No último debate do primeiro turno, realizado pela TV Gazeta e encerrado no começo da madrugada desta quarta-feira (30), os candidatos ao governo do Espírito Santo subiram o tom das críticas. A participação de Helder Salomão (PT), Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB) em busca do voto dos eleitores capixabas foi mais de acusações do que de apresentação de propostas.
Mediado pela jornalista Rafaela Marquezini, o debate é mais uma etapa da cobertura da Rede Gazeta nas Eleições 2026, sendo o último realizado por uma emissora de TV neste primeiro turno. Pelas regras, foram realizados cinco blocos de perguntas feitas de candidato para candidato, sendo três de tema livre e dois com perguntas de assuntos determinados e sorteados durante o programa.
No primeiro bloco, o embate começou com Helder perguntando a Ricardo sobre a relação do emedebista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o que teria a dizer aos eleitores do petista. Na abordagem, ele citou um manifesto que o governador assinou contra uma aliança do MDB com Lula.
Ricardo argumentou que a preocupação de um gestor não deve ser com diferenças ideológicas, mas com o interesse da população. "Estou preparado para governar com quem quer que seja que os capixabas e os brasileiros elejam para a Presidência", reforçou.
Em seguida, foi a vez de Pazolini fazer a pergunta. O ex-prefeito de Vitória se dirigiu a Helder, fazendo menção à superlotação do sistema penitenciário do Espírito Santo e questionando o deputado federal sobre seus planos para os presídios capixabas. O candidato do PT ressaltou que tratar de segurança pública não se limita à construção de presídios, mas que é necessário investimento em educação, cultura, lazer, entre outras políticas públicas para prevenção da criminilidade e, assim, tornar desnecessária a abertura de mais vagas em cadeias.
Ele também falou sobre valorização das forças de segurança e o enfrentamento das facções criminosas, sobretudo os financiadores.
No fim do bloco, Ricardo questionou Pazolini sobre o fato de não ter construído nenhuma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) durante sua gestão na Prefeitura de Vitória, embora seja um município com bastante recursos. O candidato republicano ponderou que a saúde na Capital é referência em qualidade e que a obra referida pelo concorrente está em andamento. "A obra está a pleno vapor", frisou.
O ex-prefeito também citou outras medidas adotadas, como zerar a fila de especialidades no município, e criticou o governador pelo fato de ainda haver fila de espera na rede estadual. Ricardo rebateu, argumentando que a população de Vitória, diferentemente de outros municípios, é majoritariamente usuária de planos de saúde e dizendo ainda que o atendimento no SUS na Capital é realizado, em boa medida, pelo Estado, por meio da rede hospitalar.
O segundo bloco do debate foi marcado por críticas à gestão de Vitória, acusações de autoritarismo e propostas para a educação e a economia do Estado. Os temas das perguntas foram definidos previamente: educação, população em situação de rua e reforma tributária.
Helder questionou Pazolini sobre o desempenho da educação de Vitória. Ele citou o orçamento da Capital e perguntou por que a cidade apresenta resultados inferiores aos de outros municípios capixabas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
Pazolini reconheceu que os indicadores ficaram estagnados durante anos, mas afirmou que houve avanços em sua gestão. Ele atribuiu a melhoria dos resultados ao trabalho dos servidores e à ampliação das escolas em tempo integral, que passaram de quatro para 50 durante sua administração na Capital, segundo o candidato.
“Lamentavelmente, no passado, o Ideb ficou congelado em níveis muito baixos, em níveis preocupantes, mas nós vencemos essa barreira”, afirmou.
Na réplica, Helder criticou a explicação do ex-prefeito. “Ele é aquele que joga a culpa nos outros quando não tem resposta para dar”, declarou.
O petista também questionou a gestão municipal e citou insatisfação de servidores com medidas adotadas nas áreas de educação, saúde e previdência.
Pazolini respondeu que o debate tratava do futuro do Espírito Santo e apresentou propostas para ampliar o acesso à educação infantil. Ele afirmou que apenas 35% das crianças de zero a três anos têm acesso a creches no Estado e defendeu parcerias com os municípios para ampliar as vagas.
No segundo confronto, Pazolini perguntou quais medidas Ricardo Ferraço pretende adotar para reduzir a população em situação de rua e ampliar o acolhimento dessas pessoas.
Ricardo afirmou que o Estado mantém parcerias com prefeituras da Grande Vitória, mas disse que não conseguiu estabelecer a mesma cooperação com a Capital durante a gestão de Pazolini.
“Não conseguimos fazer essa parceria aqui em Vitória por causa do autoritarismo do prefeito”, declarou o governador, relembrando um episódio ocorrido em 2022, em que Pazolini disputou um microfone com a então vice-prefeita de Vitória, Capitã Estéfane.
Pazolini rebateu as acusações e afirmou que os episódios citados por Ferraço, foram investigados e arquivados. “O candidato falta com a verdade. Os fatos foram apurados, investigados pelos órgãos de controle e todos arquivados”, afirmou. O ex-prefeito também acusou o governador de levar notícias falsas ao debate.
