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31 anos do assassinato de Maria Nilce
31 anos do assassinato de Maria Nilce. Crédito: Arquivo A Gazeta/Arte Geraldo Neto

Antes de crime, jornal de Maria Nilce foi alvo de atentado a bomba

Explosão destruiu  área de armazenamento de jornais e a cozinha, mas barulho foi sentido  em dezenas de casas localizadas em frente a sede do jorna

Publicado em 06/07/2020 às 19h09
Atualizado em 07/07/2020 às 10h40

Seis anos antes do assassinato da jornalista Maria Nilce dos Santos Magalhães, de 48 anos, o jornal que ela administrava com o marido foi alvo de um atentado a bomba. A explosão foi no dia 13 de setembro de 1983. Era madrugada e nenhum funcionário ficou ferido. A autoria do crime nunca foi descoberta.

A sede do Jornal da Cidade funcionava na Rua Graciano Neves, no Centro de Vitória. A explosão atingiu o local onde eram guardados os exemplares antigos do jornal, em uma garagem, além da cozinha. Segundo Juca Magalhães, filho da jornalista, o acervo do jornal anterior a 1983 foi dinamitado. “A explosão foi tão forte que rachou a calçada e arrebentou vidros e janelas de prédios da frente até o 8º andar”.

A redação não foi afetada, assim como a gráfica onde o jornal era impresso, que funcionava em Maruípe, o que permitiu a continuidade dos trabalhos.

Atentado a bomba ao Jornal da Cidade, de Maria Nilce dos santos Magalhães
Atentado a bomba ao Jornal da Cidade destruiu acervo do jornal. Crédito: Acervo A Gazeta/1983

No mesmo dia, outro local também foi alvo de uma bomba, porém em Campo Grande, Cariacica. Para Juca Magalhães, foi apenas uma forma de desviar a atenção do verdadeiro alvo. “Foi só como despiste, para dar ideia de que havia uma nova onda de atentados a bomba, mas que o alvo principal deles era o Jornal da Cidade”, pondera.

O atentado começou a ser investigado pela Polícia Civil e posteriormente pela Polícia Federal, mas não se chegou a autoria do atentado. “Não foi descoberto. A Polícia Federal só foi informada no início da manhã e quando chegaram, a Polícia Civil já estava no local desde cedo. Então, não encontraram nada que pudesse dizer quem foi”.

O filho da vítima não acredita que haja uma relação entre o atentado ao jornal e o assassinato da jornalista, ocorrido seis anos depois. “Não vi isto no inquérito da morte dela. O motivo do assassinato de Maria Nilce veio de outro lugar e de outras pessoas”, assinala.

Atentado a bomba ao Jornal da Cidade, de Maria Nilce dos santos Magalhães
Artefato que disparou a bomba e que foi  encontrado  na área do Jornal da Cidade destruída pelo atentado. Crédito: Acervo A Gazeta/1983

INVESTIGAÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL

Maria Nilce foi morta com três tiros no dia 5 de julho de 1989, quando chegava a uma academia na Praia do Canto, em Vitória. Pelo crime seis pessoas foram indiciadas, cinco condenadas.

As investigações foram iniciadas pela Polícia Civil, mas em setembro daquele ano foram transferidas para a Polícia Federal. Segundo o agente da corporação, Paulo Cesar Gomes, que atuou na força-tarefa, o motivo era alcançar uma apuração isenta, uma vez que haviam pessoas da área de segurança do Estado envolvidas no crime.

Os trabalhos demoraram a ser concluídos porque foi necessário checar toda investigação que havia sido feita anteriormente. “Não embarcamos em algumas linhas de investigação que tinham nos passado, pois eram para desviar de quem seriam os verdadeiros autores do crime. Foi um trabalho pesado”, relatou.

