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"Ter fé é mais que importante na pandemia, é necessário", diz frade

Em entrevista, o Frei Paulo Pereira, guardião do Convento da Penha, descreve o encontro com Deus e com nós mesmos neste momento de isolamento social

Publicado em 12/04/2020 às 09h01
Atualizado em 13/04/2020 às 17h38
 Frei Paulo Roberto Pereira, guardião do Convento da Penha
Frei Paulo Roberto Pereira, guardião do Convento da Penha . Crédito: Fernando Madeira

Os momentos de isolamento social necessário ao combate do coronavírus tem trazido angústia para muitas pessoas. Porém, esta também pode ser uma oportunidade para se reencontrar com Deus e com a fé, segundo o Frei Paulo Pereira, guardião do Convento da Penha, em Vila Velha e da Comissão Organizadora da Festa da Penha.

“O mundo inteiro está tendo que se reinventar em todos os setores da sociedade. A crise é um momento de purificação em que somos obrigados a deixar alguns comportamentos de lado e os comportamentos que falam da nossa essência são reforçados, entre eles a fé que temos”, descreveu.

Frei Paulo conversou com A Gazeta sobre o que podemos aprender com nós mesmos e orientou a rezar por todos, em especial para pacientes e pessoas que não podem ficar em casa durante a disseminação da Covid-19.

Estamos passando por uma crise na saúde mundial, o que a fé significa na nossa vida?

A fé é mais do que importante, ela é imprescindível. O mundo inteiro está tendo que se reinventar, em todos os setores da sociedade. A crise, na raiz da palavra, é um momento de purificação em que somos obrigados a deixar alguns comportamentos de lado e, ao mesmo tempo, reforçar os comportamentos que falam da nossa essência. Nesse momento de pandemia, a experiência de fé é o algo que será reforçado e que poderemos levar com a gente. 

Temos praticado pouco a fé?

Na dinâmica da fé, Deus é generoso sempre, constantemente, ele dá e da nossa parte é necessário o esforço do cultivo. Se a primeira parte nunca falta, a segunda parte nem sempre é notada. Muitas vezes as pessoas não dão a atenção devida à fé, vão à igreja eventualmente. Hoje não, com essa crise e todos levados ao isolamento voluntário, e alguns contrariados, nos dispomos ao silêncio, estamos obrigados a estar a sós com a gente mesmo.

O que podemos aprender durante o isolamento?

Quando estamos sozinhos com a gente mesmo, fatalmente vamos encontrar Deus, pois ele se revela no mistério da humanidade. Quando nos perguntamos 'quem sou eu?', aí vai estar Deus. Nesta hora, quando encontramos com Ele, vamos ter um olhar de esperança que renasce, teremos a plenitude, por isso as pessoas passam a rezar mais. As pessoas passam a perceber que Deus de fato nunca abandonou a gente, vemos que já não somos autossuficientes, nos propomos a pensar, e assim vivemos uma experiência transformadora.

Há quem diga que o coronavírus, um vírus que se espalha rapidamente, é um "castigo divino". O senhor concorda?

O discurso mais fácil é o que 'sou vítima da punição de Deus'. Mas o Deus revelado em Jesus Cristo é exatamente ao contrário. O Deus descrito do antigo testamento mandava mesmo fogo do céu, “fogo, enxofre e vento ardente” como dizem as sagradas escrituras, e tudo era destruído como com Noé.  O Deus revelado em Jesus cristo é diferente, Ele  diz “ame seu inimigo”, algo revolucionário. Quando falamos o mundo está perdido, nunca nos incluídos como perdidos. Nesse discurso de um Deus punitivo que afasta você da responsabilidade, o culpado é sempre o outro.  Deus não está querendo punir ninguém, ao contrário, quer salvar as pessoas.

Como não se perder nesse momento?

Rezar no silêncio com Deus, no recolhimento de casa, com você mesmo. Não somos muito afeitos a reservar um determinado momento para o cultivo da semente da fé. Atualmente somos convidados a ficar mais recolhidos, nos encontramos com nós mesmos e temos a chance, bonita e vigorosa, de se encontrar com Deus.  

A Festa da Penha deste ano vai ser on-line, isso atrapalhará?

Não. Temos o privilégio de estender essa experiência de fé com a quaresma, a Semana Santa e o júbilo na Festa da Penha. Muitos dizem que o pico da doença do coronavírus vai ser durante a Festa da Penha. Já eu digo que vai ser nossa redenção na Festa da Penha, pois vai ser quando teremos entendido o que é a humanidade, quem de fato é Deus e entenderemos a ressurreição. Deus preparou tudo direitinho.  

Há alguma orientação aos devotos de Nossa Senhora da Penha que estão em casa?

É tempo de rezar preces solidárias. Que as pessoas que estão sofrendo, saibam que estamos rezando por elas.  A segunda prece é de gratidão por todos que estão colaborando ajudando quem passa fome  nas ruas, quem não pode ficar em casa e quem está  se esforçando nos hospitais. É uma abnegação grande e de muita gente, dedicação e esforço. E a terceira prece que podemos fazer é a que alimenta a esperança. Nenhum mal dura para sempre. Amanhã o sol vai brilhar e vamos viver com intensidade. Vamos sair dessa muito melhor.

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