Pazolini defendeu a política de acolhimento de Vitória e afirmou que a Capital tem um abrigo com funcionamento 24 horas, atendimento médico e profissional e ações para ajudar as pessoas a reconstruir vínculos familiares.
Na tréplica, o governador voltou a criticar a postura do adversário. “É assim que ele trata as pessoas que discordam dele”, afirmou Ferraço, que também acusou Pazolini de ter dificuldades de relacionamento com outros prefeitos.
O último tema do bloco foi a reforma tributária. Ferraço perguntou a Helder quais são as propostas do petista para preparar o Espírito Santo para as mudanças no sistema de impostos.
Helder defendeu a criação de um comitê gestor com a participação dos municípios, do governo federal e de entidades capixabas para discutir os impactos da reforma.
O candidato do PT também citou o turismo, a atração de empresas de tecnologia e o fortalecimento de atividades econômicas no interior como medidas para gerar empregos e aumentar a arrecadação.
“A minha proposta, que está no plano de governo, é termos um comitê gestor para discutir com os municípios, com o governo federal e com as entidades capixabas os impactos e as alternativas”, afirmou.
Na resposta, Ferraço destacou a atração de empresas e os investimentos em infraestrutura como caminhos para manter o crescimento econômico do Estado.
“Nós vamos acelerar a atração de empresas para o Espírito Santo, como tem acontecido, e atrair empregos de qualidade”, declarou.
O governador citou empresas e investimentos nos setores de comércio eletrônico, automotivo e siderúrgico e afirmou que o Estado está preparado para receber novos negócios.
Na tréplica, Helder defendeu a ampliação da qualificação profissional e o apoio a pequenos empreendedores. Ele também criticou a relação de Pazolini com o governo estadual durante passagem pela Prefeitura de Vitória.
“Eu não quero ser um governador que só repassa recursos para os municípios. Eu quero ajudar a planejar o desenvolvimento e interiorizar o desenvolvimento capixaba”, afirmou.
O candidato também defendeu o fortalecimento do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes) e do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) para financiar empresas e apoiar a agricultura familiar.
O terceiro bloco voltou a ser de perguntas livres e Ricardo retomou o tema da educação numa pergunta direcionada a Pazolini, reforçando o fato de Vitória ser uma cidade com orçamento elevado, mas com resultados piores do que a maioria dos municípios capixabas.
O ex-prefeito voltou a atribuir a situação a gestões anteriores e afirmou que a reformulação por que passou a educação na Capital impulsionou a melhoria de indicadores. "Já avançamos muito. Quando assumimos, apenas 28% das crianças eram alfabetizadas na idade certa. Hoje são 82%."
Ricardo criticou a justificativa de Pazolini, ao atribuir o desempenho ruim aos antecessores e aproveitou para destacar iniciativas do governo em Educação, como projetos para a construção de creches e a ampliação do tempo integral.
Na sequência, o candidato republicano indagou Helder sobre propostas para o enfrentamento à violência contra a mulher, mencionando que o Espírito Santo é o pior da Região Sudeste no indicador de feminicídios.
O petista disse que Pazolini "não tem moral" para falar do tema. Nesse momento, o petista também citou o episódio envolvendo o adversário e a ex-vice-prefeita Capitã Estéfane. O republicano, porém, disse que investigações oficiais comprovam que não houve violência de sua parte.
Então, Helder citou propostas na área, como a abertura de crédito para vítimas de violência poderem empreender. "Estudos mostram que, quanto mais dependência financeira tiver, mais suscetível à violência doméstica estará a mulher", ponderou, acrescentando que a candidata a vice, professora Valdirene (PT), será responsável pelas articulações de projetos na área, caso a chapa seja eleita para o governo do Estado.
O candidato do PT fez a última pergunta do bloco para Ricardo, relembrando que o emedebista foi relator da reforma trabalhista na época em que era senador. Helder mencionou a aprovação de uma norma que obrigava mulheres gestantes a trabalhar em locais insalubres.
Ricardo afirmou que Helder estava mentindo porque a proposta partiu da Câmara Federal, citando que a autoria foi do deputado Rogério Marinho que, hoje, está na coordenação da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, e que, quando chegou ao Senado, pediu o veto da matéria.
Houve mais uma ponderação de Helder, reafirmando o posicionamento de Ricardo na reforma trabalhista. O emedebista frisou que ele e o adversário têm diferenças objetivas e que seu foco é planejamento para seguir com as transformações que a atual gestão implementou no Estado.
No quarto bloco do debate, os candidatos ao governo do Espírito Santo discutiram a duplicação das BRs 262 e 101, o combate ao feminicídio e o enfrentamento às facções criminosas.
Pazolini questionou Helder sobre a duplicação das rodovias federais. O petista afirmou que o trecho da BR 262 entre Viana e Conceição do Castelo está em fase de licitação, com obras previstas para começar no primeiro semestre de 2027. Também destacou a retomada das intervenções na BR 101 pelo governo federal.
