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Astrogilda Ribeiro dos Santos
Astrogilda Ribeiro dos Santos
1934
2021

Rainha do Congo do ES, Astrogilda Ribeiro morre aos 88 anos

Astrogilda viveu na comunidade Vila do Riacho, em Aracruz

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 19/07/2021 às 18h09

Nascida na Bahia, mas considerada a Rainha do Congo do Espírito Santo, Astrogilda Ribeiro dos Santos morreu na manhã desta segunda-feira (19), aos 88 anos.

Após vencer a Covid-19, recebendo alta depois de 19 dias internada no Hospital São Camilo, em Aracruz, a folclorista, na última sexta-feira (16), debilitada por conta da doença, voltou a passar mal, foi novamente hospitalizada e precisou amputar uma perna. Por conta das complicações, não resistiu e acabou falecendo.  

Segundo uma de suas filhas, Cristiana Ribeiro Cristino, a mãe precisou passar por hemodiálise, além de sofrer com a diabetes e a hipertensão. A Covid-19 agravou o seu já frágil estado de saúde.

"Ela completou 88 anos este mês e seguia lutando. Teve uma ferida no pé e não deu para recuperar, então os médicos do Hospital Dório Silva (na Serra) recorreram à amputação. A cirurgia foi um sucesso e, no sábado (17), ela estava bem, até conversava. Hoje pela manhã, fomos pegos de surpresa. Nos últimos dias parecia que ela sabia que iria partir e dizia para continuarmos levando o congo à frente", desabafou.

Em Aracruz
Comemoração de Natal da família de Astrogilda. Crédito: Arquivo da família

Dona Astrogilda, além de mestra e rainha do congo de Vila do Riacho, em Aracruz, foi detentora de outros conhecimentos tradicionais, como os de parteira e guia espiritual. Começou nas congadas há 74 anos, com o pai, que era o mestre e capitão. Em várias oportunidades, como divulgadora do folclore, representou o movimento cultural fora do Estado, sendo chamada de "A Rainha do Congo". Além de "conguista", Dona Astrogilda foi símbolo de luta e resistência do movimento negro capixaba

Em 2014, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult/ES) concedeu o título de "Mestre da Cultura Popular do Estado do Espírito Santo" aos contemplados com o prêmio "Mestre Armojo do Folclore Capixaba". O evento foi uma homenagem a dez pessoas que atuam na defesa e manutenção da cultura popular no Espírito Santo, entre elas estava Dona Astrogilda.

À reportagem, a família informou ainda não ter informações sobre o horário e local do velório e sepultamento.

MEMÓRIAS

Para Cristiana, as melhores lembranças que ficam da mãe são da alegria que ela irradiava e do legado que ela deixa. "Ela é a nossa base, nossa estrutura. Hoje vai embora um pedacinho de cada um da nossa família. Carregamos o que ela ensinou e tentamos ser fortes, já que ela não queria tristeza. Ela estava sofrendo muito e não suportou. Mas deixou muita alegria, ensinamentos de amor e respeito ao próximo", afirmou.

Cristiana Ribeiro Cristino

Filha de Astrogilda

"Para o nosso congo ela foi tudo. Hoje minha mãe tem um nome que até mesmo ela não sabia da grandeza. Para nós é muito orgulho ter esse ícone. E sabemos que teve homenagens ainda em vida, com livros escritos, música feita pelo Casaca e coletivo de mulheres em Aracruz que leva o seu nome, por ter sido uma mulher forte e guerreira. Deixa uma parte que jamais será esquecida"

Para a filha mais nova de sete filhos biológicos, sem contar os tantos que viraram parte da família, além de netos, bisnetos e tataranetos, ficam sentimentos de tristeza e gratidão. "A gente nunca prevê quando alguém vai embora, queremos ter a pessoa ali do lado. Mas a missão dela foi cumprida e hoje só agradeço por ter sido escolhida por Deus para ser filha dela e ter tido a oportunidade de aprender com ela. A dor continua, mas tenho que pensar que ela não está mais sofrendo", continuou.

HOMENAGENS

O município de Aracruz divulgou nota lamentando o falecimento de Astrogilda. Ao defini-la como "uma mulher de grande força, sabedoria e exemplo de fé", a prefeitura se despediu agradecendo pela contribuição que folclorista trouxe à cultura capixaba.

Congo de Aracruz - Barra do Riacho
Município de Aracruz se despede de Astrogilda. Crédito: Prefeitura de Aracruz

Nas redes sociais, o governador do Estado, Renato Casagrande (PSB), também homenageou a rainha do congo, deixando um abraço aos familiares e amigos de Astrogilda.

O ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, também pelas redes sociais, enalteceu a contribuição artística da grande expoente que se foi.

Fabricio Noronha, secretário Estadual de Cultura, também manifestou condolências. "Dona Astrogilda é um ícone da nossa cultura, do nosso congo. Reunindo ancestralidade e resistência em uma trajetória importante e reconhecida. Fica seu legado de luta para as futuras gerações", disse.

Secretário de Turismo do município de Aracruz, Moisés Mercier lamentou o falecimento de Astrogilda. "Estou extremamente consternado. Sou de Vila do Riacho, sua terra, e ela é um ícone da cultura capixaba e brasileira. Contribuiu muito para fomentar a cultura do congo no país inteiro, deixando um legado incrível, por meio do qual muitas pessoas se inspiraram nela. O congo em Aracruz está vivo por causa dela", apontou.

De acordo com Mercier, os familiares de Astrogilda acabaram contagiados pelo movimento cultural e seguiram os passos dela. "A cidade inteira se entristeceu com a perda. Mas ficamos felizes com a história que ela construiu e com o legado que deixou para o município e para o Estado. Era um símbolo da defesa e da consciência negra, da luta contra a opressão aos pobres e deu nome ao coletivo de mulheres da cidade", informou.

Aracruz
Astrogilda foi conhecida como Rainha do Congo. Crédito: Rogério Sarmenghi

Moisés Mercier

Secretário de Turismo do município de Aracruz

"Perdemos hoje um ícone da cultura capixaba, em especial da cultura popular tradicional. Dona Astrogilda é um ícone gigante da celebração da cultura popular e da identidade capixaba. Muito triste a passagem desse ser de saber, generosidade e humildade, além da perda intelectual de uma liderança e também a morte irrecuperável de memórias, tradições e identidades. Dona Astrogilda nos deixa um legado precioso. Ela nos entrega, para que a guardemos e a disseminemos, sua energia, a luz que a transformou num símbolo indelével do congo. A cultura se despede de um ícone sagrado"

Vereador do município de Aracruz, Leandro Pereira afirmou que, desde que nasceu, foi ensinado sobre o valor da "conguista". "Tenho 34 anos e quando nasci ela já era moradora da comunidade. Fica agora um sentimento de tristeza muito grande. Por sorte tive o privilégio de desenvolver uma amizade. Além da gente se despedir, eu, particularmente, como fui líder comunitário da Vila do Riacho, fiquei com um sentimento de tristeza imensurável. Sentimento de tristeza, de perder uma pessoa que foi muito além da Cultura", afirmou.

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