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Publicado em 11 de agosto de 2022 às 18:20
Estudantes, professores, advogados, políticos, líderes sociais, servidores públicos e outros representantes de diferentes setores da sociedade civil se reuniram em ato em defesa da democracia, na tarde desta quinta-feira (11), na área em frente à escadaria do Teatro da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), em Vitória. Além da leitura da carta em favor do Estado Democrático de Direito, houve discursos e pedido de respeito ao resultado das eleições de outubro.>
A "Carta às Brasileiras e aos Brasileiros", elaborada por juristas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), também foi lida na manhã de quinta-feira (11) em ato realizado no Largo São Francisco, em São Paulo, e em outras cidades do país. Como havia ocorrido na capital paulista, apesar do caráter suprapartidário do evento, também houve gritos de “Fora, Bolsonaro” entre os presentes na Ufes.>
O ato na Ufes teve início às 17 horas com discursos de representantes de entidades presentes, como a Associação Juízes para a Democracia (AJD), e de organizadores do evento, como Transparência Capixaba, Associação dos Docentes da Ufes (Adufes), Sindicato dos Técnicos da Ufes (Sintufes) e Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Ufes.>
Alguns políticos também estiveram presentes no ato, como o deputado federal Helder Salomão (PT); o senador Fabiano Contarato (PT); as vereadoras Camila Valadão (Psol) e Karla Coser (PT), ambas de Vitória; capitão Vinícius Sousa, candidato ao governo pelo PSTU; e Gilberto Campos, candidato ao Senado pelo Psol.>
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Primeiro a discursar, Luiz Eduardo Fontenele, membro da AJD, leu uma carta da instituição defendendo o processo eleitoral brasileiro e afirmou que os juízes estão alertas e atentos a qualquer tentativa de golpe.>
"A sociedade brasileira não aceita a condição de refém, de chantagem. Estamos discutindo a sobrevivência da democracia, quando deveríamos estar discutindo o aperfeiçoamento da democracia, em questões como segurança, alimentação e meio ambiente. Por isso, manifestamos repúdio aos ataques que o sistema eleitoral sofre de maneira reiterada", destacou Fontenele.>
A seguir, o pró-reitor de extensão da Ufes, Renato Neto, leu carta de posicionamento da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), em defesa da democracia.>
"A educação faz parte da formação do processo democrático. As instituições públicas de educação brasileiras, com seu trabalho de pesquisa ensino e extensão, formam não apenas profissionais, mas cidadãos e cidadãs", salientou Renato, que representou o reitor da universidade, Paulo Vargas, no evento.>
Representante do DCE da Ufes, Rafael Reis relembrou, em seu discurso, que, em 11 de agosto, também é comemorado o Dia do Estudante e marca a data de fundação da União Nacional dos Estudantes (UNE). "Sem os centros acadêmicos e sem os diretórios acadêmicos não existe democracia universitária", lembrou Rafael, fazendo críticas ao governo de Jair Bolsonaro.>
O tom de críticas a Bolsonaro também foi seguido por Daniel Pompermayer, ao discursar em nome do Sintufes. "Somos nós, trabalhadores, unidos nas ruas e na urna, que vamos impedir Bolsonaro de retroceder a democracia no nosso país", apontou.>
Gritos de "Fora, Bolsonaro" também foram puxados por Junia Zaidan, presidenta da Adufes, depois de destacar a importância da defesa da democracia para o país.>
Já Rodrigo Rossini, da ONG Transparência Capixaba, lembrou do caráter suprapartidário do evento e afirmou que a carta em defesa da democracia não poderia ter sua importância minimizada. E acrescentou que a liberdade e a igualdade não podem ser conceitos distorcidos para enganar o povo. "No autoritarismo encontramos o que há de pior na humanidade", afirmou.>
Por volta das 17h40, a carta começou a ser lida, em forma de jogral, com cada um dos representantes, que haviam discursado antes, sendo responsável por ler um parágrafo do texto. A parte final do documento, porém, foi lida em conjunto por todos os presentes em frente ao Teatro da Ufes. No fim, houve gritos de "Viva a Democracia" e "Viva o povo brasileiro", além de novas manifestações de "Fora, Bolsonaro".>
A carta em defesa do Estado Democrático de Direito foi lançada depois de ataques do presidente Jair Bolsonaro (PL) às urnas eletrônicas e ao sistema eleitoral brasileiro. O documento não cita o nome do presidente, que optou por não figurar entre as cerca de 960 mil pessoas que já assinaram o manifesto.>
Ato em defesa da democracia na Ufes
Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado democrático de Direito
"Em agosto de 1977, em meio às comemorações do sesquicentenário de fundação dos Cursos Jurídicos no País, o professor Goffredo da Silva Telles Junior, mestre de todos nós, no território livre do Largo de São Francisco, leu a Carta aos Brasileiros, na qual denunciava a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos. Conclamava também o restabelecimento do estado de direito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.
A semente plantada rendeu frutos. O Brasil superou a ditadura militar. A Assembleia Nacional Constituinte resgatou a legitimidade de nossas instituições, restabelecendo o estado democrático de direito com a prevalência do respeito aos direitos fundamentais.
Temos os poderes da República, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, todos independentes, autônomos e com o compromisso de respeitar e zelar pela observância do pacto maior, a Constituição Federal.
Sob o manto da Constituição Federal de 1988, prestes a completar seu 34º aniversário, passamos por eleições livres e periódicas, nas quais o debate político sobre os projetos para país sempre foi democrático, cabendo a decisão final à soberania popular.
A lição de Goffredo está estampada em nossa Constituição “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
Nossas eleições com o processo eletrônico de apuração têm servido de exemplo no mundo. Tivemos várias alternâncias de poder com respeito aos resultados das urnas e transição republicana de governo. As urnas eletrônicas revelaram-se seguras e confiáveis, assim como a Justiça Eleitoral.
Nossa democracia cresceu e amadureceu, mas muito ainda há de ser feito. Vivemos em país de profundas desigualdades sociais, com carências em serviços públicos essenciais, como saúde, educação, habitação e segurança pública. Temos muito a caminhar no desenvolvimento das nossas potencialidades econômicas de forma sustentável.
O Estado apresenta-se ineficiente diante dos seus inúmeros desafios. Pleitos por maior respeito e igualdade de condições em matéria de raça, gênero e orientação sexual ainda estão longe de ser atendidos com a devida plenitude.
Nos próximos dias, em meio a estes desafios, teremos o início da campanha eleitoral para a renovação dos mandatos dos legislativos e executivos estaduais e federais. Neste momento, deveríamos ter o ápice da democracia com a disputa entre os vários projetos políticos visando convencer o eleitorado da melhor proposta para os rumos do país nos próximos anos.
Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições.
Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o estado democrático de direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional.
Assistimos recentemente a desvarios autoritários que puseram em risco a secular democracia norte-americana. Lá as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não terão.
Nossa consciência cívica é muito maior do que imaginam os adversários da democracia. Sabemos deixar ao lado divergências menores em prol de algo muito maior, a defesa da ordem democrática.
Imbuídos do espírito cívico que lastreou a Carta aos Brasileiros de 1977 e reunidos no mesmo território livre do Largo de São Francisco, independentemente da preferência eleitoral ou partidária de cada um, clamamos as brasileiras e brasileiros a ficarem alertas na defesa da democracia e do respeito ao resultado das eleições.
No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições.
Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona:
Estado Democrático de Direito Sempre!!!!"
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