> >
Reconstituição preocupa família de jovem morto em ação da PM em Colatina

Reconstituição preocupa família de jovem morto em ação da PM em Colatina

Advogada da família de Danilo Lipaus afirma que procedimento ocorre apenas na esfera administrativa da corporação e questiona a forma como a reprodução simulada foi autorizada e conduzida

Adrielle Mariana

Repórter / [email protected]

Publicado em 12 de março de 2026 às 12:00

Reconstituição preocupa família de jovem morto em ação da PM em Colatina
Reconstituição preocupa família de jovem morto em ação da PM em Colatina Crédito: Montagem A Gazeta

reconstituição da ação policial que terminou com a morte do vistoriador Danilo Matos Lipaus, de 20 anos, em Colatina, no Noroeste do Espírito Santo, noticiada em A Gazeta pela colunista Vilmara Fernandes, tem gerado preocupação entre familiares do jovem. O procedimento foi realizado na noite de quarta-feira (11) e conduzido por um perito da Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES) com o objetivo de esclarecer a dinâmica dos fatos.

Danilo foi morto na madrugada de 1º de fevereiro do ano passado após uma série de abordagens policiais nas ruas entre os bairros São Braz e Aeroporto. Segundo informações da investigação, o jovem conduzia uma Fiat Strada branca que não teria parado em quatro tentativas de abordagem da Polícia Militar. Durante a ocorrência, ele foi atingido por cinco tiros. Ao todo, mais de 40 disparos teriam sido efetuados contra o veículo.

Seis policiais militares foram convocados para participar da reprodução simulada, como testemunhas ou envolvidos na ocorrência. São eles:

  • Rodrigo de Jesus Oliveira - 3º sargento;
  • Ricardo Nascimento dos Santos - soldado;
  • Ramon Lucas Rodrigues Souza - soldado;
  • Dearli de Jesus Almeida Junior - soldado;
  • Renan Pessimilio - 3º sargento;
  • Eduardo Nardi Ferrari - soldado.

A diligência foi solicitada pela defesa de dois militares — o 3º sargento Renan Pessimilio e o soldado Eduardo Nardi Ferrari — no âmbito de um procedimento conduzido pela Corregedoria da Polícia Militar. No processo administrativo, foram instaurados Conselhos de Disciplina que irão avaliar a conduta dos agentes que participaram da ação.

Paralelamente, a Polícia Civil concluiu, em maio do ano passado, um inquérito sobre o caso. A investigação apontou que dois policiais militares poderiam responder por tentativa de homicídio. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que analisará se haverá ou não o oferecimento de denúncia. O processo tramita sob sigilo.

"Sentimento de apreensão", diz defesa da família do jovem

A advogada Naianne Lara Gonçalves Lima, que representa a família de Danilo, afirma que a chamada reconstituição não faz parte de nenhum dos inquéritos que investigaram a morte do jovem. Segundo ela, tanto o Inquérito Policial Militar quanto o conduzido pela Polícia Civil já foram concluídos e estão atualmente sob análise do Ministério Público.

De acordo com a defesa da família, o procedimento ocorre apenas na esfera administrativa da Polícia Militar, responsável por avaliar possíveis punições disciplinares aos policiais envolvidos, incluindo eventual expulsão da corporação. Por esse motivo, segundo a advogada, a diligência não conta com participação do Ministério Público nem com controle do Poder Judiciário.

A forma como esse procedimento está sendo conduzido aumenta a apreensão da família, que há um ano e um mês aguarda por justiça pelo filho morto com 49 disparos

Advogada Naianne Lara Gonçalves Lima

Trecho de nota da defesa da família

A defesa também questiona o fato de a reconstituição ter sido autorizada pela Corregedoria da corporação, que, segundo a nota, já havia absolvido dois policiais durante apurações internas, mesmo diante de registros em vídeo analisados no processo e que, conforme a família, contradizem versões apresentadas por eles em depoimento.

Outro ponto levantado pela defesa é que o procedimento não contaria com a participação de todos os policiais diretamente envolvidos na ocorrência. Ainda segundo a nota, também foram convocados para a reconstrução dos fatos militares subordinados hierarquicamente aos investigados.

Diante da situação, a família afirma esperar que o Ministério Público analise o inquérito com urgência e decida sobre o eventual oferecimento de denúncia contra os responsáveis pela morte de Danilo. Na esfera administrativa, a expectativa é de que a Corregedoria avalie o caso com rigor, inclusive quanto à permanência dos policiais na corporação.

A Polícia Militar foi procurada por A Gazeta e informou apenas que a  apuração do fato está em andamento, por meio da Corregedoria da PM. "Não temos outros detalhes", afirmou.

Defesa dos PMs

O advogado Pedro Lozer Pacheco representa os militares Rodrigo de Jesus Oliveira e Ramon Lucas Rodrigues Souza. Em nota, ele informou que ambos sempre colaboraram integralmente com as autoridades responsáveis pela investigação, prestando depoimentos de forma transparente e relatando fielmente os fatos ocorridos.

“Desde o primeiro momento, os militares apresentaram sua versão com absoluta clareza, confiando no trabalho técnico das instituições encarregadas da apuração. O inquérito conduzido pela Polícia Civil, inclusive, reuniu elementos que corroboram a narrativa apresentada pelos policiais, indicando que a atuação se deu dentro das hipóteses legais de excludente de ilicitude, especialmente no contexto de estrito cumprimento do dever legal e da legítima defesa.”

O advogado acrescenta que a reconstituição representa “mais uma etapa natural e importante do processo investigativo, permitindo uma análise técnica e detalhada da dinâmica dos acontecimentos”.

Lozer finaliza reafirmando “sua confiança no trabalho das instituições de Justiça” e afirma ter convicção de que “a verdade dos fatos, já apresentada pelos militares e respaldada pelos elementos do inquérito, será devidamente reconhecida”.

O advogado Rodrigo Vidal de Freitas representa o 3º sargento Renan Pessimilio e o soldado Eduardo Nardi Ferrari. Em nota, ele reiterou a “convicção de que seus assistidos agiram respeitando as diretrizes legais e amparados pelas excludentes de ilicitude, o que certamente restará melhor sedimentado após mais essa diligência (reconstituição simulada) e com o conjunto probatório que será produzido ao longo de todo o procedimento”.

Ele finaliza afirmando: “Ressalto que qualquer manifestação sobre os fatos de forma mais abrangente e específica poderá se revelar imprudente neste momento, visto que a prova ainda não foi produzida. Todavia, ao final do procedimento administrativo que julgará a conduta dos respectivos militares, a defesa ficará à disposição para eventual manifestação e esclarecimento. Reafirmo, ainda, a confiança no trabalho das instituições envolvidas nessa apuração”.

Os advogados dos demais policiais não foram localizados. O espaço segue aberto para manifestação.

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

Tópicos Relacionados

Região Noroeste do Espírito Santo

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais