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Vitor Vogas

Fogo cruzado entre Helder e Ricardo é um perigo para os dois

Helder não pode exagerar na artilharia contra Ricardo, pois isso indiretamente ajuda Pazolini nos dois turnos. Já Ricardo não pode exagerar nos contra-ataques a Helder e ao PT, pois isso poderá afugentar eleitores dos quais ele muito necessitará

Publicado em 29 de Setembro de 2026 às 05:05

Públicado em 

29 set 2026 às 05:05
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Helder Salomão e Ricardo Ferraço durante debate A Gazeta/CBN Vitória
Helder Salomão e Ricardo Ferraço durante debate A Gazeta/CBN Vitória Fernando Madeira

Por mais que evite, desde que se lançou pré-candidato a governador, dar a si mesmo uma definição ideológica, Ricardo Ferraço (MDB) pode tranquilamente, por sua própria biografia, ser considerado um político de direita. Não tem nada de esquerda, muito menos que o vincule ao PT. Ao contrário, alguns militantes mais apaixonados do PT poderiam até considerá-lo um antipetista.

 

Como governador, preferiu não ter o PT em seu governo. Como candidato a governador, preferiu não ter o PT em sua coligação.

 

No começo deste ano, ainda como presidente do MDB no Espírito Santo, assinou uma carta, com outros presidentes estaduais, pedindo à direção nacional para liberar os diretórios nos estados para cada um poder decidir sua posição na eleição presidencial. Foi um manifesto contra a verticalização. Nacionalmente, o MDB acabou se mantendo neutro, não entrando na coligação de Lula e de nenhum outro candidato à Presidência – o que facilitou as coisas para Ricardo.

 

Pouco antes de ele tomar posse no lugar de Casagrande, no dia 2 de abril, a Executiva Estadual do PT, que estivera nos primeiros escalões do governo do PSB, decidiu não participar do governo de Ricardo. Assim, também facilitou a vida do governador entrante, que tampouco fazia questão de ter o PT em seu governo. Resolveu-se um problema para as duas partes.

 

No fim de maio, quando o presidente Lula esteve em solo capixaba – para um evento do Ministério da Cultura em Aracruz –, Ricardo, após certa relutância, até foi ao encontro do presidente. Limitou-se, porém, a recebê-lo protocolarmente no Aeroporto de Vitória. E nem sequer houve registro fotográfico do breve e frio encontro.

O fogo cruzado com Helder

Agora, durante a campanha a governador, o genuíno candidato do PT, Helder Salomão (atrás de Ricardo, segundo a Quaest, entre os lulistas e a esquerda não lulista) não se tem feito de rogado. Criticando Ricardo em sabatinas, debates e na propaganda eleitoral, o deputado federal tem apresentado o emedebista como uma espécie de “inimigo dos trabalhadores”.

 

No debate A Gazeta/CBN Vitória, por exemplo, no último dia 22, Helder lembrou, logo no primeiro embate entre ambos, que Ricardo foi o relator da reforma trabalhista do governo Temer (MDB) no Senado, em 2017, e o acusou de ter permitido que trabalhadoras lactantes amamentassem em ambientes insalubres, ao rejeitar emenda ao projeto. 

 

Ricardo não mordeu a isca: na resposta, passou longe de responder sobre a reforma trabalhista. Não pode desagradar aos eleitores de esquerda.

 

Ao mesmo tempo, Helder tem acusado Ricardo de “esconder” não só Lula (como no episódio da visita em maio) como os feitos do governo do PT em benefício do Espírito Santo, desde a (realmente importantíssima) antecipação de royalties de petróleo no primeiro ano do primeiro governo Lula, em 2003, para que o Governo do Estado pudesse honrar a folha de pagamento atrasada.

 

Helder também tem dito que, se Ricardo e Lula forem reeleitos, o primeiro vai isolar o Espírito Santo, com sua postura refratária ao PT. Ricardo responde que não fará oposição ao presidente, quem quer que seja eleito.

 

Em debate anterior, promovido por outra emissora, Helder foi um pouco além: sugeriu envolvimento de Ricardo na crise financeira da Apex Partners, chamando o caso de “Master Capixaba”. Na resposta, o governador também pode ter passado um pouco do ponto, para alguém que precisa dos votos da esquerda: disse a Helder que o governo do partido dele é que entende do assunto, pois “está todo enrolado no caso Master”...

 

E é nessa linha muito tênue que Ricardo e Helder agora precisam se equilibrar...

 

Helder não pode exagerar na artilharia contra Ricardo, pois isso, em última análise, pode beneficiar indiretamente Pazolini não só no 1º como até no 2º turno (afinal, o print e a imagem são eternos...).

 

E, no 2º turno, do ponto de vista do PT, acredito que a reeleição de Ricardo soe “menos ruim” que eventual chegada do bolsonarismo ao Palácio Anchieta, na esteira de Pazolini.

 

Por sua vez, Ricardo não pode exagerar nos contra-ataques a Helder e ao PT, pois isso poderá afugentar eleitores dos quais ele muito necessita agora no 1º turno e necessitará mais ainda no 2º. 

O que os dois lados farão? 

Em caso de confirmação do 2º turno entre Ricardo e Pazolini, será muito interessante observar os movimentos a serem realizados logo nos primeiros dias. A Quest indica que, a priori, a maioria dos eleitores de Lula e de Helder tendem a migrar para Ricardo... mas isso não é ciência exata.

 

Também será interessante observar se Helder e a direção estadual do PT farão anúncio oficial de “apoio crítico” a Ricardo, por rejeição a Pazolini, ou se apenas “liberarão” a militância.

 

Mais importante ainda: será preciso observar se Ricardo aceitará ou mesmo se buscará algum tipo de apoio formal do PT, ou se apenas acenará para o eleitorado de esquerda, esperando que este se desloque naturalmente para o seu lado.

 

É delicado para ele tomar qualquer iniciativa nesse sentido, pois aí poderá desagradar a seus eleitores de direita... Mas, em sua sabatina para A Gazeta e CBN Vitória, o governador entreabriu uma porta para receber e "agradecer" um possível apoio do PT.

 

Por fim, será muito importante o peso que a disputa nacional poderá jogar na estadual, em caso de confirmação também de um 2º turno entre Lula e Flávio. Nesse caso, Ricardo não será o candidato de Lula (nem de nenhum candidato à Presidência), enquanto Pazolini será oficialmente o de Flávio.

 

A ver também, é claro, se Pazolini assumirá essa condição, passando a usar de verdade a carta Flávio e sua aliança com o PL na campanha.

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Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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