A última pesquisa da Quaest para a Rede Gazeta sobre a corrida ao Palácio Anchieta, publicada na última sexta-feira (25), põe em
evidência o que podemos chamar de um paradoxo para Ricardo Ferraço (MDB): o
atual governador não quer saber de proximidade com Lula (PT), mas ganha entre
eleitores de esquerda... e precisa dos votos deles para derrotar Lorenzo
Pazolini (Rep) num bem provável 2º turno.
Seja por rejeição a Pazolini, apoiado pelo PL e por Flávio
Bolsonaro (e o consequente “voto útil” da esquerda em Ricardo), seja pelo apoio
de Renato Casagrande (líder de centro-esquerda), seja simplesmente por estar convencendo
melhor esse público, o fato é que Ricardo está dominando o páreo no hemisfério
esquerdo do eleitorado capixaba.
Na simulação de 2º turno entre os dois, testada novamente
pela Quaest, o atual governador aumentou sua vantagem entre os entrevistados
que se proclamam de “esquerda não lulista” e, destacadamente, entre eleitores
lulistas. Nos dois segmentos, Ricardo derrota Pazolini com grande folga.
Entre os que se declaram de esquerda não lulista, o
governador ampliou sua vantagem um pouquinho, de 43 para 45 pontos. Hoje, nesse
segmento (eleitores de centro-esquerda e esquerda não petista), ele derrotaria
Pazolini por 64% a 19%. Considerando as cinco categorias de “identificação
política”, é a maior diferença registrada entre os dois candidatos.
Já entre os lulistas, Ricardo ampliou substancialmente a
distância. Sua vantagem sobre Pazolini nesse segmento, que era de 31 pontos em
agosto, agora é de 41 pontos. Hoje, entre lulistas, o governador venceria o
ex-prefeito por 62 % a 21%.
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Enquanto isso, Pazolini prevalece no hemisfério direito do
eleitorado, mantendo sua ampla margem entre bolsonaristas e ganhando enorme
terreno na direita não bolsonarista.
Pazolini também diminuiu muito a diferença entre eleitores
que se declaram independentes. Nesse grupo, Ricardo ainda lidera, mas sua
vantagem caiu de 22 pontos para 9.
Tudo isso pode ser verificado no gráfico a seguir:
Pazolini vence entre
eleitores de Flávio; Ricardo, entre os de Lula
O cruzamento de dados da Quaest também revela que Pazolini é
o candidato a governador preferido pela maioria dos eleitores de Flávio
Bolsonaro, enquanto Ricardo tem a preferência dos eleitores de Lula no Espírito
Santo.
Na intenção estimulada de 1º turno, entre os que pretendem
votar em Flávio, Pazolini tinha a preferência de 46% em agosto, contra 27% de
Ricardo. Agora, tem 51% da preferência, contra 29% de Ricardo: vantagem de 22
pontos.
Entre os que tencionam votar em Lula, Ricardo segue em
primeiro, com 40% da preferência, à frente até de Helder, que agora tem 30%.
Pazolini fica bem atrás, com 15%. A vantagem de Ricardo sobre o ex-prefeito
agora é de 25 pontos.
Na verdade, o que a pesquisa Quaest demonstra sobre Ricardo
é, antes de tudo, que ele tem uma votação muito pulverizada e equilibrada entre
as cinco categorias de eleitores, segundo o critério de “identificação política”:
lulista, esquerda não lulista, independente, direita não bolsonarista e
bolsonarista.
Na intenção estimulada de voto no 1º turno, observe como os
índices de Ricardo variam muito pouco, mantendo-se mais ou menos dentro de um
mesmo patamar através das cinco categorias.
. Lulistas: 35%
. Esquerda não lulista: 38%
. Independentes: 37%
. Direita não bolsonarista: 26%
. Bolsonaristas: 29%
Assim, do menor
resultado (26%) para o maior (38%), a amplitude de Ricardo é de apenas 12
pontos.
Já no caso de Pazolini, observe como essa amplitude é bem
maior, ou seja, os resultados do ex-prefeito diferem sensivelmente dependendo
do perfil político-ideológico do eleitor.
. Lulistas: 15%
. Esquerda não lulista:
18%
. Independentes: 22%
. Direita não
bolsonarista: 53%
. Bolsonaristas: 49%
Entre lulistas, com 15%, o candidato do Republicanos atinge seu pior resultado: 15%. Entre eleitores de direita não bolsonarista, seu pico: 53%. A amplitude é de 38 pontos, praticamente o triplo da amplitude de Ricardo.
Conclusões
Desse conjunto de dados, podemos tirar duas conclusões. A
primeira é que Ricardo está atraindo mais ou menos na mesma medida eleitores
das cinco faixas ideológicas. Não agrada especialmente a eleitores de nenhuma
dessas faixas, mas tampouco desagrada particularmente a nenhum dos cinco grupos.
Isso mostra que, aparentemente, faz bem o governador em não
querer “nacionalizar” o debate local e em não permitir que a eleição estadual seja
engolfada pela polarização da disputa presidencial.
Desse ponto de vista, faz total sentido não querer tomar
partido na eleição presidencial – em que pesem as inúmeras (e infrutíferas)
tentativas da imprensa capixaba em lhe arrancar uma resposta objetiva sobre o
tema.
A segunda e mais importante conclusão é que, para chegar à
frente de Pazolini no 1º turno e derrotá-lo no 2º turno, Ricardo precisa
contar, imprescindivelmente, com os votos do centro para a esquerda. Não há possibilidade
de vitória para ele sem tais votos, já que a disputa está muito equilibrada, e
Pazolini hoje detém confortável dianteira do centro para a extrema direita.
Isso remete Ricardo (e nós com ele) àquela situação paradoxal
destacada no início desta análise.
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