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Leonel Ximenes

Médico infectologista do ES diz que movimento de ambulâncias é uma "encenação"

Aloísio Falqueto participou de ato em apoio a Bolsonaro e afirmou que as sirenes ligadas fazem parte de um "desfile político" e que não têm relação com doentes da Covid-19

Publicado em 04 de Maio de 2020 às 12:22

Públicado em 

04 mai 2020 às 12:22
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

O médico infectologista Aloísio Falqueto, com mais de 40 anos de experiência profissional, disse que faz parte de uma “encenação” o movimento constante de ambulâncias com as sirenes ligadas nos últimos dias em Vila Velha. A declaração foi dada pelo médico em cima de um caminhão de som durante o ato de apoiadores do presidente Bolsonaro, domingo à tarde (3), em frente ao 38º Batalhão de Infantaria na Prainha.
Ao ser perguntado por um dos líderes da manifestação se pessoas com coronavírus “precisam tanto assim de ambulância”, Falqueto respondeu: “De forma alguma, isso tudo é uma encenação. Nosso serviço de saúde está bem aparelhado para atender às necessidades. Isso é um desfile político. Não tem o menor sentido pensar que um monte de gente aí está precisando de UTI. De forma alguma”. Os bolsonaristas o aplaudiram entusiasticamente.
Outra líder do movimento, após criticar os governadores que não estão liberando o medicamento, perguntou ao professor (sempre em cima do carro do som) se a hidroxicloroquina é eficaz no tratamento da Covid-19 e se “todos nós seremos contaminados pelo novo coronavírus”.
“Já existem evidências científicas que a hidroxicloroquina ajuda a proteger as pessoas e tem que ser tomada logo em dois ou três dias, não é para esperar depois que a pessoa já tem insuficiência respiratória. Ela deveria ser liberada, é um medicamento de baixíssimo custo e outros países adotaram, como os Estados Unidos.”
Sobre a contaminação generalizada da população, o infectologista discursou: “Ninguém divulga por aí. A ‘mídia oficial’ nem os governantes divulgam: nós já chegamos no topo da epidemia e já vamos agora descer ladeira abaixo”. Mais aplausos dos apoiadores do presidente, que tem feito campanha contra o isolamento social e violando as medidas de distanciamento.
Novamente uma das líderes do ato em frente ao quartel do Exército faz um discurso contra as medidas de isolamento e pergunta a opinião do professor. “Estou preocupado, e muito, com a vida. A gente sabia que não era necessário esse isolamento total, até porque não tem prova científica nenhuma de que ele funciona. Não muda nada a curva natural [da infecção pela Covid-19]”.
O médico Aloísio Falqueto em cima do caminhão no ato em apoio a Bolsonaro
O médico Aloísio Falqueto em cima do caminhão no ato em apoio a Bolsonaro Crédito: Reprodução da internet
A seguir, Falqueto fala ao pequeno grupo e defende uma tese também compartilhada por Bolsonaro. “Nós deveríamos ter dado muito mais foco para as pessoas idosas, às pessoas com comorbidade e doenças debilitantes, e isso praticamente acabou sendo esquecido. Só falam ‘fiquem em casa!’, ‘fiquem em casa!’, e ninguém falava mais nada. O que deveria ser feito é justamente proteger e isolar aquelas pessoas que podem ter uma doença mais grave. E isso acabou ficando diluído no meio de tanta ‘notícia falaciosa’, e o que deveria ter sido feito mesmo, não foi feito”.
Mais uma vez o infectologista, que é pesquisador da Ufes, foi entusiasticamente aplaudido pelas pessoas vestidas com camisas verde-amarelas. Ele respondeu levantando os braços em sinal de agradecimento.
Embora o médico tenha afirmado que o movimento de ambulâncias em Vila Velha faça parte de uma “encenação”, os números são eloquentes. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), a cidade lidera em números de casos de coronavírus no ES: são 821 casos confirmados com 20 óbitos pela doença. Vila Velha tem também o segundo bairro com mais incidência da doença, a Praia da Costa, com 108 notificações. Só perde para Jardim Camburi, em Vitória, que tem seis a mais.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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