Pazolini cobrou avanços, principalmente no trecho Norte da BR 101, e classificou a situação da BR 262 como uma “tragédia anunciada”. Helder rebateu, afirmando que o governo federal avançou nas obras enquanto a gestão de Pazolini em Vitória “perdeu tração”.
Questionado por Helder sobre o combate ao feminicídio, Ferraço citou programas de proteção às mulheres, o monitoramento de cerca de 300 agressores e a proposta de criar auxílio financeiro para vítimas de violência doméstica.
Helder defendeu um pacto estadual de combate à violência contra a mulher e propôs o programa Crédito Mulher. Ferraço rebateu dizendo que o enfrentamento ao feminicídio não será feito “por bravata”, mas com ações concretas.
Ao responder a Ferraço sobre o combate às facções, Pazolini afirmou que grupos criminosos dominam áreas de maior vulnerabilidade social e criticou a falta de policiais. Segundo ele, há mais de 2 mil cargos vagos na Polícia Militar.
Ferraço contestou as declarações, citou contratações e concursos realizados pela gestão estadual nas forças de segurança e acusou o adversário de “estelionato eleitoral” na ampliação da Guarda Municipal de Vitória. Também chamou Pazolini de “caroneiro” do trabalho das polícias estaduais.
Pazolini rebateu e voltou a apontar o déficit de profissionais como um dos fatores que prejudicam a segurança pública.
Os escândalos financeiros da Apex, no Espírito Santo, e Master, em nível nacional, deram o tom ao quinto e último bloco do debate. Pazolini introduziu o assunto, fazendo menção à crise no Estado e questionou o que Helder tem de proposta para controle interno da gestão, caso seja eleito.
O candidato do PT ressaltou que tem tolerância zero com a corrupção e observou que o caso da Apex pode não ter dinheiro público, mas tem tráfico de influência e conflito de interesses. Embora o nome de Ricardo não tenha sido citado, é de conhecimento público que seu filho, Pedro Chieppe, tem participação na empresa. O governador já defendeu investigação rigorosa para o episódio.
Helder aproveitou a pergunta para resgatar o caso Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que repassou dinheiro para Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência que é apoiado declaradamente por Pazolini. O petista também citou outras acusações contra o presidenciável, como a rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e a compra de uma mansão com dinheiro em espécie.
O ex-prefeito, porém, não respondeu aos questionamentos de sua relação com Flávio. Também não retrucou outra observação de Helder sobre a crítica do bolsonarista à Lei Maria da Penha, de proteção às mulheres vítimas de violência, quando o senador visitou o Espírito Santo. Pazolini apenas ressaltou que também não tolera a corrupção e que está preocupado com aqueles que perderam seus investimentos na Apex.
Na rodada seguinte, Ricardo ressaltou o desempenho econômico do Espírito Santo e de municípios capixabas em contraponto a Vitória, que teve queda em seus indicadores. Direcionando o questionamento a Pazolini, o emedebista quis saber do ex-prefeito da Capital se seria esse mesmo modelo de retração que pretende adotar no Estado.
O candidato republicano refutou a alegação e pontuou que Vitória é destaque em algumas áreas, sendo referência, inclusive, em publicações nacionais, ao passo que o Estado só teria espaço em casos de tragédia, como enchentes e violência. Pazolini também afirmou que o atual governo não contemplou todas as regiões nas políticas de desenvolvimento.
Ricardo também rebateu a acusação e reforçou que o governo tem investido no desenvolvimento regional, citando polos logísticos no Sul e no Norte capixabas.
Para encerrar o bloco de perguntas, Helder questionou Ricardo sobre o que dizer às famílias de um assentamento em Linhares que foram retiradas da área em que estavam, mesmo após um acordo firmado pelo ex-governador Renato Casagrande (PSB), a quem o emedebista sucedeu. Ele afirmou que o terreno era do Estado e será usado para um investimento industrial, mas que as famílias serão acomodadas. Ricardo justificou que, para realizar assentamento, é preciso planejamento. O emedebista aproveitou o momento para também falar da atração de empresas para o Estado, como a GWM, argumentando que o governo garante previsibilidade e segurança aos investidores.
Nas considerações finais, Ricardo voltou a destacar ações do governo do Estado e sua trajetória pessoal. O candidato se apresentou como a pessoa ideal para, segundo ele, seguir cuidando das famílias capixabas e garantir que o Estado continue se desenvolvendo.
Em seguida, foi a vez de Pazolini, ressaltando que o debate é um momento único da democracia. Ele relembrou sua gestão em Vitória e disse querer uma oportunidade para mudar a vida de quem mais precisa.
Por fim, Helder agradeceu aos adversários e afirmou que o pleito continua em aberto. O petista disse ainda haver espaço para conquistar o voto dos eleitores indecisos e afirmou esperar chegar ao segundo turno das eleições.
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