Três anos após perder filho que vivia em hospital, mãe dá à luz de novo
Por muito tempo foi só a Glenda e o Flavinho. Cinco anos de dedicação exclusiva, dentro de um hospital. Quando o filho partiu, em 2017, ela precisou ressignificar a vida e recomeçar. Agora, três anos depois, Glenda Miranda Rocha, 34 anos, comemora "mais um milagre": a chegada da pequena Sophia, que neste domingo (10), Dia das Mães, completa um mês.
"A Sophia é o milagre da família. É a prova de que Deus existe. Ela é outro milagre na minha vida. Meu presente de Dia das Mães", conta.
Mãe pela segunda vez, Glenda vive agora um momento único: ter a filha em casa, saudável, com cuidados normais que qualquer bebê recém-nascido exige. Lá fora tem uma pandemia de Covid-19 que preocupa, mas esse é, na verdade, só mais um desafio a ser vencido com cuidado e amor.
"É uma experiência dolorida. Nenhuma mãe quer perder um filho. Tomei um susto com a gravidez, e é uma experiência muito diferente. Eu não imaginava que ia ter que ganhar a Sophia logo no período de coronavírus. Mas a gente tem tomado todos os cuidados. Uma surpresa para mim, ser mãe pela segunda vez e ter o privilégio de levar a minha filha para casa. É um presente de Deus"
A VIDA DEPOIS DO HOSPITAL
Sophia é saudável. Embora tenha precisado passar alguns dias na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (Utin), a menina teve alta dois dias antes do previsto e está bem. Tudo muito diferente do irmão.
Flavio nasceu prematuro, aos oito meses, com malformação na coluna e hidrocefalia. Diagnosticado com síndrome de Arnold-Chiari tipo 2 - doença rara e congênita do sistema nervoso central - o menino nunca pôde ir para casa. Para cuidar dele, Glenda se mudou para o hospital e viveu com o filho, durante cinco anos, em um quarto do Hospital Infantil de Vila Velha. A Gazeta contou essa história em 2017.
Glenda só deixou o hospital em julho de 2017, quando o filho morreu. Na busca por emprego, ela aceitou o trabalho de cuidadora de idosos de um casal e foi assim que conheceu o marido, Danilo Júnior Freitas, pai da Sophia.
"Eu queria um emprego, não importava o que fosse. Aí surgiu a oportunidade de cuidar dos avós do Júnior. Conheci o meu marido através do meu trabalho. Cuidei com carinho dos avós dele, como se fossem meus pais, até o dia que eles também se foram", recorda.
SAUDADE DO FILHO
Antes da chegada de Sophia, Glenda ainda precisou enfrentar o câncer da mãe. Dona Rosa Maria Miranda Rocha morreu antes que a filha descobrisse a nova gravidez.
"Ela tinha me pedido mais um neto, mas acabou indo embora antes de eu engravidar. Foi uma grande avó. Lá de cima está vendo tudo isso", consola-se.
Mas é de Flavinho que ela sente mais saudade.
"Eu fico olhando para o retrato do meu filho e bate uma saudade. Mas para mim é um presente que Deus me deu. Meu filho foi amor e renúncia, tive que renunciar muitas coisas por ele e fiz isso. Só posso agradecer a quem me ajudou. Quero que a Sophia saiba que teve um irmão guerreiro, assim como ela", finaliza.
Com a Sophia nos braços e em casa, este Dia das Mães será muito especial.
RELEMBRE O CASO
A Gazeta contou a história da Glenda pela primeira vez em junho de 2017. Ela vivia dentro de um quarto de hospital como acompanhante e cuidadora em tempo integral do filho, Flavio. O menino nasceu no dia 27 de junho de 2012, no Hospital Dório Silva, na Serra, e só saiu de lá quando foi transferido, em 2013, para o Hospital Infantil de Vila Velha. Flavinho, como era carinhosamente chamado, nunca foi para casa, nem mesmo para fazer uma visita.
Sem andar, nem falar, o menino fazia uso de ventilação mecânica para sobreviver. Sem condições financeiras para equipar adequadamente uma casa para morar com o filho, a saída encontrada pela mãe foi viver com ele no hospital.
Tratado com todo carinho no hospital, onde ganhou até festa de aniversário, Flavinho teve a morte cerebral decretada no dia 13 de julho de 2017, 15 dias depois de completar 5 anos.