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Publicado em 15 de julho de 2021 às 20:42
Se aprovada como está, a nova versão da proposta de reforma tributária que trata do Imposto de Renda (IR) de pessoas físicas e jurídicas pode colocar em risco o fornecimento de alimentação no trabalho ou do tíquete pago pelas empresas a 412.829 trabalhadores no Espírito Santo, conforme números da Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia. >
Destes, cerca de 150 mil são profissionais da indústria, segundo estimativa do Conselho de Relações do Trabalho (Consurt) da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes). Para analistas, a mudança pode fazer ficar mais caro oferecer o benefício, que não é previsto em lei, e algumas companhias podem até deixar de pagá-lo.>
Atualmente, as empresas podem deduzir do Imposto de Renda o dobro das despesas comprovadamente realizadas no âmbito do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), criado em 1976. Isso inclui gastos com o pagamento de cestas básicas a funcionários, alimentação no trabalho ou fornecimento de vale-alimentação.>
Entretanto, a equipe econômica do governo considerou que um corte linear da alíquota de IR é mais benéfico do que subsídios específicos. Assim, o relator do texto na Câmara, deputado Celso Sabino (PSDB-PA), propôs cortar subsídios como forma de reduzir à metade o Imposto de Renda de todas as empresas em 12,5 pontos percentuais.>
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“Extinguir esse subsídio vai contra a proposta inicial da reforma, que era buscar mecanismos para reduzir o custo de contratação. O cartão-alimentação acaba cumprindo uma função de complemento salarial, em alguns casos, chega a ser 50% da remuneração, e por isso é tão negociado nas convenções coletivas. Essa garantia, inclusive, costuma agir como elemento de atração de trabalhadores. Retirá-lo seria um inegável prejuízo”, avaliou o vice-presidente da Findes e presidente do Consurt, Fernando Otávio Campos.>
Campos destacou que hoje mais da metade dos trabalhadores das indústrias são beneficiados com o tíquete ou com o fornecimento de alimentação no local. A prática, segundo ele, é muito comum nas grandes empresas, e muitas, mesmo quando realizam a contratação de companhias terceirizadas, exigem o pagamento do benefício aos trabalhadores.>
O vice-presidente da Findes avaliou que com a eventual retirada dos incentivos do PAT, é possível que uma parte dos trabalhadores perca o vale-refeição ou o vale-alimentação. >
“E existe um impacto indireto, que recai sobre a arrecadação. Hoje, quando a empresa fornece o vale-alimentação ou vale-refeição, esse recurso vira consumo. Não fica guardado. E o governo se beneficia com isso, assim como os estabelecimentos onde esses cartões são utilizados. Ok, vai retirar para reduzir o IR, mas do jeito como está sendo feito, não representa um ganho.”>
O presidente do Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Espírito Santo (Sindbares), Rodrigo Vervloet, avalia que o setor será um dos principais prejudicados caso a proposta seja aprovada como está. >
“O vale-refeição, especificamente, representa uma fatia importante do faturamento nas operações do dia a dia. O ideal seria ter um caminho para manter esse benefício, encontrar uma alternativa para que as empresas não interrompam o pagamento. Do contrário, teremos uma perda considerável.”>
Ao jornal Estado de S. Paulo, a Associação Brasileira de Benefícios ao Trabalhador (ABBT), que representa as empresas de cartões de benefícios como Alelo, Sodexo e Ticket, afirmou que o PAT é um dos programas do gênero "mais bem-sucedidos do mundo, sendo referência para a Organização Internacional do Trabalho (OIT)". A entidade também afirma que "vem participando das discussões acerca do assunto em conjunto com os demais setores envolvidos nesse segmento." >
Em nota, Sodexo, Alelo e Ticket, empresas que fornecem cartões de vale-alimentação e vale-refeição, disseram que seguem na defesa do benefício, em parceria com a ABBT. As três companhias citam a importância do PAT "para mais de 20 milhões de trabalhadores brasileiros e para toda a cadeia produtiva de alimentação, que vai muito além dos incentivos fiscais às mais de 220 mil empresas cadastradas no Programa".>
O superintendente regional do Trabalho no Espírito Santo, Alcimar Candeias, reforçou que o auxílio-alimentação traz duplo benefício para o empregador, uma vez que permite essa dedução em relação ao IR devido, e que os cartões não são considerados benefícios obrigatórios por lei, como o décimo terceiro salário, o vale-transporte ou o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).>
“Ainda não se sabe como será feito, se isso que está sendo proposto é o que será aprovado. Mas vale lembrar que a lei não determina o pagamento desse benefício, ele existe em função dos acordos e convenções coletivas, para benefício do trabalhador.”>
O advogado trabalhista Wiler Coelho reforçou o ponto, mas observou que, indiretamente, o benefício acaba agindo como um complemento indireto ao salário, pois destina parte da renda especificamente à alimentação. >
“Se acabam com o abatimento do IR, é possível que, na renovação desses acordos e convenções coletivas, o sindicato patronal não queira manter mais esse ticket, haja vista o fim do benefício para as empresas. O governo vai, para resolver uma questão tributária, acabar prejudicando o trabalhador.”>
Na avaliação do advogado tributário Gerson de Souza, a proposta do governo não chega a beneficiar realmente as empresas. Pelo contrário, abre margem para que, eventualmente, seja contestada a não incidência de tributações acessórias sobre um possível pagamento de vale-alimentação ou vale-refeição.>
“O governo não arrisca acabar de vez com os subsídios, porque ninguém aprovaria. Mas há um temor de que essas vantagens sejam retiradas aos pouquinhos, tornando o pagamento do benefício pouquíssimo atrativo às empresas.”>
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