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Incêndios “queimam” o Brasil no exterior e podem afetar negócios no ES

Postura negacionista do governo de Jair Bolsonaro quanto a queimadas e desmatamento na Amazônia e no Pantanal, ainda mais evidenciada após discurso do presidente na ONU, pode trazer consequências no campo econômico

Publicado em 23/09/2020 às 10h06
A fumaça de um incêndio sobe no ar enquanto as árvores queimam entre a vegetação no Pantanal, a maior área úmida do mundo, em Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, 3 de setembro de 2020. REUTERS / Amanda Perobelli
A fumaça de um incêndio sobe no ar enquanto as árvores queimam entre a vegetação no Pantanal. Crédito: Amanda Perobelli/Folhapress

A postura negacionista do governo brasileiro quanto às queimadas e ao desmatamento na Amazônia e no Pantanal, evidenciada ainda mais nesta terça-feira (22) no discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, pode ter graves consequências para a economia nacional e respingar também no Espírito Santo. Esse prejuízo ambiental já tem afastado investidores estrangeiros e pode fazer acordos e oportunidades virarem cinzas.

Estado com forte dependência do comércio exterior, o Espírito Santo pode ser afetado de várias formas por possíveis retaliações à política ambiental brasileira. A principal talvez seja no agronegócio, conforme explicou o economista Mário Vasconcelos. Mas o cenário tem potencial para impactar grandes projetos na área de infraestrutura e logística, como a privatização da Codesa, prevista para ser vendida no ano que vem, e também a concessão BR 262, com processo em andamento.

"Mesmo não tendo problemas ambientais assim no Estado, lá fora conta mesmo, como um todo, o país. É a preocupação com produtos brasileiros no geral, sobretudo do agronegócio. O Espírito Santo, por exemplo, exporta muito café. E talvez essas preocupações os levem a deixar de comprar da gente", disse.

Em oito meses, devido à pandemia, o país viveu uma grande fuga de capital estrangeiro, segundo dados do Banco Central. Cerca de US$ 15,2 bilhões deixaram o Brasil no período. 

Isso acontece justamente em um momento em que o país e o Estado precisam de recursos para a retomada da economia, diante da crise causada pelo novo coronavírus. Mas o quadro de saída de recursos internacionais pode se agravar com o comportamento do governo brasileiro.

Em sua fala na Assembleia ONU, Bolsonaro afirmou que queimadas criminosas estão sendo combatidas, mas alegou que os incêndios estão sendo usados numa campanha internacional de desinformação contra o governo brasileiro, culpou "índios e caboclos" pelas chamas, e disse que as florestas brasileiras são úmidas e, portanto, não permitem a propagação do fogo. 

A ideia de dar um tom de combate eficiente aos problemas ambientais parece não ter sido comprada por boa parte da comunidade internacional, sobretudo investidores, que já vinham mostrando preocupação com a conduta do governo e com as declarações anteriores do presidente e de membros de sua equipe nos últimos meses. Na visão de especialistas, a fala pode acabar agravando as críticas e gerando ainda mais reações negativas para o país.

Na semana passada, um grupo de oito países europeus com os quais o Brasil mantém relações comerciais, incluindo Alemanha, França, Itália e Reino Unido, enviou uma carta ao vice-presidente Hamilton Mourão manifestando preocupação sobre o que avalia ser o recuo do Brasil em relação ao sólido histórico de proteção ambiental do país, cobrando "ações reais", e acendendo o alerta sobre a possibilidade de boicote a produtos brasileiros.

Também na última semana, a França reafirmou que se opõe a atual versão do acordo de livre comércio entre Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e a União Europeia, que foi anunciado em 2019, depois de 20 anos de negociações. Para entrar em vigor, o acordo precisa ser aprovado pelos parlamentos europeus. No entanto, alguns países alegam que a política ambiental do governo Bolsonaro é um empecilho para a ratificação.

Outro temor é com relação ao acordo com Mercosul com a União Europeia. Como já mostrou A Gazeta, a expectativa é que, após o acordo, as exportações capixabas para o bloco dupliquem. Em 2018, o Estado exportou cerca de R$ 1,5 bilhão para a Europa, com destaque para os alimentos: café, carne de boi, mamão, soja, frango e peixe.

"Esse acordo seria muito benéfico para o Espírito Santo, impulsionando as exportações do agronegócio mas também abrindo mais espaço para outros setores além do agronegócio venderem mais para a Europa. Seria um crescimento importante para a nossa economia que, agora, fica em xeque", comentou  o economista Orlando Caliman.

Ele ressaltou ainda a atração de investimentos. "O Espírito Santo é hoje um território muito atraente para investimentos, inclusive externos. E precisamos deles. Mas é muito provável que essa questão ambiental respingue nisso e afete esse fluxo de investimentos que viria para o Brasil e para cá".

PREOCUPAÇÃO DOS EMPRESÁRIOS

No Brasil, a preocupação com os desdobramentos que a conduta ambiental do governo pode trazer já tem provocado reações para além de ambientalistas. Representantes da indústria e do agronegócio do país já se reuniram com o governo mostrando temor com a reação externa e que isso prejudique as relações comerciais.

"O mundo todo hoje em dia, sobretudo os países de primeiro mundo, está muito preocupado com a questão ambiental e o Brasil tem deixado um pouco a desejar nisso. Nenhuma empresa quer atrelar seus negócios ao desmatamento e degradação ambiental, assim como muitos países não vão querer comprar alimentos plantados em área desmatada ou de onde derrubam florestas para criar gado. É uma pauta que tem crescido", alertou o economista Mário Vasconcelos.

O economista Orlando Caliman destacou que essa condução já está afetando a economia. "O Reino Unido, por exemplo, já lançou edital de audiência pública propondo restrições a produtos vindos do Brasil, sobretudo os ligados a pecuária. A União Europeia também se movimenta na mesma direção. E nos Estados Unidos algumas empresas também já avaliam isso. E os mercados europeu e americano representam 25% das exportações do nosso agronegócio".

Na visão dos especialistas, o mercado internacional em geral tem avaliado o comportamento do país diante das queimadas e do desmatamento e tudo isso tende a comprometer negócios em andamento ou futuras oportunidades para empresas brasileiras e capixabas. Outra preocupação é ainda a aproximação "exagerada" com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que até agora não trouxe tantas vantagens para o país.

Orlando Caliman

Economista

"O próprio empresariado nacional já alertou o governo várias vezes que essa postura pode afetar o fluxo de investimentos privados na economia do Brasil. Essa conduta negacionista, além do alinhamento exagerado com a política de Trump, que ficaram ainda mais claros no discurso, pode trazer mais consequências e precipitar o posicionamento de países como no acordo da União Europeia com o Mercosul, jogando um balde de água fria que não apagará o fogo, mas sim a economia"

Sobre a aliança com os Estados Unidos, Caliman chamou a atenção ainda para a chance real do presidente americano não conseguir se reeleger e o democrata Joe Biden vencer as eleições, como apontam as pesquisas até aqui. "A política americana mudaria completamente e ele tenderia a ser mais um aliado da União Europeia nessas cobranças e ameaças ao Brasil. O país ficaria, de certa forma, isolado".

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