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Publicado em 19 de maio de 2021 às 14:32
Problema crônico no Espírito Santo, a superlotação dos presídios diminuiu em 2020, na comparação com o ano anterior. No entanto, 22.514 presos ainda ocupavam o espaço que deveria ser destinado a 13.858 indivíduos. Ou seja, um excedente de 8.656 detentos – 62,4% acima da capacidade máxima original. >
No final de 2019, esse índice era dois pontos percentuais maior: 64,4%. Naquela época, o Estado tinha 278 presos a mais e praticamente a mesma quantidade de vagas. Os dados são da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), responsável pelo sistema prisional capixaba.>
Especialista em Segurança Pública, o professor Henrique Herkenhoff explica que a superlotação foi registrada em âmbito nacional, causada por leis que aumentaram as punições – seja por preverem maior tempo de pena ou por dificultarem a progressão de regime. Assim, as pessoas passaram a ficar mais tempo na prisão. >
"Aumentou a quantidade dos indivíduos presos e não a qualidade das prisões. Por exemplo: o mula (mini traficante) é muito substituível. Então, no primeiro dia você tem um solto. No segundo, um preso e um solto. No terceiro dia, dois presos e um solto... É como se, de fato, estivéssemos enxugando gelo", analisa.>
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Henrique Herkenhoff
Professor de mestrado em Segurança Pública da Universidade de Vila VelhaTambém professor da área, Pablo Lira ainda ressalta a antiga precariedade do sistema prisional capixaba e falta de investimentos, entre 2005 e 2009. "Chegamos a ter denúncias na Corte de Direitos Humanos e pedido de intervenção federal. Depois, começamos a investir em unidades e modernização", lembra. >
Segundo os especialistas, engana-se quem acredita que o problema da superlotação dos presídios se restringe apenas à condição dos próprios detidos. "Um dos maiores desafios que nós temos na segurança pública é que se o sistema prisional está sobrecarregado, dificulta a gestão do crime organizado", alerta Pablo.>
Isso acontece em decorrência das dificuldades e impossibilidades geradas pelo déficit da mão de obra e da estrutura, o que gera oportunidades para que os detentos pratiquem crimes de dentro da prisão e não consigam ter o acesso adequado a processos de ressocialização. >
"Quando a unidade ultrapassada a capacidade máxima, diminui a condição de oferecer trabalho ou estudo, que são essenciais nesse processo. Todo o pessoal existente é drenado para a segurança e contenção do presídio. Se o preso fica o dia inteiro trancado na cela, é óbvio que ele vai sair piorado", defende Henrique.>
Henrique Herkenhoff
Professor de mestrado em Segurança Pública da Universidade de Vila VelhaDo total de detentos do ano passado, cerca de 34% estavam na cadeia provisoriamente: 7.679 presos em flagrante ou em prisão preventiva ou temporária. Isso significa que eles aguardavam um julgamento em que poderiam ser considerados inocentes pelos crimes que lhe foram imputados.>
"É um número muito alto. Em termos ideais, ninguém poderia passar mais de três ou quatro meses presos. Quanto tempo essas pessoas podem ficar presas esperando que decidam seu destino? Isso é sintoma do seguinte problema: estamos prendendo mais do que conseguimos guardar e julgar", aponta Henrique.>
Apesar desses presos representarem mais de um terço do total do Estado, Pablo Lira garante que essa porcentagem é próxima da nacional, que costuma variar entre 30% e 40%. "Esse é outro gargalo: a morosidade das leis brasileiras e da própria estrutura do sistema de Justiça, que é muito lento", afirma. >
"Temos leis que possibilitam uma série de recursos que podem até protelar os julgamentos. Precisamos passar por uma reforma das leis penais. A legislação que rege o sistema atual é formada por leis anteriores à década de 1980. O Código Penal é de 1940. Tem outras que ainda são do Brasil Imperial", ressalta.>
É a atual população carcerária do Brasil, a terceira maior do mundo, conforme a Universidade Birbeck, de Londres
Para resolver o problema da superlotação, o professor Henrique Herkenhoff defende que a melhor saída passa pelo Congresso Nacional. "Seria desfazer, aos poucos, essa armadilha criada por essas leis. É a medida de menor custo e maior efetividade, tanto no encarceramento, quanto na criminalidade", argumenta. >
Outras medidas que poderiam ajudar, segundo o pesquisador Pablo Lira, seriam "a ampliação do monitoramento eletrônico, das penas alternativas e a construção de novas unidades prisionais" para "chegar em um momento em que não seja mais necessária a expansão do sistema".>
À frente da Secretaria de Estado da Justiça, o secretário Marcello Paiva de Mello afirma que a oferta de vagas prisionais ficou parada por um longo período, acompanhada de um crescimento intenso da demanda. "A superlotação já vem de uma década, nacionalmente. A partir de 2019, estamos estáveis", analisa. >
Ainda assim, para resolver o problema da sobrecarga, ele aponta três principais caminhos: a ampliação da capacidade do sistema prisional capixaba, o aumento do uso de tornozeleiras eletrônicas e a expansão dos projetos de ressocialização – por meio deles os presos são qualificados para deixar o crime.>
É a quantidade que está em uso no Espírito Santo, segundo a Sejus
"Tem uma unidade com 800 vagas no Complexo de Xuri prevista para ficar pronta em doze meses após a execução da obra. Em São Mateus, que já está em construção, seriam mais 250. Além de 200 em Cachoeiro de Itapemirim. Assim como mais dois projetos, um em Linhares e outro em Vila Velha", detalha. >
Segundo o secretário, o objetivo é disponibilizar 3.500 tornozeleiras eletrônicas até o fim do ano. "Isso não gera nenhum problema de segurança pública. O preso precisa ter um perfil de baixa periculosidade e ter praticado infração leve. O descumprimento do monitoramento eletrônico é de 1,5%", garante.>
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