Maria Nilce dos Santos Magalhães, 48 anos, proprietária do Jornal da Cidade, foi assassinada na Praia do Canto em 5 de julho de 1989
Maria Nilce dos Santos Magalhães, 48 anos, proprietária do Jornal da Cidade, foi assassinada na Praia do Canto em 5 de julho de 1989. Crédito: Arquivo de família

Ao contrário dos trabalhos de hoje, que contam com o aparato tecnológico, na época foram necessárias muitas diligências policiais (idas a campo) e contar com o apoio de informantes. “A gente usava a figura do informante, pessoas que tinham interesse de nos ajudar, e checávamos para saber da veracidade”, conta Paulo.

Maria Nilce, dona de uma escrita afiada e polêmica, angariou vários desafetos ao longo de sua carreira. O que resultou em sua morte, segundo o agente da PF. “Ela foi vítima pelo que fazia em sua atividade profissional. Como era muito atuante, incomodou algumas pessoas que estava à margem da lei”, relata.

VÁRIAS AMEAÇAS

Segundo Paulo, que hoje está aposentado,  a jornalista vinha sendo alvo de muitas ameaças, mas não foi possível estabelecer uma relação entre elas e o crime. “Hoje se você faz ameaças, é fácil identificar de onde partiu, diferente daquela época. Como ela era uma profissional atuante, combativa, recebia muitas ameaças de pessoas à margem da lei. Mas eram veladas e não tinha como identificar quais seriam os caminhos das ameaças”, conta.

A morte da jornalista ocorreu em uma época em que eram registrados muitos crimes de mando no Espírito Santo, como relata Paulo. Mas as investigações do caso abriram espaço para outras da Polícia Federal. “Eram muitos crimes de mando. No decorrer das investigações identificamos outros crimes que haviam sido praticados por pistoleiros, uma ação criminosa que acabou reduzindo um pouco em razão da atuação da Polícia Federal”, relatou.

Paulo Roberto Poloni Barreto, diretor financeiro do Sindicato dos Policiais Federais no Estado do Espírito Santo (Sinpef-ES),  as investigações da morte de Maria Nilce foram um marco.

“Um caso emblemático, sendo o marco de uma guinada nas apurações de outros crimes violentos até então sem a devida resposta de autoria no Estado. Se não fosse pela participação dos agentes federais através da força-tarefa, o caso Maria Nilce seria hoje o que é o caso Araceli”.

QUEM FOI MARIA NILCE

  • Quem era: jornalista, apresentadora e escritora, Maria Nilce dos Santos Magalhães era proprietária do Jornal da Cidade. Atuou em vários veículos no Espírito Santo.
  • Família: casada com o jornalista Djalma Magalhães, deixou 4 filhos. Uma delas, Mila, a acompanhava no dia do crime.
  • Livros: é autora de cinco livros de crônicas. Junto como o marido, escreveu outros dois sobre personalidades do Espírito Santo.
  • Empreendedorismo: nos últimos anos, ela realizava almoços que comemoravam o dia internacional da mulher, onde reunia as empreendedoras capixabas que se destacavam, algumas citadas em seu livro.
  • Polêmica: era famosa por uma escrita afiada e cheia de personalidade que conquistou alguns desafetos na alta sociedade capixaba. Em diversas entrevistas, Maria Nilce relatava “que não tinha medo de dizer a verdade”. Em relação ao temor que causava, afirmava que “sem temor não havia respeito” e  que "as pessoas respeitavam Maria Nilce”. Em seu jornal, segundo a família, publicava fatos do dia a dia. “Às vezes polêmicos, mas não eram calúnias”, pontua o filho Juca Magalhães.
Página de a Gazeta sobre o atentado a bomba ao Jornal da Cidade, de Maria Nilce dos Santos Magalhães
Página de a Gazeta sobre o atentado a bomba ao Jornal da Cidade. Crédito: A Gazeta 13/09/1983

CRIMES BRUTAIS

Esta é a segunda reportagem de uma série, de A Gazeta, que vai resgatar os crimes brutais que marcaram a história do Espírito Santo. A primeira foi sobre os 20 anos da morte da adolescente Isabela Negri Cassani, de 15 anos, publicada em outubro do ano passado.

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