Em um vídeo que circula pelas redes sociais, o médico infectologista Aloísio Falqueto polemizou o isolamento social ao afirmar que trata-se de uma medida desnecessária para conter a pandemia do novo coronavírus. A fala foi feita durante uma manifestação política em favor dos ideais bolsonaristas, em Vila Velha, durante o último domingo (03).
"O pessoal fala você não está preocupado com a vida. Estou preocupado e muito. Não é necessário esse isolamento total, não tem prova científica que ele funciona, não muda em nada a curva natural. Eu chamo atenção que nós deveríamos ter dado ainda mais foco às pessoas idosas, com comorbidades e doenças debilitantes, e foi esquecido praticamente. Porquê é fique em casa e ninguém falava mais nada. O que tem que ser feito é isolar e proteger"
A reportagem de A Gazeta procurou o médico Aloísio Falqueto, mas por telefone, ele disse que não falaria com a imprensa. A reportagem também foi atrás de outros médicos e representantes da classe para responder: o isolamento social dá certo? A resposta foi SIM, o isolamento é um recurso para minimizar os danos da Covid-19 e salvar vidas.
POSICIONAMENTO DE OUTROS ESPECIALISTAS
"Todo o mundo adotou essa medida. Entre os países que não adotaram no início da pandemia estão Inglaterra e Suécia, que tentaram separar apenas grupos de risco, mas tiveram que recuar. Não queremos mudar apenas os números de uma pandemia recomendando o distanciamento social. Queremos salvar vidas que, muitas vezes, são vistas apenas como números por alguns."
Ao ser questionado sobre os efeitos do isolamento social, o presidente da Sociedade dos Infectologistas do Espírito Santo e médico, Alexandre Rodrigues, disse que a medida não faz a pandemia desaparecer. "O isolamento é para reduzir a transmissão no menor intervalo de tempo. A partir do momento que falamos que é um vírus de alta transmissibilidade, ter menos pessoas circulando, menos proximidade, diminuir o contato, veremos que, ao longo do tempo, algumas pessoas já terão obtido a doença e o risco de contato com o vírus será menor", destacou.
Rodrigues pontuou que o resultado a curto prazo do isolamento é um crescimento mais lento do número de casos e consequentemente, um percentual menor de casos graves também. Já a longo prazo, haverá o achatamento da curva.
"Todos os lugares que até agora controlaram fizeram isolamento social. Não podemos esquecer casos como Milão e Nova York, que se negaram a isso e depois os representantes tiveram que pedir desculpas. A doença diminuiu o seu impacto foi atrás de isolamento em todos os países.Falar que isso é uma bobagem é falta de respeito com quem está na linha de frente desse combate. Há enfermeiros morrendo, médicos morrendo. Tem pessoas em geral morrendo e muitos jovens. Hoje, por causa dessa doença, eu prefiro fazer um apelo a razão para que as pessoas acreditam no que está acontecendo"
O também infectologista Lauro Ferreira, compartilha o mesmo pensamento de Alexandre Rodrigues, e ressaltou os benefícios do isolamento social, e se mostrou surpreso em ouvir representantes da classe médica indo contra o isolamento. Ele é ainda mais enfático ao falar sobre a necessidade de se fazer o isolamento da maneira correta, inclusive não gerando aglomerações por qualquer motivo que seja, por exemplo, protestos. "Se a gente continuar fazendo um isolamento mal feito, vamos prolongar essa agonia sem conseguir minimizar danos ou sem conseguir reverter a curva, que é quando há uma infecção de um pra um apenas", explicou.
"Trata de questão científica. As análises de dados mostram, sistematicamente, a evolução da curva epidêmica, de lugares diferentes do mundo. Há diferença de impacto quando se tem um isolamento social, o benefício da conduta é clara"
Para o médico infectologista Crispim Ceruti, isolamento social e distanciamento social não são ações políticas ou ideológicas. Mas uma questão científica acima de tudo.
O que diz o CRM
O Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES) disse em nota que adota as orientações das sociedades de especialidades médicas e das autoridades sanitárias do Brasil. Alguns países adotaram o isolamento vertical como estratégia; o Brasil adotou o horizontal, quando é recomendado que todos fiquem em casa. Qualquer medida de isolamento é dura, mas necessária para deter o avanço de uma doença.