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Vitor Vogas

O paradoxo de Ricardo: não quer saber de Lula, mas vence na esquerda... e precisa dela

Apesar de tudo, o fato é que Ricardo está dominando o páreo no hemisfério esquerdo do eleitorado capixaba, enquanto Pazolini domina o direito

Publicado em 29 de Setembro de 2026 às 05:00

Públicado em 

29 set 2026 às 05:00
Vitor Vogas

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Vitor Vogas Vitor Vogas
De um lado, Ricardo Ferraço; do outro, Lula com Helder
De um lado, Ricardo Ferraço; do outro, Lula com Helder Fotomontagem (Reprodução do Facebook e assessoria de Helder Salomão)

A última pesquisa da Quaest para a Rede Gazeta sobre a corrida ao Palácio Anchieta, publicada na última sexta-feira (25), põe em evidência o que podemos chamar de um paradoxo para Ricardo Ferraço (MDB): o atual governador não quer saber de proximidade com Lula (PT), mas ganha entre eleitores de esquerda... e precisa dos votos deles para derrotar Lorenzo Pazolini (Rep) num bem provável 2º turno.


Seja por rejeição a Pazolini, apoiado pelo PL e por Flávio Bolsonaro (e o consequente “voto útil” da esquerda em Ricardo), seja pelo apoio de Renato Casagrande (líder de centro-esquerda), seja simplesmente por estar convencendo melhor esse público, o fato é que Ricardo está dominando o páreo no hemisfério esquerdo do eleitorado capixaba.


Na simulação de 2º turno entre os dois, testada novamente pela Quaest, o atual governador aumentou sua vantagem entre os entrevistados que se proclamam de “esquerda não lulista” e, destacadamente, entre eleitores lulistas. Nos dois segmentos, Ricardo derrota Pazolini com grande folga.


Entre os que se declaram de esquerda não lulista, o governador ampliou sua vantagem um pouquinho, de 43 para 45 pontos. Hoje, nesse segmento (eleitores de centro-esquerda e esquerda não petista), ele derrotaria Pazolini por 64% a 19%. Considerando as cinco categorias de “identificação política”, é a maior diferença registrada entre os dois candidatos.


Já entre os lulistas, Ricardo ampliou substancialmente a distância. Sua vantagem sobre Pazolini nesse segmento, que era de 31 pontos em agosto, agora é de 41 pontos. Hoje, entre lulistas, o governador venceria o ex-prefeito por 62 % a 21%.


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Enquanto isso, Pazolini prevalece no hemisfério direito do eleitorado, mantendo sua ampla margem entre bolsonaristas e ganhando enorme terreno na direita não bolsonarista.


Pazolini também diminuiu muito a diferença entre eleitores que se declaram independentes. Nesse grupo, Ricardo ainda lidera, mas sua vantagem caiu de 22 pontos para 9.


Tudo isso pode ser verificado no gráfico a seguir: 

Pazolini vence entre eleitores de Flávio; Ricardo, entre os de Lula

O cruzamento de dados da Quaest também revela que Pazolini é o candidato a governador preferido pela maioria dos eleitores de Flávio Bolsonaro, enquanto Ricardo tem a preferência dos eleitores de Lula no Espírito Santo.


Na intenção estimulada de 1º turno, entre os que pretendem votar em Flávio, Pazolini tinha a preferência de 46% em agosto, contra 27% de Ricardo. Agora, tem 51% da preferência, contra 29% de Ricardo: vantagem de 22 pontos.


Entre os que tencionam votar em Lula, Ricardo segue em primeiro, com 40% da preferência, à frente até de Helder, que agora tem 30%. Pazolini fica bem atrás, com 15%. A vantagem de Ricardo sobre o ex-prefeito agora é de 25 pontos. 

Ricardo: votação muito equilibrada nas cinco categorias

Na verdade, o que a pesquisa Quaest demonstra sobre Ricardo é, antes de tudo, que ele tem uma votação muito pulverizada e equilibrada entre as cinco categorias de eleitores, segundo o critério de “identificação política”: lulista, esquerda não lulista, independente, direita não bolsonarista e bolsonarista.


Na intenção estimulada de voto no 1º turno, observe como os índices de Ricardo variam muito pouco, mantendo-se mais ou menos dentro de um mesmo patamar através das cinco categorias.

. Lulistas: 35%

. Esquerda não lulista: 38%

. Independentes: 37%

. Direita não bolsonarista: 26%

. Bolsonaristas: 29%


Assim, do menor resultado (26%) para o maior (38%), a amplitude de Ricardo é de apenas 12 pontos.


Já no caso de Pazolini, observe como essa amplitude é bem maior, ou seja, os resultados do ex-prefeito diferem sensivelmente dependendo do perfil político-ideológico do eleitor.


. Lulistas:
15%

. Esquerda não lulista: 18%

. Independentes: 22%

. Direita não bolsonarista: 53%

. Bolsonaristas: 49%

Entre lulistas, com 15%, o candidato do Republicanos atinge seu pior resultado: 15%. Entre eleitores de direita não bolsonarista, seu pico: 53%. A amplitude é de 38 pontos, praticamente o triplo da amplitude de Ricardo. 

Conclusões

Desse conjunto de dados, podemos tirar duas conclusões. A primeira é que Ricardo está atraindo mais ou menos na mesma medida eleitores das cinco faixas ideológicas. Não agrada especialmente a eleitores de nenhuma dessas faixas, mas tampouco desagrada particularmente a nenhum dos cinco grupos.


Isso mostra que, aparentemente, faz bem o governador em não querer “nacionalizar” o debate local e em não permitir que a eleição estadual seja engolfada pela polarização da disputa presidencial.


Desse ponto de vista, faz total sentido não querer tomar partido na eleição presidencial – em que pesem as inúmeras (e infrutíferas) tentativas da imprensa capixaba em lhe arrancar uma resposta objetiva sobre o tema.


A segunda e mais importante conclusão é que, para chegar à frente de Pazolini no 1º turno e derrotá-lo no 2º turno, Ricardo precisa contar, imprescindivelmente, com os votos do centro para a esquerda. Não há possibilidade de vitória para ele sem tais votos, já que a disputa está muito equilibrada, e Pazolini hoje detém confortável dianteira do centro para a extrema direita.


Isso remete Ricardo (e nós com ele) àquela situação paradoxal destacada no início desta análise.

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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