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Com Lula livre para disputar eleição, centro fica pressionado

Cientistas políticos apontam a urgência para consolidação de um nome para representar uma via alternativa a Bolsonaro e Lula. Caso contrário, disputa deve ficar polarizada, o que é benéfico para o chefe do Planalto e o ex-presidente

Vitória
Publicado em 16/04/2021 às 20h16
Lula e Bolsonaro estão no epicentro do embate político no Brasil
Lula e Bolsonaro estão no epicentro do embate político no Brasil. Crédito: Ricardo Stuckert e Marcelo Camargo

Com a confirmação no Supremo Tribunal Federal (STF) da decisão que anulou as condenações do ex-presidente Lula na Vara de Curitiba, o petista está livre para disputar as eleições. Mesmo não afirmando que é candidato, Lula já tem se movimentado politicamente e poucos apostam que fique de fora da disputa em 2022.

Esse novo cenário impacta não apenas o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que deve tentar a reeleição, mas também as candidaturas que têm se identificado como de centro. Na avaliação de cientistas políticos, Bolsonaro ganha um concorrente com alto recall político, o que favorece a polarização em 2022, enquanto o centro perde espaço e se vê pressionado a consolidar um nome.

A polarização pode ser benéfica para os dois lados, segundo especialistas. Tanto o chefe do Planalto quanto o ex-presidente possuem alta rejeição e, na hipótese de um segundo turno com um candidato de centro, poderiam sair derrotados.

Desde que Lula recuperou os direitos políticos, o tabuleiro eleitoral se movimentou. Na visão do professor da UNB e cientista político Ricardo Caldas, as candidaturas de centro, que ainda se articulavam, perderam espaço. Com isso, Lula acabou minando algumas candidaturas por um lado, mas pressionando para o processo de consolidação de outras.

"A volta de Lula catalisa o processo eleitoral, fazendo com que os agentes saiam, ajam, se mostrem. Em um cenário em que muitos candidatos estavam sendo ventilados, mas nenhum deles posto, enfraquece muito, porque o centro fica com um espaço muito pequeno para lançar candidatos e agora vai ter que enxugar", declarou.

Apesar de Lula ter sinalizado uma abertura de diálogo para partidos de centro, o professor do Insper e cientista político Leandro Consentino acredita que o centro não deve abrir mão de ter uma candidatura própria. Essa situação acaba adicionando um senso de urgência nas articulações, já que é preciso consolidar um nome para a disputa.

“O centro já tinha que estar trabalhando um nome de densidade eleitoral, mas agora isso é essencial se ele quer fazer diferença. O centro precisa dizer a que veio, tanto com a questão programática quanto com um nome. Não adianta se apresentar como uma frente democrática. É preciso apresentar um nome”, declarou.

CANDIDATURA DE CENTRO NÃO É BOA PARA LULA OU BOLSONARO

O cientista político Humberto Dantas acredita que tanto Lula quando Bolsonaro tendem a reforçar uma estratégia de ataque um contra o outro, para reforçar a polarização e enfraquecer uma candidatura de centro. Isso porque, segundo ele, caso uma terceira via consiga ir para o segundo turno, contra um dos dois atores, eles poderiam ser derrotados. 

"Bolsonaro e Lula contam muitos apoiadores, mas também com muita rejeição, de eleitores que não votariam neles de jeito nenhum. Se a terceira via consolida um candidato e ele chega ao segundo turno, ele pode vencer”, destacou.

Na opinião dele, contudo, não há nesse momento nenhum nome natural de centro que conseguiria chegar ao segundo turno. “O desafio do centro é chegar o segundo turno, porque da forma como essa frente se coloca hoje, sem nome definido, sem projeto consolidado, não tem chance. Hoje é impossível dizer que há um nome para ocupar esse espaço, porque não existe”, afirma.

POLARIZAÇÃO

Como consequência da falta de um nome consolidado no Centro, os cientistas políticos apostam na polarização política e ideológica que foi vista em 2018, entre PT e Bolsonaro, mas agora com um novo ator: Lula.

Para Caldas, os dois lados vão apostar nos sentimentos antibolsonarista e antipestista, mas o ex-presidente pode desequilibrar a disputa, principalmente se a situação econômica do país estiver em crise.

"Lula tem uma densidade e recall político muito maior do que Haddad tinha em 2018, isso pode fazer diferença. Além disso, Bolsonaro não será mais um candidato novo, ele terá quatro anos de mandato para defender. A depender da situação econômica do país e do sentimento da população,  a rejeição a Bolsonaro pode ser maior, porque é de agora. É difícil dizer o que vai falar mais alto", opinou. 

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