A senadora Rose de Freitas (MDB), um dos alvos da Operação Corsários, deflagrada na última quarta-feira (12) pela Polícia Federal para investigar um esquema de corrupção na Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), tem uma relação de longa data com a estatal federal.
Com passagem pela diretoria de Gestão Portuária da companhia em 1999, período em que estava sem mandato, Rose é conhecida no meio político como alguém com influência na empresa pública. A ela foi atribuída, por muitos anos, a cota de indicações para cargos comissionados na Codesa, cota que ficou mais robusta após a parlamentar ser eleita em 2014 para o Senado.
Mas com a troca da presidência da estatal em 2019, assumida por Júlio Castiglione, Rose não só perdeu influência como passou a ser alvo de uma investigação que aponta a atuação de uma organização criminosa na Codesa entre 2015 e 2018. A atual gestão foi responsável por uma auditoria em contratos que, segundo a Polícia Federal, mostra que pelo menos R$ 9 milhões foram desviados.
As investigações estão em andamento e sob sigilo. Segundo a Polícia Federal, há indícios de que Rose de Freitas nomeava pessoas para cargos-chave da Codesa para desvio de recursos públicos. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos na casa da senadora em Vitória e no apartamento funcional dela em Brasília. Rose nega ter cometido qualquer ato ilícito.
Edward de Freitas, irmão da senadora, e Ricardo Saiter Mota, primo e assessor parlamentar, foram presos em cumprimento de mandados de prisão temporária expedidos pelo Supremo Tribunal Federal. Os dois exerceram cargos comissionados na Codesa, mas foram exonerados em 2019.
No jogo político, o comando de departamentos, autarquias e empresas públicas federais passa pelo aval de políticos. Historicamente, eles são ocupados por profissionais com padrinhos da bancada de Brasília.
À senadora Rose de Freitas era atribuída uma cota de nomeações de cargos na estatal, que administra o Porto de Vitória. Alguns articuladores políticos locais relatam que a parlamentar era chamada de "a dona da Codesa" nos bastidores.
Rose sempre negou ser responsável por indicações de comissionados na estatal. Em entrevista para A Gazeta em 2016, a senadora afirmou que não fazia nomeações, apenas tinha muitos conhecidos na estatal por já ter trabalhado no porto. Na época, o irmão e o primo da senadora exerciam, respectivamente, cargos de coordenador de Suprimentos e Serviços e coordenador de Tecnologia de Informação.
Antes disso, Edward de Freitas já havia sido nomeado para ser assessor técnico do então presidente da Codesa, Clóvis Lascosque. A nomeação aconteceu em janeiro de 2015, menos de um mês após Rose assumir o mandato de senadora.
Naquele mesmo ano, o ex-deputado estadual Roberto Carlos (PT) foi indicado para a diretoria de Administração e Finanças da Codesa. Em entrevista para A Gazeta, Rose assumiu que foi indicação dela.
À parlamentar também foi atribuída a indicação de Graciano Ulisses Merlo para diretor-presidente da estatal, em 2016. No entanto, ele não ficou nem 70 dias na função e, nos bastidores, especulou-se conflitos com a senadora.
No lugar dele, foi nomeado Luís Cláudio Santana Montenegro, que fazia parte do quadro técnico da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mas que também foi levado por Rose para a Codesa. A senadora assumiu isso em discurso durante um evento na estatal.
PARTICIPAÇÃO ATIVA NA CODESA
Nos três anos em que Luís Cláudio Montenegro esteve na presidência, Rose participou ativamente em reuniões e solenidades da estatal. Em uma delas, em outubro de 2017, para entrega de obra de dragagem do Porto de Vitória. Na ocasião, o presidente elogiou o trabalho da senadora para viabilizar o fim das obras.
O envolvimento de Rose com a empresa e a proximidade com Montenegro eram nítidos para pessoas do meio político e que trabalhavam na estatal. O ex-presidente participou de diversas reuniões em Brasília, algumas em busca de recursos para conclusão de obras no Porto de Vitória.
As ações viraram uma bandeira política da senadora em 2018, quando se candidatou ao governo do Estado. Rose divulgava nas redes sociais todas as ações que envolviam recursos para a estatal.
Em maio, por exemplo, publicou fotos de uma reunião com membros do Ministério do Planejamento em Brasília e o então presidente Luís Cláudio Montenegro. Na publicação, a senadora escreveu: "A conclusão das obras do cais do Atalaia, no Porto de Vitória, está garantida. Asseguramos os recursos necessários em reunião no Ministério do Planejamento".
ROSE SE POSICIONAVA CONTRA A PRIVATIZAÇÃO
Em 2017, quando saíram os primeiros rumores de que o governo federal iria anunciar um pacote de privatizações, incluindo a Codesa, Rose manifestou resistência. Em Brasília, mobilizou a bancada capixaba. "Existem estudos em andamento sobre o Porto de Vitória, mas ele não será privatizado. A bancada capixaba tem se articulado para que isso não ocorra", afirmou, em entrevista para A Gazeta.
A senadora sempre se mostrou contra a privatização da Codesa, que é uma empresa estatal do governo federal.
"Sou contra a privatização, pois em todos os países do mundo há porto público. Os nossos portos estão evoluindo [...] Entendo que, estrategicamente para o Estado e sob a ótica do desenvolvimento econômico, o porto é fundamental. Quando o governo enfrenta dificuldade econômica, não quer dizer que tenha de privatizar tudo", disse em entrevista para A Gazeta em 28 de setembro de 2018.
TROCA DE PRESIDÊNCIA
A influência da senadora na Codesa perdeu força após a eleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e consequentemente a troca na presidência da estatal.
Com a nomeação de Julio Castiglioni, em 2019, Luís Cláudio Montenegro foi exonerado do cargo e passou a assessorar Rose em Brasília por um período. Edward de Freitas e Ricardo Saiter também foram exonerados. Ricardo virou assessor parlamentar da senadora.
Segundo a Polícia Federal, a atual gestão, sob comando de Castiglioni, contribuiu com as investigações que deram origem à Operação Corsários. Foi por meio de auditoria na estatal é que foram identificadas irregularidades em pelo menos dois contratos, que apontam para desvios de cerca de R$ 9 milhões de recursos públicos.
A Polícia Federal investiga o envolvimento de pessoas que ocupavam cargos-chave na Codesa entre 2015 e 2018 e que teriam feito parte de uma organização criminosa para desviar recursos públicos. A investigação está em andamento.