arbitral do Esporte.>
A maioria das partidas será realizada na região da capital Kiev. Todas as equipes se deslocaram para locais próximos à cidade ou vizinhos às fronteiras consideradas mais seguras. Não haverá público nas arquibancadas, e o exército será deslocado para garantir a segurança dos jogadores, afirma a federação.>
"É um sinal para a sociedade de que estamos confiantes e também para aumentar o moral do país. Consideramos um grande passo", afirma Pavelko.>
A liga estará longe de ser o que era antes da guerra, e os próprios dirigentes sabem disso. Times como o Kryvbas Kryyyi Rih encontraram dificuldades para montar um elenco completo e apelaram a jovens da região. Mas essa agremiação, sediada na terra natal de Zelenski, foi a mais ferrenha opositora de ideia de que as partidas do campeonato local fossem realizadas na Polônia. O argumento é que a liga ucraniana tem de acontecer na Ucrânia.>
Entre os participantes quando houve a interrupção pela guerra, Desna Chernihiv e Mariupol estarão fora. Seus estádios e infraestrutura foram bombardeados pela força aérea russa.>
Diferentemente dos russos, os times ucranianos estão liberados para participar das competições europeias. O Shakhtar Donetsk era um dos defensores de jogos na Polônia porque vai mandar seus confrontos na fase classificatória da Champions League em Varsóvia. O Dínamo de Kiev vai usar a cidade de Lodz, no mesmo país.>
A questão que ninguém deseja pensar é o que vai ocorrer caso a situação piore nos arredores de Kiev. Ou que haja ataques aéreos. Continuar o torneio nessa situação seria impensável. Para muitos, recomeçar na situação atual já é um risco considerável.>
"O importante é passar um sinal para as pessoas de que o povo ucraniano está resistindo. O futebol é capaz de mandar essa mensagem", afirma o zagueiro croata Dragan Lovric, do Kryvbas.>
A mensagem que Marlyson teve de passar para sua família foi outra: a de que era uma boa ideia voltar para a Ucrânia. Por enquanto, conseguiu convencê-los.>
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