Separados por 8 mil quilômetros, estudantes capixabas e moçambicanos deixaram a internet de lado e estabeleceram uma comunicação à moda antiga. Tudo começou em julho de 2025, quando 31 alunos do 9º ano B da EMEF São Vicente de Paulo, no Centro de Vitória, enviaram 61 cartas para uma turma da mesma série na Escola Primária Completa Polana Caniço, em Maputo, capital de Moçambique. No fim do mesmo ano, em dezembro, chegaram ao Espírito Santo cartas escritas pelos adolescentes de lá.
A troca de cartas é uma iniciativa da professora de Lingua Portuguesa Patrícia Seibert, que trouxe o projeto de Iniciação Científica do curso de Letras, intitulado “Cartas para Moçambique", desenvolvido no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), onde também leciona, para a sala de aula da escola municipal. Em Maputo, a ação é mediada pelo professor de Língua Portuguesa Castião Popote Nhenguereia.
Segundo Castião, que também é linguista, o objetivo é que a troca seja não apenas de vivências e experiências, mas também uma forma de reafirmar a vitalidade da Língua Portuguesa.
“A iniciativa da professora Patrícia é revitalizar a comunicação por meio de cartas, algo que vejo como resgatar o passado. A proposta dela era restabelecer a conexão com uma escola um pouco distante, e a melhor alternativa era através das correspondências, para que se tivesse a maior credibilidade da distância — para mostrar que é possível se comunicar dessa maneira, e não apenas por internet, por ligação, por WhatsApp e outros meios. Os alunos aceitaram a proposta com muita alegria e muita ansiedade de verem as cartas chegar.”
Patrícia reforça as palavras de Castião e destaca que, acima de tudo, escrever uma carta é exercitar um gênero textual que abre outros modos de sentir.
“As cartas a gente estuda como gênero textual. E eu sempre falo com eles que a carta te coloca num lugar mais íntimo, num lugar mais afetivo, porque você vê a letra da pessoa. As pessoas, normalmente, quando escrevem, têm mais liberdade. Elas se soltam mais do que quando falam oralmente.”
Outro responsável por fortalecer essa ponte entre Brasil e Moçambique é o professor Cesário Lopes, doutorando em Linguística pelo Ifes, que estudou com Castião na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo.
Para Castião Popote, o gesto em parceria com Cesário atravessou o oceano com a leveza de um reencontro: “É um intercâmbio muito bonito, comunicativo, educativo, mas recreativo acima de tudo. Alguns dos alunos daqui de Moçambique, que estão fazendo a correspondência com a turma do Brasil, devem ir para outra escola em breve, mas criamos um grupo no WhatsApp, onde vamos manter a comunicação.”
NOTÍCIAS DO MUNDO DE CÁ
A carta de Levi, estudante capixaba, enviada a Rafael, seu colega africano, narrava as mudanças repentinas de clima em Vitória e a história de uma pessoa em situação de rua que circulava pelo Centro da Capital. Segundo Levi, a cada abordagem, ela vestia uma roupa diferente — um detalhe que, para ele, dizia muito sobre os múltiplos rostos e ritmos da cidade.
Já Suzana, também de Vitória, escreveu para Valdiva. Na carta, contou que sua escola é considerada um ponto turístico do ES e listou outros lugares emblemáticos de Vitória. Revelou, ainda, que é jogadora de vôlei pela Ufes, mas que estava lesionada — razão pela qual ficou fora das competições. Disse, também, estar se interessando pela culinária e que pretende fazer cursos de gastronomia. Em outro trecho, falou sobre as desigualdades sociais da cidade e comentou o “jeitão” do capixaba — “reservado e que não gosta de receber visita”, como definiu, com humor e sinceridade.
NOTÍCIAS DO MUNDO DE LÁ
A carta de Rafael, aluno de Moçambique, foi direcionada a outro Raphael, um capixaba. O jovem destaca já de imediato os problemas com os quais os adolescentes moçambicanos convivem.
Segundo o africano, os jovens de lá estão expostos às drogas e aos vícios em razão da pobreza daquele país. Porém, ainda que existam as dificuldades, ainda assim os rapazes se juntam para jogar futebol ou praticar esportes e que isto os une.
Uma menina moçambicana chamada Marta, encaminhou à colega brasileira Suzana, uma carta na qual falava sobre o seu cotidiano na África. Disse saber cozinhar, falou de sua família e suas irmãs. Contou também que é uma tradição naquele país comer folhas de mandioca e abóbora - alimentos que no Brasil costuma-se comer os frutos.
EDUCAÇÃO NOS DOIS PAÍSES
A própria disposição e estruturação das escolas moçambicanas é diferente da realidade brasileira. Lá, ainda se usam carteiras duplas, modelo praticamente abandonado no Brasil desde o início do século XX. As salas são numerosas — a turma que enviou cartas ao Brasil tem 62 alunos, enquanto a capixaba tem 31. Por isso, alguns estudantes de Vitória precisaram escrever duas ou mais cartas para que todas as crianças moçambicanas recebessem correspondência. Mesmo sob o calor intenso do sudeste da África, as unidades escolares não contam com ventiladores ou ar-condicionado.
No Brasil, ao concluir o 9º ano do Ensino Fundamental, o estudante segue para o Ensino Médio. Em Moçambique, a escolarização obrigatória vai da 1ª à 9ª classes, englobando o ensino primário e o primeiro ciclo do ensino secundário. Segundo artigo produzido pela Universidade Federal de Goiás e pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM), quase metade da população moçambicana em idade escolar (47,2%) não está matriculada — um reflexo que se torna ainda mais evidente entre adultos com 20 anos ou mais, especialmente mulheres. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Moçambique, Daniel Nivagara, afirmou em agosto de 2024 que apenas 8% da população do país tem acesso ao ensino superior.
As cartas enviadas em Vitória foram postadas nos Correios e chegaram a Maputo em agosto, onde o professor Castião as buscou pessoalmente. O caminho inverso, porém, não pôde ser o mesmo. Por dificuldades técnicas e pelo custo elevado, as cartas moçambicanas vieram ao Brasil trazidas por uma terceira pessoa. Até mesmo conseguir envelopes e papel foi um desafio. Como explica Patrícia, “Moçambique é um país que teve a sua independência há apenas 50 anos [em 25/06/1975]. Por esta razão, tudo lá está em construção ou em processo. O domínio português os abalou muito e por muitos anos”.
Segundo o professor Castião, o imaginário dos estudantes também atravessou o oceano: “Os meninos veem o Brasil como um mundo diferente. Ficaram muito ansiosos em querer receber as cartas, eles viram isso com muita ilusão, com muita vivacidade e até disseram: ‘Professor, nós estamos a pedir para que não comunique outra turma, queremos ser os pioneiros deste projeto, nós queremos conversar com esses meninos e queremos ver onde podemos nos encontrar’”.
Já a professora de Vitória ressalta a curiosidade dos estudantes capixabas em conhecer um pedaço da África.
“A curiosidade é semelhante, porque eles são adolescentes — e adolescentes, em qualquer lugar do mundo, costumam agir de forma parecida. Os jovens estão ansiosos por receber notícias de lá, já que escreveram para alguém que não conhecem e aguardam um retorno que dependerá daquilo que escreveram. E também por conta de muitas pessoas acharem que a África é um único país. Muitos imaginam que vão encontrar apenas leões ou zebras. Somos diferentes nas ações e nas culturas, mas estamos unidos pela língua que falamos, pois fomos colonizados por portugueses. Eles tinham muitas perguntas, especialmente sobre comida. Também demonstraram grande curiosidade sobre dança e seus estilos.”
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