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Preocupados, médicos alertam para sobrecarga nos hospitais privados do ES

Os especialistas Lauro Ferreira Pinto e Henrique Bonaldi preveem risco de colapso na rede particular de hospitais com o aumento de casos da Covid-19

Vitória
Publicado em 10/12/2020 às 07h26
A rotina na UTI também é feita de anotações, relatórios, etc
Há risco de colapso na rede privada de hospitais . Crédito: Carlos Alberto Silva

Diante de um cenário de aumento significativo dos casos da Covid-19, em que o Espírito Santo registrou novo recorde em 24h, contabilizando 2.419 novos casos nesta quarta-feira (09), a reportagem ouviu os especialistas Lauro Ferreira Pinto e Henrique Bonaldi, que preveem risco de colapso na rede privada de hospitais.

O médico infectologista Lauro Ferreira Pinto foi categórico ao analisar o risco, atentando para o fato de que a contaminação no Estado aumentou significativamente, devido, principalmente, ao que ele chama de "fadiga do distanciamento", principalmente entre pessoas que compõem a classe média capixaba. Para ele, as pessoas cansaram de ficar isoladas e estão se reunindo.

Os recordes de novos casos por dois dias seguidos sinalizam a preocupação do especialista. "Recorde atrás de recorde. Nunca tivemos isolamento decente e o vírus tem comparecido aos eventos. A quantidade de gente internando é muito grande e não tem sistema de saúde que dê conta de internações assim em tão larga escala. Se a gente não mudar o comportamento — e não consigo ver isso no horizonte — acho que teremos problema", afirmou.

Na visão do médico, tem havido também cansaço e stress no atendimento dos casos do novo coronavírus, com congestionamento dos serviços de imagem e laboratorial dos hospitais. "E corre risco de não ter leito para internar, já há hospital que hoje mesmo não não tinha vaga. Este momento é diferente de julho, agora há um volume represado de cirurgias, por exemplo, que não vinham sendo realizadas antes, quando todo o sistema estava voltado para a Covid", acrescentou.

Para o cardiologista Henrique Bonaldi, a situação em alguns hospitais é crítica e o número de internações é preocupante. Na visão dele, as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) estão abarrotadas e com unidades a mais sendo destinadas à Covid-19. Apesar disso, o risco de colapso, para ele, é menor do que na primeira fase de expansão da doença e atribui isso ao fato de que agora é possível que as estruturas se policiem para reverter leitos.

"TENDÊNCIA DE PIORAR", DIZ ESPECIALISTA

De acordo com o infectologista Lauro Ferreira Pinto, a tendência para os próximos dias é de que o quadro se agrave ainda mais. "Acredito em um Natal e um ano novo difíceis. Se a população não tiver cuidado de evitar aglomeração, vai ser difícil. E tem sido feito o contrário do que deveria. E não dá para fazer leito de uma hora pra outra, não tem sistema que dê conta", alertou.

Ainda segundo o especialista, outros países, como os da Europa e os Estados Unidos, estão também com stress de leitos. Ele destaca que se não houver medida para impedir aglomeração, haverá mais pessoas morrendo. "O governo tem que se mexer e tomar atitude, como alguma medida de fiscalização. O risco é que tenha gente morrendo em casa."

"Estamos cansados, mas o vírus está aí e esta é a primeira situação dessa forma em 100 anos. A única coisa capaz de mudar o quadro é a vacina, e o Brasil está batendo a cabeça para isso", frisou.

Também para Bonaldi, com pessoas que não usam máscara nem fazem distanciamento, somadas ao comércio aberto, não há possibilidade do número de casos diminuir. "A esperança é que como a doença está sendo transmitida muito rápido, uma hora pode acabar. Mas por enquanto a chance é de aumentar. As pessoas estão cansadas dos protocolos e o país politizou e polarizou a doença, havendo quem, inclusive, não acredite na existência dela", afirmou.

TERMÔMETRO

Para o cardiologista Henrique Bonaldi, o termômetro ideal para aferir a gravidade da situação seria o volume de entradas em pronto-socorro e enfermaria. "Até porque o hospitalizado não consegue se esconder em casa, então a gente consegue enxergar e monitorar, saber inclusive quando melhoraram", explicou.

