O avanço da tecnologia no campo e a busca por novos mercados estão entre os caminhos para ampliar o espaço do café conilon do Espírito Santo no comércio internacional. Nesse cenário, a China desponta como uma oportunidade para os produtores capixabas, com o crescimento do consumo de café no país, tradicionalmente consumidor de chá, e a abertura de novas possibilidades de negociação com o mercado asiático.
Segundo o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), até setembro de 2026, as exportações de café pelos portos do Espírito Santo para a China chegaram a 8.438 sacas, sendo 7.334 de conilon. No mesmo período, em 2025, todo o Brasil havia exportado 11.667 sacas de café, todas de conilon.
A expansão, no entanto, depende de mais do que conquistar novos compradores. Para ampliar a presença no exterior, o setor precisa combinar qualidade, volume e regularidade na oferta, além de investir em técnicas que preservem as características do café durante a colheita e o processamento. Todas as etapas do campo à xícara, portanto, têm espaço para melhorias para que o conilon produzido no Espírito Santo mude de patamar nas prateleiras internacionais.
Esses foram alguns dos pontos discutidos no painel Diálogos.ag, realizado na sexta-feira (23), em São Gabriel da Palha, na Região Noroeste do Espírito Santo, durante a programação do Concurso Conilon de Excelência Cooabriel 2026. Com o tema “Conilon de excelência: oportunidades para o produtor capixaba”, o encontro reuniu representantes do poder público, do cooperativismo e do mercado de cafés.
O melhoramento genético, a pesquisa e as técnicas de pós-colheita têm contribuído para ampliar as possibilidades de uso do conilon, inclusive em produtos de maior valor agregado. O trabalho envolve desde características do fruto até o controle da secagem, etapa que influencia o resultado sensorial da bebida.
Para Tassio Souza, mestre em Agroecologia pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes) e doutorando em Biotecnologia Vegetal pela Universidade de Vila Velha (UVV), com linha de pesquisa voltada para a influência ambiental na qualidade do café, o avanço tecnológico precisa vir acompanhado de capacidade para atender à demanda dos compradores.
“A medida com que a gente vem fazendo esse trabalho no campo, fazendo um trabalho de controle de secagem e estratégias de pós-colheita bem executadas, esses cafés estão sendo apreciados e ganhando uma identidade”, diz o pesquisador, que é ainda mestre de torra formado pelo Centro de Preparo de Cafés de São Paulo e servidor do Instituto Capixaba de Pesquisa Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), onde coordena o projeto Cafeicultura Sustentável, na Região Sul do Espírito Santo, e a unidade de Muqui do Centro de Cafés Especiais do Espírito Santo.
O conilon, tradicionalmente utilizado em blends — misturas com diferentes tipos de grãos —, também tem conquistado espaço em produtos compostos exclusivamente pela variedade de canéfora. Para ampliar essa participação, porém, é necessário entender as características exigidas por cada mercado e garantir que elas sejam mantidas entre safras e até entre lotes.
A evolução da qualidade pode ajudar o Espírito Santo a disputar mercados com países como Vietnã e Índia, importantes produtores de café robusta. A concorrência internacional exige, além de atributos sensoriais, capacidade de fornecer quantidades suficientes e manter um padrão de qualidade ao longo do tempo.
Já conseguimos ter os cafés brasileiros entrando 100% em marcas, dado o tamanho e a quantidade de cafés finos e as notas aromáticas que a gente encontra nas xícaras de cafés do Brasil e aqui do Espírito Santo
Tassio de Souza Pesquisador e especialista em café
A ampliação das vendas também depende de fazer com que os investimentos em tecnologia e qualidade se traduzam em retorno econômico para quem produz. Para Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel, a rentabilidade está ligada à eficiência no campo, ao controle dos custos e à capacidade de agregar valor ao café.
O mercado chinês é uma das frentes que podem diversificar os destinos do café capixaba. Isso porque, segundo os painelistas, o perfil chinês, que antes consumia mais tipos de chá, passou a aderir ao café.
“A China hoje já bebe uma Itália de café. Temos que fazer uma imersão e entender quem consome, por que consome e as misturas que são feitas. Quando chegarmos ao mercado, já teremos o produto feito para eles”, afirmou o secretário de Estado de Desenvolvimento Rural, Michel Tesch.
Ao ser questionado se o Espírito Santo já possui o que é necessário para chegar às prateleiras da China, Tassio Souza garantiu que o Estado já tem o que é preciso ampliar seu mercado.
Veja Também
“Quando a gente prova os cafés que representam os países lá fora, com blends e aplicações em cafeterias, já sabemos o que precisa ser apresentado, ainda mais com a qualidade do produto capixaba."
Em novembro de 2025, uma comitiva de diplomatas chineses visitou uma feira de café conilon em Jaguaré, na Região Norte do Estado, para conhecer a cadeia produtiva e discutir possibilidades de cooperação comercial. Na ocasião, representantes chineses destacaram o potencial de levar o produto capixaba ao varejo do país asiático.
A abertura de mercado também avançou no âmbito nacional. Em agosto de 2025, a China habilitou 183 empresas brasileiras para exportar café ao país, ampliando o número de fornecedores autorizados a negociar com os compradores chineses.
“Essa é a nossa aplicabilidade, mas você precisa apresentar. Essa fama e personalidade dos nossos cafés precisam chegar ao mercado internacional”, avaliou Tassio.
Leia mais