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Publicado em 24 de setembro de 2021 às 17:24
Nas mãos, agulha e linha. Na cabeça, a memória da mãe fazendo crochê. É possível que, com essas poucas palavras, você já comece a criar na mente a imagem de uma pessoa. E se ela fosse, na verdade, um homem em situação de rua? É exatamente essa a história do artesão capixaba Marcos Antônio Alves dos Santos, de 46 anos. >
Nascido em Cariacica, ele lembra da boa infância com a avó e conta que começou a trabalhar, ainda adolescente, em uma loja de tecidos no Centro de Vitória. "Depois, acabei mudando de profissão e trabalhando com culinária. Mas, infelizmente, eu dei um passo errado na vida e até hoje estou tentando reverter", admite.>
Sentado em uma calçada de Vila Velha, Marcos Antônio chama a atenção das pessoas pela habilidade manual e a história dele chegou aos olhos apurados do fotógrafo Vitor Jubini, de A Gazeta, que entrevistou o artesão. O homem relata que recorreu ao crochê após sofrer com uma crise na vesícula e precisar voltar para a rua.>
"Eu trabalhava em lava a jato em troca de algum dinheiro e lugar para ficar, mas como era uma época de chuva, não tinham muitos carros para lavar. O dono já tinha funcionários e eu passei a me sentir um peso morto. Então, eu fui embora e comecei a catar latinha, mas senti que precisava ir além", lembra.>
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Marcos Antônio Alves dos Santos
Artesão em situação de ruaApós receber o material doado em ato de solidariedade, ele deu ponto atrás de ponto. Surgiram toalhas de mesa, tapetes, bolsas e malhas. "As pessoas passavam por mim, gostavam do meu trabalho e encomendavam. Até estou em dívida com algumas, porque, como não tenho lugar para guardar, as linhas somem e eu preciso correr para repor da mesma cor que elas pediram", relata.>
Atencioso, ele comenta sobre os cuidados extras que terá que ter para poder fazer um jogo de sousplat (uma espécie de suporte decorativo para pratos). "Eu pretendo fazer com a linha branca. Então, tenho que estar com as mãos limpas, brilhando, né? Para não sair um trabalho mal feito, sujo", afirma.>
Marcos Antônio Alves dos Santos
Artesão em situação de ruaPara o futuro, Marcos Antônio espera poder colocar um preço nos trabalhos que faz. "Às vezes, eu passo dias fazendo um tapete grande. Aí passa um carro, pergunta quanto custa e eu falo que é R$ 60, mas ele só tem R$ 30. Com a minha necessidade, eu pego. Queria mesmo é poder colocar preço, como um comércio", aponta. >
Durante a entrevista, concedida quase toda em tom esperançoso e, por vezes, até animado, Marcos Antônio consegue até apontar um ponto (quase) positivo do atual contexto. "Tem um lado mais suportável, que é a questão da liberdade. Eu gosto desse pontinho, mesmo que seja falsa essa liberdade e que, às vezes, até me custe caro", opina.>
Entretanto, como ele bem disse, não tem lado bom em ser morador de rua. Sobram carências físicas e sentimentais. "O pior lado é a hora em que você precisa fazer necessidades e tomar um banho, porque o alimento até que vem. Já sentimentalmente falando, o que mais pesa é a falta da família", desabafa.>
Cheio de saudade, ele parece costurar a esperança a cada ponto de crochê, em busca de um lugar para ficar. "Eu só quero um canto para colocar minhas coisas e deitar. Um banheiro. Essa é a minha necessidade hoje. Não sei até quando vou esperar. Só sei que um dia essa porta vai se abrir", finaliza, confiante.>
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