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Entenda os diferentes números de eficácia da vacina Coronavac

Todos os números apresentados pelo Instituto Butantan estão certos. Especialistas ouvidos pela reportagem explicam as diferenças e dizem se a vacina é segura

Vitória
Publicado em 13/01/2021 às 21h46
O Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, anunciou nesta quinta-feira (7) a eficácia de 78% da vacina Coronavac contra o novo coronavírus (Covid-19)
O Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, anunciou  a eficácia da vacina Coronavac . Crédito: Adriana Toffetti/A7Press/Folhapress

Grande parte dos brasileiros vibrou, no último dia 07 de janeiro, com o anúncio do Instituto Butantan  sobre a conclusão  dos testes da vacina Coronavac. Inicialmente, o número que mais foi repercutido foi os 78% de eficácia. Esta semana, porém, a divulgação mais detalhada sobre os testes com o imunizante mostrou outro número: 50,4%, bem perto do mínimo exigido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 50%. Mas o que isso significa?

Para começar, os dois números são reais.  

Entre as fases de confecção de uma vacina, a terceira e última são os testes em humanos.  Em se tratando da Coronavac,  9.242 pessoas  foram voluntárias no país, sendo que 4.653 receberam duas doses da vacina e 4.599  receberam duas doses de placebo - aplicação de substância que não interfere no organismo.  

Nem os aplicadores e nem os voluntários tinham conhecimento de quem estava recebendo o imunizante, apenas os coordenadores das pesquisas.

O infectologista Alexandre Rodrigues explicou que, a partir daí, os voluntários foram analisados em quatro grupos, de acordo com o estado de saúde deles:

  • Graves ou moderados: quando há necessidade de internação ou de UTI;
  • Leve:  pacientes que apresentaram sintomas e precisaram de assistência médica, seja em consultório particular ou mesmo em pronto-socorro, mas posteriormente foi encaminhado para casa; 
  • Muito leve:  apresentaram sintomas, mas que não precisou de qualquer assistência médica; 
  • Assintomáticos: sem nenhum sintoma da doença, por isso não incluídos nos dados. 

A partir dessa classificação, os dados foram sendo construídos mediante a comparação entres os grupos que tomaram placebo e os que foram de fato vacinados com a Coronavac. Segundo a pesquisa, 252 participantes dos dois grupos apresentaram sintomas classificados como grave ou moderado, leve ou muito leve. Os assintomáticos não foram incluídos na conta. 

Entre os sintomáticos, 7 voluntários que tomaram o placebo desenvolveram o quadro grave da Covid-19 quando foram infectados. Já entre os que foram vacinados e tiveram sintomas, nenhum precisou de internação ou mesmo UTI. Isso é considerado 100% de eficiência para casos graves da doença,  segundo o Butantan. 

Durante a pesquisa, o Butantan classificou como quadro leve da doença quem buscou algum auxílio médico, seja em consultório ou mesmo em pronto atendimento. 

Entre os que apresentaram sintomas da doença no estágio leve e demandaram atendimento médico, 7 eram do grupo dos vacinados e 31 do grupo dos que receberam placebo. Assim, para os casos leves, a eficácia da vacina ficou na faixa de 78%. 

De todos os voluntários que apresentaram sintomas -  independente se classificados como grave ou moderado, leve ou muito leve - 167 estavam no grupo que recebeu o placebo e 85 eram do grupo dos vacinados, gerando uma porcentagem de eficácia geral de 50,38% para a Coronavac. 

Resumindo, a diferença entre os 78% e os 50,38% está nos grupos analisados. Enquanto o primeiro número leva em consideração as pessoas classificadas como caso leve, o segundo número considera todos os 252 voluntários que apresentaram sintomas, incluindo aqueles que nem precisaram de atendimento. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) leva em consideração a eficácia geral, ou seja, 50,38%. 

"Consideramos que praticamente 50% dos voluntários não tiveram a doença. E os outros 50% que tiveram, nenhum teve estágio grave ou moderado da doença, não sendo necessária internação ou mesmo UTI", descreveu o infectologista Alexandre Rodrigues.

A porcentagem mínima de 50% de eficácia de uma vacina exigida pela OMS é para romper a cadeia de transmissão do coronavírus. "Vacina é estratégia de saúde coletiva. Imagine esses resultados em escala nacional: 50% a menos de pessoas infectadas, diminuição de  78% das pessoas que precisam de médico, tomografia ou Raio-X, e sem pacientes que precisam de UTI. Isso é um impacto enorme na pandemia", explicou a epidemiologista Ethel Maciel.

Idosa britânica é a primeira a receber a vacina contra o novo coronavírus no Reino Unido
Idosa britânica é a primeira a receber a vacina contra o novo coronavírus no Reino Unido. Crédito: Reprodução/TV Globo

ASSINTOMÁTICOS

Os voluntários que receberam a vacina Coronavac ou placebo e não apresentaram sintomas não foram considerados nos dados sobre a eficácia.  "Eles teriam que realizar os exames o tempo todo e isso seria custoso para a pesquisa, além de ter que se pensar em logística para isso também. O dado que poderia ser encontrado talvez não teria um benefício. O problema maior não é que ser infectado pelo vírus, mas sim que o contaminado fique grave ou perca a vida", pontua o infectologista Alexandre Rodrigues.

O médico explicou que raramente os voluntários assintomáticos têm amostras coletadas em qualquer outro tipo de vacina. Tanto que sequer há números precisos de pessoas que foram contaminadas pelo coronavírus e, por não apresentarem sintomas, sequer foram testadas e souberam que portavam o vírus. 

Alguns países já iniciaram a vacinação contra a Covid-19
Alguns países já iniciaram a vacinação contra a Covid-19. Crédito: Freepik

NADA 100%

Não se ter 100% de eficácia é normal entre as vacinas já existentes. Um exemplo é a vacina BCG - aquela que a gente recebe quando criança e deixa a cicatriz no braço - e é distribuída amplamente pelo Sistema de Saúde.

"A vacina BCG não impede que se tenha a tuberculose, mas sim as formas graves da tuberculose, como a meningite tuberculosa. A eficácia das  vacinas existentes hoje em dia é muito variável. Existem as que tenham 80% de eficácia. Outras, porém, como a gripe aviária, tem entre 50 a 60% de eficácia, sendo necessária ser aplicada todos os anos", explicou o infectologista Crispim Cerutti.

Quanto à segurança da vacina, a Coronavac é considerada um imunizante seguro, pois apenas 0,3% dos participantes do teste tiveram alguma reação adversa (dor no local da vacina, vômito ou dores de cabeça, por exemplo). 

O infectologista Crispim Cerutti é enfático ao defender o uso da Coronavac. "A vacinação é uma  preocupação coletiva. Não vou tomar a vacina para me proteger, mas para interromper a transmissão de uma doença que está tirando a vida de muitas pessoas.  Temos que abraçar a vacina e recebe-la com alegria porque é o jeito da gente vencer esse flagelo que se abateu sobre nós", completou. 

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