O caso de colapso, na visão do médico, surgirá quando faltarem ventiladores. "Não tem outra solução: quando vai internar, tem que ter ventilação e o colapso será quando não tiver o ventilador disponível, seja em UTI, enfermaria, etc. E se colapsar, acabaremos usando todas as UTIs e enfermarias para a Covid, e aí deixa-se de dar assistência para outras pessoas com outras doenças. Acho que não passaremos por isso agora, mas tem que ter cuidado", concluiu.

HOSPITAL SANTA RITA ACIONA PLANO DE CONTINGÊNCIA

O Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, divulgou um comunicado nesta quarta-feira (09) informando que, diante do registro, pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), do aumento do número de casos de Covid-19 no Espírito Santo, o centro hospitalar acionou o plano de contingência para readequação de leitos e fluxo de atendimento aos clientes.

Com a nova readequação, são oferecidos 46 leitos exclusivos para os casos suspeitos e confirmados da Covid-19, sendo 25 de internação e 21 de UTI, com condições de ampliar a oferta de leitos, caso necessário, segundo informou o hospital.

Atualmente o hospital afirma que há 17 leitos de UTI ocupados e 4 disponíveis, bem como 20 leitos de enfermaria ocupados e 5 disponíveis. "Do total de leitos exclusivos para internação Covid, 20 são para rede particular/credenciada e 5 contratados pela Sesa. No que diz respeito aos leitos de UTI Covid, temos 21, sendo 5 contratados pela Sesa. E o Hospital Santa Rita tem total condições de ampliar a oferta de leitos, caso necessário. Essa ação faz parte da gestão diária dos nossos leitos, que é dinâmica e reavaliada constantemente", ressaltou em nota.

DEMAIS HOSPITAIS PARTICULARES

Demandados pela reportagem, hospitais apontaram como está a estrutura de assistência a pacientes particulares para o atendimento à Covid-19. Acionados, o hospital Evangélico e o Vila Velha ainda não se manifestaram. Esta publicação será atualizada quando houver respostas.

Grupo Meridional

Em nota, a Rede Meridional informou que conta com 630 leitos ao todo no Espírito Santo, sendo 192 de UTI e os demais de unidade aberta. Atualmente, a taxa de ocupação geral é de 84% nas UTIs e 73% nas unidades abertas (leitos de enfermaria e quartos), e os leitos reservados para Covid-19 seguem a mesma proporção. "A reserva de leitos que podem ser usados para atendimento de Covid-19 continuam sendo mantidas. Essa reserva, conversão e/ou abertura de novos leitos para atendimento de casos de coronavírus é feita de acordo com a avaliação que a Rede realiza, diariamente, do crescimento dos casos suspeitos e confirmados no Estado, com uma regulação interna de leitos atuante 24 horas por dia, em constante monitoramento. A Rede reforça, ainda, que as unidades possuem áreas para isolamento de pacientes com precaução de contato, e o atendimento de rotina para os clientes em geral não foi comprometido", afirmou a nota.

Apart Hospital

O Vitória Apart Hospital informou, em nota, que dados relacionados à Covid, como número de leitos, atendimentos a casos suspeitos e taxa de ocupação, são reportados desde o início da pandemia à equipe da Sesa, responsável pelo acompanhamento e pela comunicação de dados e estatísticas sobre a doença no Estado.

São Bernardo

O posicionamento do São Bernardo Apart Hospital S.A se deu no sentido de que registrou, no mês de novembro, o total de 698 casos confirmados de Covid-19. "O número mostra significativo aumento em relação ao mês anterior, quando foram registrados 192 casos. A curva de contaminação, nos casos contabilizados pelo São Bernardo Apart Hospital, atingiu quase o mesmo patamar que no mês de julho, quando a doença alcançou seu maior pico, de 785 casos. Os dados se referem aos casos registrados no São Bernardo Apart Hospital, em Colatina", informou em nota.

Unimed

Acionada, a Unimed Vitória informou que todos os dados relacionados a casos suspeitos e confirmados, previsão de leitos e taxa de ocupação do hospital são enviados regularmente para a Secretaria Estadual de Saúde, órgão responsável por repassar as informações oficiais sobre a pandemia.

POSICIONAMENTO DA SESA

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Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) explicou que a forma de distribuição de leitos na rede privada é diferente da forma como é realizada na rede pública, podendo um hospital privado ter um conjunto de leitos disponíveis para oferta particular e também às várias operadoras do sistema de saúde suplementar. Segundo o órgão, periodicamente, gestores de 15 unidades hospitalares privadas informam as ocupações de UTIs no dia dentro do Sistema Epimed — nesse montante, a ocupação está em 80% nesta quarta-feira (09).

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